Impregnação poética de Lina Chamie
© Aline Arruda

Lina Chamie é uma ave rara no cinema brasileiro. Desde seu primeiro longa, “Tônica Dominante” (2001), ela faz em seus filmes um corpo a corpo intenso com São Paulo, mergulhando seus personagens no ritmo vertiginoso de uma cidade cuja pulsação depende do fluxo do trânsito, do abrir e fechar dos semáforos, das multidões se espremendo no Viaduto do Chá. O que faz dela uma herdeira distante de Luiz Sérgio Person e seu clássico “São Paulo S.A.” (1965).

Filha do poeta Mário Chamie, Lina formou-se em música e filosofia e carrega essas influências eruditas para o seu cinema. O auge desse corpo a corpo entre cidade, personagens, música e poesia veio em 2007 com seu segundo longa, “A Via Láctea”, história dos encontros e desencontros de um casal (Marco Ricca e Alice Braga) que foi selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes e rodou o mundo em outros festivais.

Depois do amor, a amizade. Em “Os Amigos”, exibido nos últimos festivais de Gramado e do Rio, ela se inspirou na própria amizade com Marco Ricca para fazer uma ode à amizade e à importância das experiências de infância na vida adulta.

Em dezembro, ela lança “São Silvestre”, o documentário que São Paulo estava devendo à mais célebre corrida do país. Mas não um documentário qualquer, e sim um filme-ensaio que mergulha o espectador na experiência da corrida, construído sem uma única palavra, apenas ao som de sinfonias clássicas de Wagner e Brahms, o que aproxima o filme de outro clássico, “São Paulo – Symphonia da Metrópole” (1929).

Lina adora falar de cinema, mas os olhos se arregalam mesmo quando o assunto é sua maior paixão, o Santos, tema de seu documentário “Santos, 100 Anos de Futebol Arte”. Chega a descrever Neymar como um ser iluminado e justifica: “Você aguenta tudo do seu time, mas não aguenta tudo do seu cônjuge”.

Revista de CINEMA – “Os Amigos” é um filme que trata de frente as marcas da infância na vida adulta. Esse é um questionamento que apareceu pra você nos últimos anos?

Lina Chamie – É algo que existe no meu olhar para o mundo. Trago uma inocência desse período. A gente cresce, vira adulto, enfrenta o mundo, mas algo ali da infância ainda vibra, a gente carrega isso. A morte do amigo do Téo traz essa lembrança da infância e ele vive esses dois espaços, o ser adulto e a criança dentro dele. Às vezes a gente se esforça bastante em ser adulto, entender o mundo como adultos, quando esse lado mais puro da criança ainda nos habita.

Pessoalmente, tenho essa vivência de várias perdas na minha vida. O filme é dedicado ao Rodrigo Santiago, ator que faleceu quando estávamos rodando o filme. É como se a vida fosse um longo adeus; você se despede de muitas coisas ao longo da vida. Esse tema da perda permeia os meus filmes de ficção.

O ator Marco Ricca e Lina Chamie nas filmagens de “Os Amigos”: a amizade de Lina com Ricca levou a diretora a criar a história do filme inspirado nos laços da infância

Revista de CINEMA – E o tema da amizade, como se impôs?

Lina Chamie – Acho que a amizade é uma força subdimensionada. Ela não tem o mesmo glamour do amor, mas segura uma onda forte na nossa vida. Minha amizade com o Marco Ricca me moveu a fazer um filme sobre a amizade como fonte do amor, enquanto força subversiva. O amor é mais performático, mas a amizade é uma força muito grande. A personagem da Dira Paes diz: “É a amizade que sustenta o amor”.

Revista de CINEMA – Você é uma das raras cineastas que insistem na construção de um cinema poético, um pouco desconectado da narrativa pura e simples. É uma busca intencional? Como bate a influência da poesia do seu pai e da sua formação em música e filosofia no resultado final dos seus filmes?

