Artigos Criação Narrativa Televisão — 16 março 2016
Elementos dramáticos da sitcom – Parte 2

Na primeira parte do artigo, publicado na última edição, tratamos do modelo clássico das sitcoms. Nessa segunda parte, vamos abordar as mudanças nas estruturas que ocorreram desde o final de “Seinfeld” que pode ser considerado um marco desse modelo.

O modelo clássico, tanto de tema, estrutura dramática quanto de produção, atingiu o auge de crítica e público com “Seinfeld”, cujo último episódio foi visto por mais de 78 milhões de espectadores, e o elenco, na sua última temporada, teve salários na casa de um milhão por episódio.

Curiosamente, o último episódio da série foi um grande evento, gerando muita mídia nos jornais e revistas, antes e após a exibição. O canal TV Land tirou a sua programação do ar durante a exibição, exibindo uma porta com um recado colado com os dizeres: “Somos fãs de TV, então… estamos assistindo o último episódio de ‘Seinfeld’”. O spot comercial de 30 segundos, no último episódio, custou um milhão de dólares; foi a primeira vez que uma exibição não esportiva atingiu esse valor. No Brasil, o canal Sony exibiu o episódio simultaneamente (sem legendas), mesmo estando atrasada com a exibição dos últimos episódios da última temporada.

Tamanho frisson trouxe conse-quências positivas e negativas para as sitcoms. Por um lado, tamanha mídia e audiência trouxe grande poder para os comediantes – reflexo pode ser notado na lista dos dez maiores salários por episódio de todos os tempos da TV (nove são comediantes); Charlie Sheen, Ray Romano, Kelsey Grammer conseguiram seus altos salários na era pós-“Seinfeld”.

Se, por um lado, os comediantes ganharam poder de barganha, as sitcoms que vieram a seguir enfrentaram um grande desafio. Precisavam se reinventar para terem longevidade, tanto para conquistar os espectadores quanto para evitar comparações desfavoráveis com “Seinfeld”.

Poucas séries fizeram sucesso e tiveram longevidade reproduzindo o modelo clássico de estrutura e de produção (cenários, multicâmeras, inserção de risos). Cada uma dessas séries que conseguiram sucesso trouxe um algo a mais e, por isso, prosperaram, como “Two and a Half Men” (inspirou-se no próprio ator, Charlie Sheen), “The Big Bang Theory” (trouxe o universo dos nerds), “How I Met your Mother” (inovação na narrativa), “Scrubs” (juntou drama com comédia), “30rd Rock” (bastidores da TV). Isso tudo levando em conta que a primeira dessas séries citadas, “Two and a Half Men”, foi criada em 2003, cinco anos após o término de “Seinfeld”.

Nessa era pós-“Seinfeld”, as emissoras se mostraram mais favoráveis a inovações. Tanto por causa dos custos de produção que uma série de sucesso gera, quanto por causa da diminuição de audiência. O que se buscava era uma nova “fórmula” que conquistasse a audiência e que custasse menos.

Nessa busca por um novo modelo, houve ótimas séries, como “Malcolm in the Middle”, “It´s Always Sunny in Philadelphia”, “Arrested Development”, mas que não criaram modelos.

“Curb your Enthusiasm”, de Larry David (cocriador de “Seinfeld”) foi a que mostrou novos caminhos. Criada em 2000, para a HBO, suas inovações vieram em todos os setores, seja no personagem “real”, no modo de produção (locação), direção (documental) e no roteiro (semi-roteiro; as cenas tinham apenas a situação e a partir disso, os atores improvisavam).

Essa inspiração no “real” de Larry David adiantou a temática que a era do digital trouxe com a facilidade de produção. Não havia mais necessidade de focar em poucos cenários e em estúdio, o tom farsesco das sitcoms caiu. Essa influência atingiu séries de sucesso como “The Office”, “Modern Family” e “Louie”.

“Louie” é um caso à parte, com a liberdade criativa e poder ao criador e showrunner da série. Atravessou a fronteira das sitcoms, deixando de lado, inclusive, a comédia, alternando episódios que podem ser dramáticos, surreais e divididos em várias partes.

Esse modelo de tema e produção está sendo seguido. “Master of None” e “Real Rob” são exemplos. E é um modelo que pode ser “copiado” por aqui, principalmente, pela questão de produção.

Estamos ainda pecando, não entendendo esse modelo e tentando resgatar elementos das antigas fórmulas. Uma série que tinha uma premissa que poderia gerar uma ótima série foi “A Vida de Rafinha Bastos”.

Partindo da premissa de que acompanharia a “vida” de Rafinha, infelizmente, a série pecou trazendo o tom farsesco dos modelos clássicos que havia sido abandonado com a impressão do real. A série abre com a farsa, trazendo Rafinha dentro da prisão (cenário), trazendo personagens fictícios e caricatos em torno dele. A série não decolou.

Precisamos compreender, estudar os modelos de sucesso e não ter receio de copiar, ou melhor, se inspirar nessa “nova” estrutura e na indústria de criação de séries. Os ingleses entenderam e conseguiram fazer isso com várias séries, principalmente, com Ricky Gervais (“Life´s Too Short”, “Extras”). Afinal, para se produzir produtos de qualidade (sim, as séries são produtos audiovisuais), deve-se ter conhecimento do que funciona ou não em um formato, em uma narrativa e até em uma piada ou “gag”. Que o Brasil alcance cada vez mais esse patamar de boas sitcoms e, claro, com o jeitinho brasileiro. Boas risadas e boa escrita!

 

Por Newton Cannito (foto) e Marcos Takeda, roteiristas

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