Entrevistas Produção Cinema Slideshow — 27 fevereiro 2015
O ser do sertão
Foto Camilo Cavalcante: Mário Miranda Filho

O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante, ao longo de 20 anos de carreira e 14 curtas, cristalizou um estilo muito particular de filmar, apostando no poético e no sinestésico. Camilo não tem receio de se expor em seus filmes, de explorar a emoção, o sentimento e as sensações. Nessa busca, o diretor se apropria de elementos das mais diversas artes, como a música, a literatura e o teatro. Tais características têm rendido bons frutos ao cineasta que, com sua primeira incursão em longas-metragens com “A História da Eternidade” (2014), estreou no 43º Festival de Rotterdan, na mostra Bright Future, e ganhou como melhor filme em festivais como Paulínia, Vitória e Mostra Internacional de São Paulo.

Nascido em Recife, em 1974, Camilo cresceu no sertão do Piauí e da Paraíba. É a partir desse referencial imagético e emotivo que construiu parte de sua obra, inclusive “A História da Eternidade”, o longa, recém-lançado nos cinemas. Nele, Camilo cruza três histórias femininas em um vilarejo sertanejo: Alfonsina (Débora Ingrid), 15 anos, enquanto cuida da família de homens rígidos, sonha em conhecer o mar e só o tio Joãozinho (Irandhir Santos) lhe dá o mínimo de esperança; Querência (Marcélia Cartaxo) entra em luto após perder o filho, mas o sanfoneiro Cego Aderaldo (Leonardo França) tenta resgatá-la da depressão; Das Dores (Zezita Matos) recebe o neto (Maxwell Nascimento), fugido de São Paulo.

Curta-metragista bastante premiado com filmes como “Ave Maria ou Mãe dos Oprimidos” (2003), “O Presidente dos Estados Unidos” (2007) e “Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos” (2009), Camilo penou para realizar seu primeiro longa-metragem. Foram anos e anos tentando captar recursos, sempre sendo recusado pelos editais. Em 2010, o filme foi aprovado no edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Pouco depois, recebeu complementação de verba para finalizar o longa pelo Funcultura, Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, ligado ao governo do Estado. No total, o filme contou com o orçamento de R$ 1,7 milhão. “A História da Eternidade” nasceu a partir do curta homônimo de 2003, sendo filmado em quatro semanas e meia, entre agosto e setembro de 2012. Ao longo dos 12 anos que o filme levou entre ser concebido e ficar pronto, mudou um bocado de coisas.

Em entrevista exclusiva para a Revista de CINEMA, antes de embarcar para o Festival de Havana, Camilo Cavalcante conta sobre o processo criativo de “A História da Eternidade”, o trabalho com o sertão e a busca de uma estética, além de falar sobre os novos projetos.

Cena do curta-metragem muito premiado “Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos”

Revista de CINEMA – Como surgiu o longa “A História da Eternidade”?

Camilo Cavalcante – Em 2003, realizei um curta homônimo, “A História da Eternidade”. Naquele período, surgiram as histórias que iriam compor o longa. A primeira que surgiu foi a do Cego Aderaldo e de Querência. Na época, ainda não tinha a intenção de fazer em longa. No mesmo período, durante o ensaio e a pré-produção, as outras histórias vieram de maneira muito natural, através de conversas, observações e foi um longo processo até escrever o argumento e o roteiro. Captar verba para rodar o longa foi ainda mais difícil. Foram 10, 12 anos nesse processo. O primeiro tratamento era muito longo, tinha cerca de 180 páginas. Durante o tempo em que coloquei nos editais e não era aprovado, sempre revisava. Participei de vários laboratórios, aqui em Pernambuco, com Gualberto Ferrari, no Novas Histórias, do Sesc/Senac. Pude rever muitas coisas, até fazer uma versão mais enxuta, de 118 páginas.

Revista de CINEMA – Por que manter o título do curta?

