Existe amor em SP
Marat, Jair e Clarissa. © Marcos Camargo

A ambiguidade já está no título: “Super Nada”. De um lado, excesso. Do outro, coisa alguma. Não é um acaso, mas sim o incentivo à dúvida. Confundir a real natureza dos personagens e colocar falsos atalhos no caminho que o espectador tem de seguir dentro do filme é possivelmente o traço mais forte dos dois longas de ficção de Rubens Rewald, codirigidos por Rossana Foglia.

Em “Corpo”, longa de estreia do paulistano, diretor de cinema e professor de dramaturgia, um médico legista descobre um cadáver que data da década de 1970, mas que estranhamente permaneceu conservado até os dias de hoje. Fissurado, Artur persegue a história. Quanto mais perto pensa que está, mais se distancia da verdade, passando por uma idealização da personagem à James Stewart em “O Corpo que Cai”, de Hitchcock.

Já em “Super Nada”, o registro está próximo do cômico. Acompanha-se as agruras de Guto (Marat Descartes), ator já na casa dos 30, mas cuja vida se parece com a de um estudante ainda na faculdade. A torneira da pia do banheiro não funciona, o sofá se equilibra com uma pilha de livros. A filha mora com a avó (Denise Weinberg) porque a renda não é suficiente para bancar uma casa. Trabalho? Participações em pegadinhas de programas de televisão, testes para propagandas de produtos de limpeza, um espetáculo alternativo que alimenta a alma, mas não põe comida na mesa.
Seria Guto um primo da Bianca de “Riscado”, ator talentoso, mas vítima da injusta escassez de recursos do ambiente de produção cultural alternativo? Em cena, a ambiguidade. “Isso sempre foi natural para mim. As minhas peças tem esse tema também, principalmente ‘Narrador’ e ‘Umbigo’. Acho que isso é uma marca de São Paulo e sou paulistano até a medula. Esse sentimento de incerteza, de ambiguidade, é muito comum aqui”, afirma o diretor.

Rubens Rewald, cineasta e dramaturgo: revelação do novo cinema paulista

Conforme o filme avança e Guto se torna mais próximo, os sentimentos do espectador se alternam entre compaixão, identificação/distanciamento e raiva. “Isso é muito rico em termos dramáticos, pois você joga também com a incerteza do espectador, que nunca está muito seguro sobre o que está assistindo. Isso é o legal da ambiguidade: você faz o espectador, a todo o momento, construir hipóteses, manter algumas, abandonar outras e isso faz ele ser ativo o tempo todo, quase um jogador, um parceiro, construindo o filme junto com você. É isso que eu busco”.

Elenco na linha de frente

Já no argumento e tratamentos iniciais do roteiro de “Super Nada” estava claro o desejo de falar sobre as dificuldades de um personagem em exercer sua arte numa cidade como São Paulo, que ora odiamos, ora amamos. Apesar do componente específico da carreira de ator – a rotina dos testes para papéis, por exemplo – o desejo nunca foi o de restringir as possibilidades de identificação. Não é preciso viver de interpretar para entender a natureza das angústias do protagonista.

“Muitos espectadores se identificam com ele, mesmo não sendo atores. Pois o momento que Guto passa é muito comum na nossa experiência cotidiana. A todo o momento, temos que nos superar, provar que somos bons, que temos condições de exercer nossa profissão, que merecemos uma chance. Alguns até conseguem essa chance, mas muitos não. Passam despercebidos”.

A responsabilidade do papel caiu nas mãos e no corpo de Marat Descartes, rosto reconhecido por quem acompanha a cena cinematográfica autoral brasileira – “Trabalhar Cansa”, “Corpo Presente”, “Os Inquilinos”, “Um Ramo” –, mas que ainda não tem o apelo de massa de um Wagner Moura. “O Marat trouxe não só seu enorme talento, mas também a vivência desse circuito off. Ele conhece esse submundo dos atores sem trabalho, vivendo só de testes, de bicos, subempregos e grandes expectativas de trabalhos futuros. Ele juntou essa experiência com a sua sensibilidade e criou um personagem melancólico, perdido, que o público torce, sente pena, às vezes raiva”.

Se a presença de Marat é a segurança, pois já sabemos que ele é um ator de ponta, a de Jair Rodrigues é a insegurança, o inesperado, o prazer da descoberta. O intérprete de “Disparada” e “Deixa Isso pra Lá”, eleito pela revista “Rolling Stone Brasil” uma das 100 maiores vozes da música brasileira, interpreta Zeca, comediante de um decadente programa de televisão para o qual Guto consegue “o teste de sua vida”.

A ginga, a animação e o talento nato de Jair em colocar pimenta no angu trouxeram outras cores ao personagem, mergulhando ainda mais “Super Nada” na ambiguidade das relações. “Trazer o Jair foi um risco calculado. O Zeca é um personagem absolutamente ambíguo, diabólico e camarada, generoso e mesquinho, divertido e perigoso, tudo ao mesmo tempo. Ele subverte a trama e a vida do Guto. Queríamos alguém que subvertesse tudo, inclusive as regras do naturalismo/realismo. Alguém que fosse imprevisível, grandioso, inesperado. E também queríamos um ator que o espectador batesse o olho e o reconhecesse”.

As escolhas deram resultado e o elenco tem sido responsável pelos principais prêmios do filme em sua trajetória por festivais em 2011. Gramado deu o prêmio de Melhor Ator a Marat e o Festival do Rio, onde o longa competia na seleção Novos Rumos, o de Melhor Filme e Prêmio Especial a Jair.

O processo de ensaio contou com a colaboração da diretora teatral Cristiane Paoli-Quito. Com a anarquia de Jair lapidada e sua energia histriônica concentrada, o personagem tomou outros rumos. “Sua participação é tão carismática que se pode dizer que ele transformou o filme. No roteiro, seu personagem era mais decadente, depressivo, bêbado, mal humorado, sacana. O Jair deixou-o mais alegre, iluminou o Zeca e isso acabou iluminando todo o filme”.

É esse tom cômico-melancólico do filme que fez com que Tales Ab’Saber, autor de “Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica” e codiretor com Rewald do documentário “Esperando Telê”, definisse “Super Nada” como uma “comédia depressiva”. “Esse choque de sensações me agrada muito”, explica o diretor.

 

Por Heitor Augusto

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