Lina Chamie – Essa descrição de mim é quase um massacre (risos). Tem uma herança aí, ninguém foge de si mesmo. Meu olhar para o mundo é impregnado dessas coisas.

Quando dei o roteiro pro meu amigo José Roberto Torero ler, falei: “Fica tranquilo, não tem um poema nesse filme” (risos). Se há poesia em “Os Amigos”, é a poesia do cotidiano. É um filme que não busca respostas, mas procura olhar a vida nos seus gestos cotidianos. A poesia está nas entrelinhas das relações, na simplicidade dos gestos, nas crianças. Mas “Os Amigos” é um filme bem mais linear, ao contrário de “São Silvestre”, um poema visual construído sem uma única palavra.

Revista de CINEMA – Você cerca todo o filme de referências mitológicas. As crianças encenam a história de Ulisses, e Téo (Marco Ricca) presenteia o filho do amigo morto com um boneco de Hércules. Por que as referências mitológicas?

Lina Chamie – Do Ulisses do Homero, tiro essa ideia de que voltar para casa é voltar para si mesmo. Há também um eco distante do Ulisses de James Joyce nessa ideia da vida e seus desdobramentos concentrados num único dia.

O Ulisses é o paradigma da jornada do herói. Há lugares em que só o herói pode ir sozinho, como o Reino dos Mortos. O filme começa com uma morte. Também tem algo do herói que precisa revisitar o passado pra avançar, ir pra frente. É uma história de viagem, e não cheia de conflitos e obstáculos. O obstáculo é simplesmente seguir em frente. O que já é em si um obstáculo. Ainda mais em São Paulo, com trânsito e chuva (risos).

Os atores Davi Galdeano e Lucas Zemberlam, em cena de “Os Amigos”, representam a fase da inocência e da amizade

Revista de CINEMA – Quais são os filmes de amizade que mais te marcaram como cinéfila?

Lina Chamie – “Fale com Ela”, do Almodóvar, um dos filmes mais belos sobre o poder subversivo da amizade, o poder de transformar o outro e se transformar através do outro. “Julia”, de Fred Zinneman, com a Jane Fonda e a Vanessa Redgrave. E “Gallipoli”, do Peter Weir, sobre dois amigos, corredores australianos que vão lutar na Primeira Guerra.
É engraçado: a amizade está muito presente no cinema, mas ela não é promocional. O amor vende mais (risos). O exercício de comunicação é a essência da amizade, assim como do cinema.

Revista de CINEMA – Como foi trabalhar com crianças pela primeira vez? Como chegou aos atores?

Lina Chamie – Foi sensacional, aprendi muito. O set tinha uma energia ótima, porque todo dia havia crianças no set. São as crianças que conduzem o filme; o Téo está perdido. São elas que guardam a sabedoria das coisas.
Tínhamos 25 crianças, entre as quais seis protagonistas. Conhecemos e testamos cerca de duzentas. No set, tudo foi no tempo delas. O Diogo Matos, um ex-aluno meu, fez a preparação do elenco. Tivemos a preocupação de passar um bom tempo (dois meses) com as crianças antes de filmar. Ainda penso no cinema como um corpo a corpo, acho um pouco estranha a palavra “preparação”. No fim das contas, quem prepara o ator é o diretor.

Revista de CINEMA – Você é conhecida por dar uma atenção especial a São Paulo em seus filmes, construir uma montagem que mergulha os personagens no ritmo vertiginoso da capital – o melhor exemplo disso é “A Via Láctea”. Você acha que São Paulo ainda é mal filmada – ou pouco filmada – pelos nossos cineastas?