Camilo Cavalcante – Foi meio natural. Como a ideia surgiu durante o curta, mesmo eles sendo muito diferentes em termos narrativos, ambos têm a busca pela sinestesia, pela poesia, pelo cinema de sensações.

Cena do curta-metragem “A História da Eternidade” (2003), que deu nome ao primeiro longa de Camilo Cavalcante

Revista de CINEMA – O que te instiga a trabalhar o sertão?

Camilo Cavalcante – Sobre essa necessidade minha de falar especificamente do sertão, precisamos voltar no tempo, até a minha infância. Apesar de ter nascido em Recife, morei muito tempo da minha primeira e segunda infância no interior do Piauí e no interior da Paraíba. O interior sempre me fascinou porque está dentro de mim. A forma como as relações humanas acontecem lá é diferente. Acho que o interior e o sertão são muito mais do que uma zona geográfica seca, árida, onde as pessoas têm que se sacrificar pela sobrevivência; é um território da alma humana, em que as relações interpessoais acontecem de maneira muito honesta, muito sincera, no caráter, nas palavras e no ser. Existe uma sinceridade. Isso propicia o surgimento de amores sem a lapidação das grandes cidades. O desejo, o amor, o sonho vêm mais forte. Estamos num momento, no mundo, em que observo as pessoas mais cínicas e mais céticas. Para mim, “A História da Eternidade” vai à contramão desse cinismo e desse ceticismo. Ele mergulha fundo na emoção. A busca é pela emoção mais primária, mais honesta, mais sincera, que acho que está sendo soterrada.

Revista de CINEMA – Por que “eternidade”? 

Camilo Cavalcante – Tem uma imagem no filme, que não foi elaborada e planejada; um fenômeno da natureza que ocorreu durante as filmagens e a gente registrou isso. Tinha um halo em torno do sol. Essa imagem entrou no filme e serve como um epílogo. É uma imagem muito metafórica, porque simboliza, além de um olho – falamos de um personagem cego; aquele olho cego, como diria Zé Ramalho, que vagueia procurando por um –, simboliza também um ovário fecundado, além de ser a imagem do próprio sol, que ilumina todos nós. Representa também o Oroboro, aquele símbolo da cobra comendo o próprio rabo [que aparece, inclusive, no início do curta]. Esse ciclo sem fim é a eternidade. É também a vida nova que vem, o prolongamento daquela comunidade. No final do filme, o símbolo não deixa entender se é um sinal de desespero ou de esperança. Mas aí vem uma vida nova, a esperança de que algo possa acontecer, transformar e movimentar o que está estagnado. Cada vida que chega ao mundo simboliza a possibilidade de sermos eternos, que é o prolongamento de quem está vivo. Quem está vivo, há de morrer. Essa é a coisa mais natural de quem está vivo, a morte. A vida nova que chega e traz uma nova possibilidade me lembra muito o “Morte e Vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto, em que apesar de todas as adversidades, da miséria e da melancolia, uma vida nova pode dar uma injeção de ânimo, de esperança e de possibilidade de renovação.

A atriz Débora Ingrid, que interpreta a adolescente Alfonsina, uma das três mulheres centrais de “A História da Eternidade”

Revista de CINEMA – Por isso, o filme trabalha uma estrutura circular?

Camilo Cavalcante – A vida nova que chega, ao final do longa, aponta mesmo para esse caráter circular da vida, desse grande palco da tragédia humana que se repete alternadamente desde o início dos séculos. E também, além do halo do sol, o filme tem momentos de epifania, muito libertários, que são elípticos, através do movimento circular do travelling. Momentos de sinestesia, que transformam nossas sensações concretas em abstratas, possibilitando ao espectador tirar os pés do chão e ir mais além. Acho que a caraterística de qualquer obra que se pretende artística é fazer o espectador sentir e refletir. São momentos muito importantes dentro dessa dramaturgia a que o filme se propõe e que tem essa força sinestésica, que mexe com os sentidos.

