“Aquarius” em noite de Oscar em Gramado

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

 

Sonia Braga reinou absoluta numa noite de Oscar e OSCARITO. Noite de Oscar, porque o filme da festa inaugural gramadiana, AQUARIUS, de Kleber Mendonça, está no centro de polêmica que envolve sua indicação (ou não) para representar o país na disputa pela estatueta de melhor filme estrangeiro. Personagens que jogam papel questionável no processo estavam na sala: o ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, o secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini, e o jornalista e crítico Marcos Petrucelli. Calero teve que ouvir parte da plateia gritar “Fora Temer”, “Ministro pelego”, “Golpista”, e “Vai fazer nude” (referência a poses narcisistas do ministro expostas por ele mesmo na internet). Nem Calero, nem Bertini (como ocorrera com o interino Michel Temer nas Olimpíadas) foram mencionados pelos apresentadores, a jornalista Renata Boldrini e o ator Leonardo Machado. Petrucelli, que escreveu uma série de notas na internet (numa delas dizia que o diretor de AQUARIUS preferia não competir em Gramado por medo de não ser premiado) pode agora dizer o que quiser. Afinal, viu o filme, que desconhecia.

Sonia Braga recebeu o Troféu OSCARITO das mãos do cineasta Bruno Barreto, aliás, substituto do cineasta e produtor mineiro Guilherme Fiuza Zenha na comissão de seleção do candidato brasileiro ao Oscar. Ainda não se sabe quem substituirá a atriz Ingra Lyberato. O que se sabe é que três filmes importantes deixaram a disputa: “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, e “Para minha Amada Morta”, de Aly Muritiba. Todos solidários com Kleber Mendonça. Embora as autoridades interinas digam que não há perseguição a AQUARIUS (em retaliação ao protesto feito contra o golpe parlamentar no tapete vermelho de Cannes) há que se reafirmar: só não o enxerga quem não quer ver. O ponto culminante destas campanha contra o filme está na CENSURA (ou classificação indicativa) que ele recebeu: 18 anos.

CENSURA 18 ANOS?

Relato aqui experiência pessoal. Assisti a AQUARIUS, pela primeira vez, na condição de integrante do colegiado ibero-americano que atribui o PREMIO FENIX (que será entregue aos vencedores, em dezembro, no México). Fiquei impressionada com a solidez do filme, com seu roteiro engenhoso, de grande inteligência e potência social e política, com a entrega de Sonia Braga a uma personagem complexa e madura, ao elenco de apoio, imenso e muito talentoso. E também ao diálogo do diretor com a paisagem humana e física de sua cidade (o Recife) e com a MPB. AQUARIUS é um musical moderno. As canções ajudam a contar sua corajosa história, que soma o individual-e-afetivo ao político (e no Brasil, sempre calcado em bases afetivo-familiares). Vi algumas cenas de sexo (pouquíssimas) tão integradas à narrativa, que nem me chamaram a atenção. Revendo agora o filme, em magnifica projeção no Palácio dos Festivais de Gramado, me obriguei a colocar toda minha atenção nas cenas sexuais que o teriam condenado à censura 18 anos. Decerto, eu não prestara a devida atenção. Estava pois com os sentidos ultra-atentos nesta segunda sessão do filme. E o que vi? Mais uma vez, cenas de sexo muito rápidas, nada apelativas e profundamente integradas – repito – à narrativa. Daí, digo, com a sinceridade de quem é mãe e avó. AQUARIUS merece censura 14 anos. Se artistas e intelectuais aceitarem a limitação de AQUARIUS para menores de 18 anos, estarão se entregando ao OBSCURANTISMO dos anos militares. Em pleno século XXI, estarão baixando a cabeça para estes tempos de retrocesso moral e político que nos ameaçam de forma tão explícita.

UM OSCARITO PARA SONIA BRAGA

A estrela brasileira foi a dona absoluta da noite inaugural do FEST Gramado. Para que ela chegasse ao Palácio dos Festivais, envelopada num preto colado ao corpo (corpo que segue belo e esguio como nos anos de Gabriela e Dona Flor), o público tomou um chá de cadeira de 65 minutos. Mas valeu a espera, pois ela cruzou o imenso tapete vermelho distribuindo simpatia e beijinhos. Enquanto dentro do cinema escutávamos sua biografia brasileira e internacional, ilustrada com imagens de seus filmes e telenovelas – e banhadas em músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim, todas feitas para ela e suas personagens –ela era recebida, ainda no tapete vermelho, por Rubens Ewald Filho, um dos curadores do festival. Despediu-se dele com um selinho e entrou no cinema, sob aplausos e com a plateia de pé. Antes de receber o OSCAR-ITO, ela viu, num vídeo, depoimentos do amigo Carlos Diegues, que a dirigiu em TIETA, da atriz e comadre Renata Sorrah e de CAETANO VELOSO, amigo-super-amigo, que a homenageou com a canção TIGREZA. Aí entrou em cena o diretor Bruno Barreto, responsável por DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, maior sucesso da carreira da estrela (quase 11 milhões de ingressos). Coube a ele entregar a ela o OSCAR-ITO. Bruno o fez com brincadeira das mais simpáticas.

PERGUNTOU: Sônia, se Kleber e eu fôssemos seus dois maridos, qual de nós seria VADINHO?”

Ela ficou indecisa.

E perguntou: qual dos dois é nordestino? (Afinal, VADINHO simboliza o amor carnal e fogoso).

Mas a atriz pensou melhor e deu a resposta definitiva: Acho que seria “DONA FLOR E SEUS DOIS VADINHOS”.

E chegou então a hora de receber, no palco, a trupe de AQUARIUS.

One thought on ““Aquarius” em noite de Oscar em Gramado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.