Lina Chamie – São Paulo é uma atriz difícil, um pouco temperamental, mandona, não faz exatamente o que você quer (risos). O que mais me fascina é o fato de ter uma beleza oculta, nada fácil, que não é explícita. O Rio, ao contrário, tem uma beleza que está lá, pra todo mundo. Em São Paulo, você vai descobrindo essa beleza aos poucos. A cidade guarda mistérios. Filmo em São Paulo porque moro aqui, é o ar que eu respiro todos os dias. Esse espaço é uma extensão natural da minha vida. “São Paulo S.A.” é um dos filmes mais belos da nossa história, mostra a maneira como a cidade abraça o protagonista. A gente não passa impune ao nosso entorno.

Mas não acho que São Paulo seja pouco filmada. De uns tempos pra cá, voltou a ser bastante filmada, inclusive a sua periferia. A paisagem urbana está sendo redescoberta. O “Não por Acaso”, do Phillipe Barcinski, é um belo exemplo, em que a cidade é uma protagonista forte, não é mero cenário.

Revista de CINEMA – “São Silvestre” é um filme que subverte as expectativas do espectador. Em vez de um documentário convencional, com entrevistas e depoimentos dos corredores, você constrói um ensaio um pouco delirante sobre a experiência da corrida na cidade, fazendo o espectador sentir-se dentro dela. Como era a sua relação com a corrida antes de filmá-la?

Lina Chamie – Eu morava em frente à chegada da São Silvestre, no Edifício Gasperini, ali do lado do prédio da Gazeta. Costumo viajar pouco, sou realmente uma ave rara paulistana. Nos feriados, prefiro ficar aqui – acho que a cidade fica com mais cara de férias do que se eu fosse pra outro lugar. Via aquela corrida o tempo todo, e um dia pensei que ninguém nunca tinha filmado essa corrida que está no imaginário de todo o Brasil – até porque é uma passagem pro Ano Novo, tem um carisma enorme.

Esse documentário teve uma particularidade óbvia: tínhamos apenas uma diária para filmar, se não teríamos de esperar o ano seguinte. Como não deu tempo de captar recursos para um longa, em dezembro de 2010, decidimos testar uma câmera que corresse junto com os atletas, percorrendo a cidade. É bem complicado – você tem que dimensionar a maneira como o atleta pisa no chão, os trancos etc. Também rodamos entrevistas e depoimentos – eu queria entender o que as pessoas sentiam. Ao final, concluímos um curta, que foi exibido no É Tudo Verdade e ganhou o Prêmio Canal Brasil.

No longa, que conseguimos rodar na corrida de dezembro de 2011, tivemos 18 câmeras acopladas em atores, de seis modelos diferentes, entre película e digital, incluindo uma acoplada de frente pro nosso ator, o Fernando Alves Pinto. Quatro câmeras foram acopladas numa bicicleta. O Nando percorreu 15 quilômetros com aquela câmera – o rosto dele se transfigurando é de verdade; ao final ele parece um Cristo. No longa, decidi tirar todas as entrevistas, e assim eles resultaram em irmãos bem diferentes.

Fernando Alves Pinto, no longa “São Silvestre”: um ensaio poético sobre a ânsia de vencer

Revista de CINEMA – O “Santos” foi um projeto de encomenda? Quais foram as entrevistas ou as declarações mais inesperadas?

Lina Chamie – Esse filme foi um dos maiores presentes que eu ganhei na vida. Sou santista num grau extremo, é uma coisa muito séria (risos). Imagina o que foi ser convidada para fazer o filme sobre o centenário do Santos, juntar cinema e futebol, minhas duas grandes paixões.

O amor pelo futebol tem muito a ver com o amor paterno. É o amor que mais dura na vida. Você aguenta tudo do seu time, mas não aguenta tudo do seu cônjuge (risos).

Meu pai morreu no meio das filmagens, o filme é dedicado a ele. Muita gente no filme fala: “Meu pai me levou para ver o Santos…”. O filme acabou refletindo o futebol como continuidade do amor paterno. Eu estava lá na final de 1973, em que erraram a contagem dos pênaltis.