Revista de CINEMA – Por que você divide o filme em três capítulos? 

Camilo Cavalcante – O filme tem uma estrutura romanesca: prólogo, três capítulos e epílogo. Os capítulos são “Pé de Galinha”, “Pé de Bode” e “Pé de Urubu”, que pontuam a narrativa e metaforizam o estado de espírito das personagens durante o capítulo. Quando as galinhas não têm poleiro, elas sobem, à noite, nessas árvores anãs que tem no sertão pra dormir e se protegerem dos predadores. Ali é o amor e o desejo ainda se protegendo. O Pé de Bode, além de ilustrar os bodes que o pai mata para celebrar os quinze anos da filha, esses bodes sem a pele, debaixo do sol escaldante, secando, representa esse amor, esse desejo, que já está subcutâneo, já está na carne, exposto. O Pé de Urubu representa a morte. Não quero trazer surpresas, então antecipo o que vai acontecer.

Revista de CINEMA – O que o levou a trabalhar três personagens femininas em diferentes idades?

Camilo Cavalcante – Algumas pessoas já me perguntaram se são todas a mesma mulher. Pode ser, acho uma interpretação interessante. Não creio que seja um filme feminista, mas sim um filme feminino. As mulheres é que comandam, e creio que na vida é assim. Apesar de falarmos de uma realidade que se passa num sertão arcaico, intocado, com referências próprias quanto ao tempo, ao espaço, em que a presença masculina autoritária é muito forte, no fundo, são as mulheres que têm as chaves. São elas que abrem as portas. Por isso, as mulheres, apesar de numa primeira camada estarem oprimidas, são elas que detêm a chave, o poder de abrir a porta e de deixar o amor entrar e de seus desejos se concretizarem.

A atriz Marcélia Cartaxo como Querência, que personifica a dor e a redenção, em “A História da Eternidade”

Revista de CINEMA – O filme tem um personagem bem forte interpretado pelo Irandhir Santos, Joãozinho, que é um artista performático. Por que criar esse personagem e inseri-lo num ambiente em que parece tão deslocado?

Camilo Cavalcante – Esse personagem tem uma história pregressa que escrevemos e trabalhamos, que não está no filme, mas que está na composição, no perfil psicológico do personagem. Ele é um sujeito que foi servir o Exército na capital. Lá, ele tomou contato com as formas da literatura nos sebos e começou a devorar livros. Ele é liberado do Exército ao descobrirem que é epiléptico. Ele pegava a pensão e viajava, fazia performances pelas cidades. A epilepsia foi se agravando, não conseguia mais pagar os remédios e teve de voltar para o lugar de onde veio, humilhado. Um artista condenado a viver num lugar onde é incompreendido, mas que continua tentando exercer seu ofício. É quase um alter ego de nós artistas e cineastas independentes, que procuramos a própria voz, lutamos contra a burocracia, os nãos e as arrogâncias da vida. É um personagem que tem essa sensibilidade e representa o artista perante o mundo. Mambembe, como somos todos – acho esse papo de indústria muito reacionário, traz cobranças que acabam sendo uma camisa de força; artista tem que ter liberdade e recursos para exercer sua arte. “A História da Eternidade” é um filme existencial, lírico, poético, sinestésico, mas é também político nesse sentido, sem cair num lugar comum. A relação de Joãozinho com o irmão é uma relação política. E a opressão que o irmão exerce sobre ele é uma opressão que o cidadão comum sofre no dia a dia perante o poder econômico, às grandes corporações, que dominam e querem ditar como as pessoas devem sentir, pensar e fazer, como elas devem se comportar.

Irandhir Santos vive Joãzinho, em “A História da Eternidade”, personagem denso e deslocado da história, que representa o artista perante o mundo

Revista de CINEMA – Como se deu a escolha do elenco?

