O que querem os canais?
"Receitas da Carolina", do GNT © Robert Schwenck

O desafio dos produtores no desenvolvimento de seus projetos é poder agradar algum canal que possibilite a sua realização. Os canais têm seus perfis e através deles determinam que produtos independentes farão parte de sua grade de programação. Esse perfil nos canais de assinatura é muito acentuado. No intuito de auxiliar os produtores, a Revista de CINEMA fez um levantamento dos perfis dos principais canais que trabalham com conteúdos independentes.

No grupo dos canais brasileiros independentes, o Curta! alterna diariamente seu horário nobre entre música, arte, cinema, áreas do pensamento, história e sociedade, com demanda especial por programas de música e cinema, que podem ser comprados diretamente ou licenciados. Boa parte dos projetos é financiada com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Há uma seção no site www.canalcurta.tv.br dedicada exclusivamente a receber projetos de produtores interessados.

Outro na mesma toada independente é o CINEBRASiLTV, com programação voltada para toda a família e dedicada a apresentar a realidade e a pluralidade da cultura brasileira. O canal é aberto a produtos de qualquer gênero, mas sempre com olhar autoral, e trabalha com aquisições e produções originais com financiamento, em grande parte, vindo das linhas do FSA. Produtoras podem apresentar suas propostas de licenciamento de projetos no site www.cinebrasil.tv. Neste momento, o canal está com uma chamada pública aberta, até 20 de março, para um pitching de seriados documentais e de ficção e teledocumentários com foco nas transformações socioeconômicas e comportamentais deste século.

No caso do Canal Brasil, do grupo Globosat, a programação é dividida entre cinema brasileiro em longas, médias e curtas-metragens; programas de temática musical e programas independentes que gerem reflexão, com toque de irreverência e sem medo de ousar na forma. O canal está aberto tanto a licenciamento quanto a coproduções e marca presença em encontros e rodadas de negócios. O conteúdo coproduzido é feito com recursos próprios, mas há projetos inscritos em chamadas do FSA. Para que um projeto seja analisado, basta enviar uma versão do primeiro corte para hgalsky@canalbrasil.com.br ou saddy@canalbrasil.com.br.

A programadora Box Brazil, sediada em Porto Alegre, também aposta em linhas de financiamento do FSA, além de leis de incentivo e recursos próprios, para abastecer a grade de seus quatro canais com coproduções e licenciamento de séries ficcionais de todos os gêneros e séries documentais. O Prime Box Brazil tem foco em curtas, médias e longas de ficção, documentário e animação para o público adulto e busca séries sobre cinema brasileiro (enviar propostas para licenciamento.prime@boxbraziltv.br). Voltado a todos os gêneros da música nacional, o Music Box Brazil procura séries documentais, shows, videoclipes e programas em torno do tema (enviar projeto para licenciamento.music@boxbraziltv.br). Enquanto isso, séries documentais sobre entretenimento, cultura, gastronomia, esporte, turismo e lifestyle interessam ao Travel Box Brazil (enviar projeto para licenciamento.travel@boxbrazil.tv.br). Já o Fashion TV Brazil busca séries documentais que valorizem a criação de moda no Brasil e se afastem do universo de celebridades e lifestyle (enviar projeto para licenciamento@fashiontv.tv.br).

No Arte 1, do grupo Bandeirantes, a programação é voltada à valorização e à apreciação de arquitetura, teatro, dança, fotografia, música e artes plásticas, com programas de nicho. O canal, que busca financiamento no FSA e investe recursos próprios, tem interesse especial em produções originais em formato de reality e com foco em teatro, mas que apresentem formatos inovadores. Projetos de ficção também podem entrar na pauta de discussões. As propostas devem ser enviadas para caiocarvalho@band.com.br.

Mulher 

Voltado à mulher brasileira, o GNT, com séries como “Questão de Família” e “Receitas da Carolina”, valoriza temas como moda, beleza, saúde, decoração, culinária em programas de debate, séries de ficção e realities apresentados por especialistas nas áreas citadas. Obras independentes podem ser adquiridas prontas, produzidas de forma terceirizada ou executadas em coprodução, com financiamento via artigo 1º A e artigo 3º A da Lei do Audiovisual, ISS/Rio de Janeiro e FSA. Propostas podem ser cadastradas no site produtoras.globosat.com.br.

Voltado majoritariamente a reprises de teledramaturgia da TV Globo, o Viva, que exibe também a produção independente “Meu Amigo Encosto”, é um canal de entretenimento dirigido ao público adulto. Por conta dessa característica, a produção independente que se enquadra aqui é, principalmente, de conteúdos de não ficção, e os custos do projeto costumam ser bancados por uma composição financeira de recursos próprios e incentivos fiscais. Interessados devem cadastrar seu projeto no site produtoras.globosat.com.br.