Algumas entrevistas me surpreenderam. O Robinho ficou duas horas com a gente sentado no gramado da Vila Belmiro. A entrevista com o Leão surpreendeu pela humanidade – ele falou muito sobre a sua relação paternal com os meninos do time de 2002.

E o Neymar, claro. Entrevistar o Neymar é como estar perto da luz (risos). Se você conseguir um pouco daquela luz na sua vida, você será um ser mais sábio. Ele tem a sabedoria da felicidade, tem uma energia maravilhosa.

Revista de CINEMA – Nos seus últimos projetos, você tem alternado ficções e documentários. O seu método de trabalho é diferente para cada um deles, ou existe um mesmo trabalho no sentido de imprimir seu estilo e sua visão dos temas?

Lina Chamie – Gosto dessa ideia de ser levada pelos filmes, ser levada para universos diferentes. São propostas que se instalam dentro da gente, sem a gente querer domesticar o trabalho. E cada um vai seguindo seu próprio caminho. É bom ver “Os Amigos” e “São Silvestre”, ver como resultaram diferentes e como amei fazer os dois.

Revista de CINEMA – Você ficou cinco anos sem filmar, entre “A Via Láctea” (2007) e o documentário do Santos. Foi uma opção sua, ou não conseguia dinheiro para filmar?

Lina Chamie – Nesse período fiz dois telefilmes, um para a TV Cultura e outro para a Record, além do curta da São Silvestre. “A Via Láctea” acabou tomando muito tempo – como foi selecionado para a Semana da Crítica de Cannes, ficou dois anos viajando o mundo. Tive que cuidar disso, porque eu era também a produtora. “São Silvestre” tomou muito tempo para a finalização, gostaria de ter lançado antes. E “Os Amigos” demorou para começar a filmar, tínhamos que concluir a captação. No fim, os dois vão sair quase ao mesmo tempo.

Revista de CINEMA – Como você vê o sistema de leis de incentivo para o cinema brasileiro hoje?

Lina Chamie – Acho que a maior dificuldade ainda é a distribuição, a visibilidade dos filmes, a ocupação do mercado. Os filmes são forças que a longo prazo vão se instalando na nossa cultura, no nosso hábito. Os filmes brasileiros ainda precisam ocupar um espaço maior no nosso país. Sou respeitosa quanto à discussão da cota de tela, porque ela envolve uma série de desdobramentos, de outras discussões, mecanismos complexos de política cultural.

A questão é como fazer com que os filmes comerciais e os filmes autorais existam, mas não um em detrimento do outro. Há uma ideia falsa de que o filme de autor não busca público – ele busca sim. Todos nós queremos conversar com alguém; eu faço filme para um público sim. Mas há diferentes públicos. Como a gente já tem uma fatia de público muito restrita em relação aos filmes estrangeiros, a fatia que sobra é ocupada hoje pelo blockbuster brasileiro. Sobra um espaço muito exíguo para o outro cinema. Um não merece mais que o outro. O desafio é como não romper a acessibilidade do público a esse cinema que conversa de outra forma, representa outras coisas em termos de identidade nacional.

O problema hoje é que a gente sofre muito pra conseguir fazer o filme chegar a alguém. Não conseguimos formar o hábito. Hábito é constância – o cara tem que ter algumas chances de ver outros filmes. É claro que um filme mais radical não vai fazer o mesmo público de uma série de TV transposta para a telona. Mas é preciso manter a oferta. Deve-se entender que a sobrevivência de um filme enquanto objeto de reflexão e representação da nossa cultura não está ligada à bilheteria. São duas coisas diferentes brigando num mesmo campo que já não dá conta.

Revista de CINEMA – Algum novo projeto em vista?

Lina Chamie – Estou escrevendo um roteiro com o Toni Brandão, escritor de literatura infanto-juvenil. Chama-se “2 a 1”, sobre um grupo de adolescentes, mostrando as vivências dessa garotada. Começa numa partida de futebol. Deve ser um novo horizonte na minha carreira.

 

Por Thiago Stivaletti

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