Camilo Cavalcante – Escolhi o Maxwell Nascimento quando vi “Querô” (2007). Achei-o muito interessante para o personagem do Geraldo, um jovem que chega de São Paulo. Como o Maxwell é de Santos, vem naturalmente com o sotaque carregado da baixada santista e isso foi muito bom para o papel. Além dele, eu já tinha em mente durante o processo de escritura e de captação a Marcélia Cartaxo, a Zezita Matos e o Cláudio Jaborandy. O Irandhir chegou depois. Conversamos, ele achou interessante e topou o convite. Para a personagem de Alfonsina, uma menina que aparenta ter uns 14, 15 anos, fizemos uma série de testes em Recife, João Pessoa, Salvador e Natal. Cheguei à Débora Ingrid pelo curta “Doce de Coco” (2011), em que gostei muito dela. Fui a Fortaleza, onde fizemos um teste e não teve como não sê-la. Tivemos uma preparação que foi muito interessante. Filmamos numa comunidade num vilarejo chamado Santa Fé, que fica a 60 km de Petrolina. O vilarejo é aquilo que se vê no filme. A única forma de comunicação com o mundo exterior é um telefone público. Não pega celular, não pega internet. Só funciona um orelhão, que é alimentado por uma antena. É um lugar muito mágico. Nossa relação com as pessoas do local foi de muita amizade, de muito respeito, muito generosa. Criou-se um elo de cumplicidade e solidariedade durante toda a produção. O filme não teve preparador de elenco, eu mesmo fiz isso com a ajuda de Adler Paz, o diretor assistente. Tivemos bons momentos para fazer uma imersão, não só na alma desses personagens, como também na geografia humana e física daquele ambiente. Isso foi muito importante para aprofundar os personagens e a relação entre eles.

Revista de CINEMA – “A História da Eternidade” é bastante operístico. Por que isso? 

Camilo Cavalcante – Ele é um épico da simplicidade, com características musicais. Não sei se operístico seria o termo. Antes de fazer o primeiro longa, fiz 14 curtas, em que pude experimentar a linguagem audiovisual de diversas formas, com diversas possibilidades. Gosto muito de música. Sou muito melancólico, sentimental e não poderia ser diferente nesse filme. A música fala muito também, pode amplificar as emoções, pode ampliar as sensações. Nesse filme, tive a sorte e a honra de ter Dominguinhos, que fez todos os temas executados por Leonardo França, o ator que faz o Cego Aderaldo. Foi o último trabalho que ele fez antes de morrer. E tive o privilégio de contar com o Zibgniew Preisner, polonês, compositor dos filmes do [Krzys-tof] Kiéslowski, de quem sou grande admirador. Foi a realização de um sonho, trabalhar com alguém que fez música pra um grande ídolo meu do cinema. Apesar de ter música da sanfona, instrumento que é muito popular no nordeste, a gente alia à melancolia da música do frio do leste europeu. Essas duas músicas se completam e criam uma atmosfera necessária para que o espectador possa se envolver e sentir essas emoções profundamente.

Revista de CINEMA – Por que escolheu a canção “Fala”, dos Secos e Molhados, para o momento catártico do Joãozinho?

Camilo Cavalcante – Foi um dogma que me coloquei para o filme. Sempre gostei muito da música. Quando fui fazer o filme, tudo podia mudar, menos essa cena. É o primeiro movimento de câmera do longa. Até então, ele é composto só por planos fixos. O primeiro movimento tinha que ser com a música “Fala”. Quando entra o arranjo de cordas, quase na metade da música, a câmera começa a se mexer. Isso potencializa o movimento, esse mundo girando ao redor do artista. Parece um movimento libertário mesmo, de que a arte é capaz de nos fazer voar, de tirar os pés do chão. Foi, para mim, um momento muito esperado durante a realização, porque carreguei a ideia por muito tempo. A ideia era colocar a arte em primeiro plano e o mundo girando ao redor. A escolha da música foi completamente inconsciente. É uma canção que me toca e que queria usar muito nesse momento.