Canais infantis 

Voltado a crianças entre 4 e 12 anos, o Gloob, que tem como atração a série “Gaby Estrella”, aposta em produtos brasileiros que invistam em conteúdos divertidos, com aventura e diversidade, e que transmitam valores positivos. O foco do momento são live actions de ficção. As formas de financiamento são via incentivos como art. 3º A, art. 1º e ISS – o FSA não tem sido utilizado pelo canal. Projetos devem ser cadastrados no site produtoras.globosat.com.br.

"Gaby Estrella", produção da Panorâmica e Chatrone para o canal Gloob

O Cartoon Network, que exibe a produção independente “O Irmão do Jorel” também é o que puxa as produções independentes dos canais voltados ao público infanto-juvenil da programadora, como o Boomerang e o Tooncast. Com programação que busca conjugar humor e atrevimento, o canal visa produtos em animação ou live action que já sejam pensados em multiplataforma. Nos últimos anos, o Cartoon realizou pitchings para aporte no desenvolvimento de projetos.

A produção independente chega ao grupo Viacom na forma de aquisições (em especial nos canais Nickelodeon) e, preferencialmente, como coproduções, sendo financiada por um mix de recursos oriundos de art. 39, fundos próprios, FSA e, mais recentemente e com maior frequência, branded content. O grupo costuma realizar pitchings em feiras do mercado, mas propostas podem ser enviadas a qualquer momento pelo site www.viacompitchbox.com.br.

"O Irmão do Jorel", coprodução entre o canal Cartoon Network e a produtora Copa Studio

As animações são o que mais interessa ao Nick Jr. (voltado a crianças em fase pré-escolar) e ao Nickelodeon (focado em crianças entre 8 a 12 anos). Com target jovem, a MTV, que exibe a série brasileira “Adotada”, abriga bem programas de comportamento, realities e novos formatos musicais. No caso do Paramount Channel, a essência é o cinema mundial e interessam séries documentais em torno de temas correlatos, como mulheres no cinema brasileiro. Com vistas ao público adulto e totalmente focado em humor, o Comedy Central (“Comedy Central Stand-Up”) não tem interesse em ficção, mas está, no momento, em busca da Amy Schumer brasileira.

Filmes e séries 

O combo formado por Universal, Studio Universal e SyFy busca, atualmente, projetos de séries com episódios procedurais com ênfase em aspectos narrativos e com potencial para levantar a mesma audiência dos produtos internacionais da casa. No Universal, que exibe “Cinelab”, o foco são séries com protagonistas marcantes, enquanto o Studio Universal tem mais afinidade com temática de cinema e, o SyFy, de fantasia, ficção científica e temas sobrenaturais. A ideia é bancar a produção com recursos via art. 1º A.

Com foco em filmes e séries de investigação, crime, mistério e ação, o AXN, que tem a produção independente “Santo Forte” em sua grade, busca produções nacionais via realização de coproduções e aquisição de conteúdos já prontos e com Certificado de Produto Brasileiro (CPB) e Certificado de Registro de Título (CRT). O mesmo acontece com o Sony, que exibe “Agora Sim”, mas em relação a filmes e séries de comédia, drama, ação e reality shows. Projetos independentes podem ser financiados por art. 39, FSA e recursos próprios, além de parcerias com vendas de publicidade, “revenue share” e coprodução com TV aberta. Eles devem ser enviados para o e-mail conteudosonypictures@spe.sony.com ou apresentados durante rodadas de negócios do setor em eventos ao longo do ano.

"Santo Forte", produção da Moonshot para o canal AXN

Apesar de contar com canais como TruTV, TCM e TNT Séries, a programadora Turner foca a produção de novos conteúdos independentes em quatro deles: Warner, TNT, Space e TBS – a ideia é que as obras possam ganhar segunda janela nos próprios canais da casa, que também exibem conteúdos licenciados já prontos. Esse foi um caminho encontrado para aumentar o valor de produção dos projetos, financiados a partir de uma composição entre FSA, art. 1º A, art. 39 e editais da Spcine e Riofilme, além de coproduções com a TV aberta.

O TNT, que exibe “Latitudes”, é focado em filmes e séries e busca obras seriadas de ficção associadas a personalidades reconhecidas, como diretores e atores de forte penetração com o público. Com foco no mesmo tipo de produto, o Space, que tem como destaque a série brasileira “Zé do Caixão”, tem uma diretriz voltada a temas que despertem emoções fortes. Marcado pela exibição de produtos internacionais facilmente reconhecíveis na cultura pop, o Warner, que exibe “Vida de Estagiário”, tem interesse em séries de ficção de comédia e procura um projeto com a ambição de revelar um super-herói brasileiro marcante.