Revista de CINEMA – O filme tem um forte rigor formal. Como se deu o trabalho de fotografia no longa? 

Camilo Cavalcante – Filmamos em scope [2.35:1] para dar a dimensão desse sertão sem fim, do horizonte vasto, como se fosse infinito. O trabalho fotográfico veio muito em parceria com o diretor de fotografia, Beto Martins, que mora em Recife há muitos anos, mas é de Uauá, no sertão da Bahia. Nossa intenção era representar o sertão de maneira honesta, de dentro para fora, não com olhar estereotipado, principalmente, em relação a como o sertão já foi filmado. Buscamos os arquétipos. A referência principal foi a pintura de Caravaggio, que tem muito contraste entre o claro e o escuro e o que é escuro é realmente escuro. É o contraste entre vida e morte, entre os elementos que estão ali pairando dentro do filme. Foi muito estudado. O Beto Martins – também no primeiro longa de ficção – conseguiu imprimir uma tensão calma, como ele mesmo diz. Parece que nada acontece, mas tudo está acontecendo nas entrelinhas, nas diversas camadas. E o sertão é muito belo, é uma das paisagens mais bonitas que você pode ver. A ideia era captar a beleza real que ele tem, com os olhos de quem já está acostumado àquela luz do sertão. Não é um olhar frágil, estrangeiro, em que a retina se dilata com a intensidade da luz. A luz já não incomoda mais a retina, porque elas vivem ali e já estão acostumadas àquela luz.

Camilo Cavalcanti recebe o troféu de melhor filme do Paulínia Film Festival, em julho de 2014, por “A História da Eternidade” © Aline Arruda

Revista de CINEMA – Seus filmes, em geral, trabalham bastante com um aspecto mítico e muitas vezes místico. O que te leva a se debruçar sobre esses elementos? 

Camilo Cavalcante – O ser humano é mítico e místico em geral. Trabalho com certos elementos mitológicos no sertão. O Cego Aderaldo existiu no sertão do Ceará e empresto o nome, a cegueira e a música para criar uma nova perspectiva desse cego. Pego os mitos tradicionais e tento dar uma releitura poética a eles, de colocá-los dentro do sertão que eu enxergo, aquele da primeira infância, com o carinho que eu enxergo esse interior. É um sertão mitológico, mas com uma leitura muito íntima e particular minha, uma roupagem emotiva poética. Não está ligado ao um tratamento folclórico. Para mim, é um processo muito afetivo.

Revista de CINEMA – Você se formou em Comunicação. O que o levou ao cinema?

Camilo Cavalcante – Me formei em Comunicação pela UFPE. No meio do curso de jornalismo, fiz o curso de roteiro na Escuela Internacional de Cine y Televisión, em San Antonio de los Baños, em Cuba. Fiz jornalismo porque não tinha curso de cinema em Pernambuco. Desde adolescente, queria fazer cinema, mesmo não sabendo como. Durante o curso de jornalismo, comecei a estagiar no Museu de Imagem e do Som de Pernambuco, o Mispe, que hoje inclusive está fechado – um absurdo um Estado que hoje produz tanto não ter um lugar para se preservar esse acervo; o governo fechou, prometeu reformar e isso faz anos. A gente fazia mostra de cinema, tinha fanzine, fazia a programação do Cine Ribeira, que o museu administrava, fazia comerciais para passar na televisão, pois os canais de TV aberta davam espaço de graça. Celso Marconi era o diretor na época. Na mesma época, fiz minha primeira experimentação, em 1995, com uma câmera VHS compacta – foi na época da democratização do acesso; antes era só equipamentos profissionais e caros, e sou posterior ao Super8. Sou fruto direto dessa geração do VHS dos anos 1990, em que você tinha uma câmera e podia apertar o botão e filmar. Meu primeiro trabalho é um curta chamado “Cálice” (1995), que é sobre um suicídio que ocorreu na Casa do Estudante da UFPE. Fiz uma ficção sobre essa questão, reconstruindo os últimos passos desse jovem estudante que se suicidou. A partir daí, fiz várias experiências sempre com câmeras VHS, naquele momento amadoras. Fiz muitos vídeos – “Os Dois Velhinhos” (1996), “Leviatã” (1999), “Amorte” (1999) –, experiências pessoais com meus avós, amigos atuando. Esses filmes começaram a participar de festivais, a ganhar prêmios. Conheci pessoas e vi que não estava só no mundo em fazer cinema de uma forma modesta. Até hoje acredito que meus trabalhos tenham esse caráter de experimentação.

Revista de CINEMA – Como se deu a formação da sua produtora, a Aurora Cinema?

Camilo Cavalcante – A Aurora Cinema surgiu há mais de dez anos, por necessidade de realizar meus projetos. Minha esposa tinha que abrir uma empresa, pois onde ela trabalhava só pagava pessoa jurídica. Peguei carona na empreitada. Ela passou a não precisar mais da empresa e eu sim, e assumi. Por enquanto, só sou eu mesmo. Tenho interesse em trabalhar como produtor de projetos em que eu acredite. Por enquanto, desenvolvemos projetos de curtas, longas, documentários. Tem também o Cinema Volante Luar do Sertão, que está na quarta edição. O projeto exibe filmes de curta-metragem em cinco regiões do sertão de Pernambuco, em sessões gratuitas e abertas, com filmes de alta qualidade, que buscam a reflexão e também colocar um novo parâmetro de se assistir a imagem. Sempre tem debate depois, para o espectador não ser simplesmente passivo, como na televisão, buscando ascender um senso crítico na percepção das imagens.

Revista de CINEMA – Como você se relaciona com o cinema de sua geração de Pernambuco?

Camilo Cavalcante – Gosto muito de usar uma frase do Jomard Muniz de Britto, poeta, professor, cineasta, que participou ativamente do ciclo de Super8. Quando lhe perguntavam sobre o movimento do cinema de Super8 – do mesmo modo que hoje se fala do movimento do cinema pernambucano –, dizia: “não é um movimento, são movimentações”. Não existe apenas um caminho a ser seguido. Acho que é justamente essa pluralidade de ideias, de estilos e tendências que faz o cinema pernambucano ser o que é. O que temos em comum é a persistência da visão de autor. Cada filme tem a cara de seu realizador. Temos em comum isso, essa necessidade de expressão autêntica. Ninguém faz filme para servir de cartão de visita para dirigir obras comerciais. A potência dele são as diferenças, convivendo de forma harmônica; todo mundo se respeita.

Revista de CINEMA – Quais são seus próximos projetos? 

Camilo Cavalcante – No momento, buscamos recursos para finalizar um documentário em longa-metragem chamado “Beco”, sobre o Beco do Inferno, que é um anexo do Mercado de Afogados, que eu considero um divã popular, lugar em que as pessoas vão atrás de uma palavra, uma conversa, bebidas, músicas, comida, e onde acontecem catarses. Um retrato do proletariado latino-americano. Ele participou da Carte Blanche do Festival de Locarno no ano passado, num corte provisório. Nesse ano, rodo “King Kong en Asunción”, filmado na Bolívia, no Paraguai e na zona da mata de Pernambuco, que conta a história de um matador de aluguel velho, que está em crise existencial, e num momento de reflexão decide abandonar essa vida de bandoleiro em busca do paradeiro de sua única filha, que ele não conheceu e que hoje é uma mulher de 40 anos. Vai ser filmado com R$ 350 mil, vindos do Funcultura. O filme é uma guerrilha, pensado para ser assim. Tem um terceiro projeto, que acabo de escrever o roteiro e começo a captar, chamado “Bette Davis Eyes”, sobre o dia que antecede a noite da última apresentação de uma artista transformista de 64 anos.

 

Por Gabriel Carneiro

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