"Latitudes", série de ficção com produção da House Entretenimento e Losbraga para o canal TNT

Com grade 100% focada em humor, o TBS, que conta com a produção independente “Show do Kibe”, exibe clássicos, séries e sitcoms e tem forte demanda de conteúdo nacional devido às particularidades do humor no Brasil. Em breve, a Turner vai disponibilizar uma nova ferramenta para envio de projetos por meio de seu site. Por enquanto, eles podem ser endereçados a camila.justo@turner.com.br.

Consolidado no segmento premium, o grupo HBO-Max busca histórias bem contadas, com dramaturgia consistente inovadora e alto padrão de qualidade, capazes de provocar no público “engajamento apaixonado”. A exclusividade é um diferencial, e há um departamento de produções originais responsável pela coprodução de séries, minisséries e filmes. Os produtos de ficção são 100% realizados com recursos próprios. Já produções incentivadas são projetos documentais coproduzidos com recursos do art. 39.

"Show do Kibe", talk show produzido pela produtora Contente para o canal TBS

Documentários 

Dirigido ao público adulto acima de 25 anos, o jornalístico GloboNews abriu há dois anos uma faixa semanal de documentários para abrigar produções independentes com temas relevantes para a compreensão do Brasil, como “Setenta”. A prioridade são temas mais quentes, mas é possível propor obras a partir de personagens interessantes da cultura brasileira, questões sociais e tendências comportamentais, que são financiadas via art. 3º A ou em coprodução com a Globo Filmes. Os projetos podem ser enviados para documentarios@tvglobo.com.br.

Para financiar as produções independentes que abriga em sua grade, a programadora Discovery se vale de várias formas de financiamento, como art. 1º A, art. 39, FSA, recursos próprios e também branded content. A aquisição de produtos prontos também é comum. O trabalho de prospecção de novos projetos é contínuo em feiras de mercado e também por meio de submissões no site www.producers.discovery.com. O canal carro-chefe é o Discovery, que exibe, entre outras, a produção independente “Missão Extrema”, voltado à exibição de entretenimento factual a homens e mulheres. Interessam temas como sobrevivência, exploração, mistério, aventura, vida selvagem e motores, em formato de docu-reality orientado por personagens fortes e cativantes – abordagens sobre superação são atrações-chave.

"Missão Extrema", doc-reality produzido pela Bossa Nova Filmes para o canal Discovery

Esse mesmo tipo de programa se encaixa bem na grade do Discovery Turbo, focado em velocidade e motores. No Discovery Home & Health, com programas como “Troca de Estilos”, a tônica são projetos com temáticas de transformação, beleza e bem estar e que valorizem o empreendedorismo feminino e experiências de customização. Com foco em personagens peculiares, autênticos e irreverentes, o TLC, como “Receita de Viagem”, também busca docu-realities. Já o Animal Planet, que exibe a série independente “Dr. Selvagem”, procura docu-realities e programas que abordem a vida animal, seja ela selvagem ou pet, em sua relação com os humanos. Focado em temas de investigação e mistério, o Investigação Discovery apresenta mais aquisições do que produções originais, enquanto o infantil Discovery Kids, que faz sucesso com a produção independente “O Show da Luna”, lida com as duas formas de negociação. O forte do canal é o público entre 4 e 6 anos, com viés educacional e que fomente algum tipo de conhecimento.

O grupo que reúne os canais A&E, History, H2 e Lifetime está em busca de novos produtos nacionais que, preferencialmente, já tragam consigo patrocinadores ou abram possibilidade para coproduções com TV aberta (no caso de ficção). O A&E (“Desaparecidos”) é focado em crime e investigação policial em ficção e não ficção, em histórias apresentadas a partir de personagens fortes. Essencialmente masculino, o History (“O Infiltrado”) aposta em entretenimento com conteúdo, com toque de humor e polêmica. O H2 exibe temas como ciência e tecnologia no formato de entretenimento informativo. Já o Lifetime (“Mulheres em Ação”) busca alcançar mulheres modernas com realities e séries que fujam do formato tutorial em saúde, beleza ou culinária. Propostas devem ser enviadas a kmahon@AEOei.tv e ycamargo@AEOie.tv.

"Desaparecidos", série investigativa da produtora Iracema Rosa Filmes para o canal A&E

Variedades

Com uma grade repleta de dramaturgia internacional, o +Globosat exibe produção independente, como “Oficina Motor”, e aposta na diversidade. A maior parte da programação nacional é coproduzida com o canal e gira em torno de comportamento e temas como turismo, viagens e cultura, mas há espaço para licenciamentos. O financiamento das obras se dá pelos art. 1º A, art. 3º A da Lei do Audiovisual, ISS/Rio de Janeiro e Fundo Setorial. Quanto mais estruturado o projeto, melhor, que deve ser cadastrado no site produtoras.globosat.com.br.

"Oficina Motor", produção independente da Midimix em parceria com o canal +Globosat

 

Por Amanda Queirós

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