Entrevistas Slideshow — 28 setembro 2016
Entrevista: Paulo Betti

Rosto popular na TV, Paulo Betti acaba de sair de sua segunda experiência como diretor de cinema com uma certeza: sua vocação é mesmo ser ator.

Ele faz a confissão à Revista de CINEMA, dividido entre o alívio pelo fim da correria das filmagens e a felicidade em concretizar um projeto extremamente pessoal iniciado há mais de duas décadas, dentro de uma fase em que ele próprio, hoje aos 63 anos, revê sua trajetória a partir do monólogo “Autobiografia Autorizada”, com o qual cumpriu temporada no ano passado.

Adaptado de uma novela do americano Henry James (1843-1916), seu longa “A Fera na Selva” acompanha um casal longevo. Ele espera que algo extraordinário aconteça na sua vida, enquanto ela se dá conta da dificuldade em ver tal expectativa concretizada.

É uma história de carga filosófica, que reflete sobre a importância da experiência do presente sob um viés intimista e também íntimo para Betti. Ele montou o texto no teatro, no início dos anos 1990, e atuou ao lado de sua então mulher, Eliane Giardini, com quem foi casado por 25 anos e hoje mantém uma forte amizade.

Levar esse marco da carreira dos dois para as telas se tornou uma obsessão. As dificuldades de financiamento, no entanto, colocaram outros projetos à frente, como “Cafundó” (2005), filme estrelado por Lázaro Ramos com o qual o ator estreou na direção ao lado de Clóvis Bueno.

Dez anos depois, Betti voltou, enfim, a ficar atrás das câmeras – e em Sorocaba, cidade onde ele e Eliane cresceram e que abraçou a ideia da adaptação. Apesar de somar também as funções de produtor e coprotagonista, o ator optou inicialmente em assumir a direção sozinho, mas sem desmerecer o fato de o cinema ser, essencialmente, uma atividade coletiva. “Você tem que estar firme no que pretende fazer, mas também tem que ouvir as pessoas”, afirma ele, anunciando a decisão de dividir os créditos de diretor com Eliane e Lauro Escorel, seu diretor de fotografia.

Feito com R$ 1,5 milhão, “A Fera na Selva” acaba de receber o apoio da Globo Filmes, que entrou no projeto como coprodutora e irá cuidar de sua distribuição, além de também palpitar no corte final por meio do cineasta Fernando Meirelles, integrante do comitê artístico da empresa. “Ele gostou do que viu e está empenhado em tornar o filme mais palatável”, diz Betti. A expectativa é que o longa chegue aos cinemas até o fim do ano após uma temporada de pré-estreia na região de Sorocaba.

Longe das novelas desde o cômico blogueiro Téo, em “Império” (2014), ele fala, na entrevista a seguir, sobre as dificuldades de colocar a adaptação de pé, a importância das parcerias no cinema e o papel da cultura no atual cenário de acirramento político no Brasil, em especial, após a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, afastada da presidência do país em maio. O ator comenta ainda seu trabalho mais recente com o diretor Alain Fresnot, no filme “Uma Noite Não É Nada”, que o fez voltar a encarar o set sem qualquer outra interferência, a não ser dar o seu melhor para o personagem. “É legal não precisar se preocupar se vai ou não chover”, diz Betti aos risos.

Paulo Betti e Eliane Giardini, ao fundo, em cena de “A Fera na Selva”: sua segunda experiência como diretor. © Fernando Henrique

 

Revista de CINEMA – “A Fera na Selva” marca seu retorno ao texto que lhe conferiu o Prêmio Shell no início dos anos 1990. O que o motivou a revisitar essa obra de Henry James no suporte do cinema?

Paulo Betti – A ideia original, desde a peça, sempre foi da Eliane [Giardini]. Ela que gostava do livro e pensou, com [o ator e diretor] José Wilker (1946-2014), em fazer uma adaptação. Eu estava apenas como produtor da peça, que teria o Carlos Augusto Strazzer (1946-1993). Quando já estávamos fazendo as fotos para divulgação, ele ficou muito doente, então desistimos. Para não perdermos a verba, fizemos “Perversidade Sexual em Chicago”, do David Mamet. Quando decidimos fazer “A Fera na Selva”, já era 1992. Chamamos o Luiz Artur Nunes para fazer a adaptação e montamos. Um dia, estávamos no carro a caminho de Angra dos Reis, onde iríamos fazer a peça, e fomos passando o texto no carro. Enquanto eu e Eliane falávamos em voz alta, me ocorreu que aquilo poderia ser um filme. O texto soava interessante com o carro em movimento, naquela paisagem. Então, começou a nascer o projeto do filme. Fiz uma primeira adaptação para um roteiro e inscrevi em editais de baixo orçamento. Tentei diversas possibilidades de financiamento, corri atrás, fui recusado em pitching… No fim, não consegui encaixar em nada. Muitos anos depois, quando estava desistindo de fazer o filme e pensava em me dedicar mesmo a ser apenas ator, recebi um telefonema de uma firma de Sorocaba, chamada Flextronics, dizendo que ela tinha verba para algum projeto. Foi uma surpresa grande! Eu estava no camarim da televisão quando recebi a notícia. Era um dinheiro muito baixo, mas pensei que era um sinal. Fazer o filme em Sorocaba me pareceu muito estimulante, pensei que ele ganharia uma nova potencialidade. Aí, a coisa ficou muito mais atraente.

Revista de CINEMA – O que o fez insistir nesse projeto por tantos anos?

Paulo Betti – Certamente, minha relação com Eliane. Fomos casados durante 25 anos, fizemos essa peça juntos, a história entre os personagens é muito parecida com a da nossa relação. Pode parecer meio mesquinho, mas sempre achei que seria muito bonito se a gente conseguisse registrar isso – e quando o projeto foi para Sorocaba ficou ainda mais bonito. O filme é a coroação de uma história nossa que se transformou durante o tempo, mas que se manteve muito íntegra. Além dos filhos que tivemos e das peças que fizemos juntos, era uma forma de fazer uma obra com um recado forte e que a gente achava que devia ser passado com emoção.

Revista de CINEMA – Essa é uma trama com um final um tanto trágico. De que forma ela se relaciona com a história de vocês?

Paulo Betti – Ela se relaciona, primeiramente, porque nós fazemos um casal, o que também já fomos na vida. Eu também identifico certas obsessões minhas no meu personagem. Ele é detestável, quase um vilão. Essa é a história de um homem e uma mulher que passam a vida inteira juntos, mas ele tem uma ideia fixa: ele acha que vai acontecer algo extraordinário na vida dele e coloca essa mulher à serviço da obsessão dele, mas ela começa a sacar que não vai acontecer nada. A vida é isso, é essa nossa conversa, não vai ter fogos de artifício no meio dela.

Revista de CINEMA – Esta é a adaptação para cinema de uma peça que foi adaptada de um livro. Como diretor, qual o principal desafio nessa transposição de linguagens?

Paulo Betti – Cinema é outra coisa. Fui reescrevendo o roteiro, tirei narrador, botei narrador… A Eliane deu muitos palpites, mas fechei questão em cima do roteiro que eu tinha preparado imaginando como seria o filme.

Tivemos que saber a hora de cortar a palavra: tudo o que a gente achava que era muito importante e que, na verdade, podia não ser tão importante assim. Fomos trabalhando na adaptação para cortar esses excessos, e tivemos que cortar também muito na edição. Esse foi um trabalho cirúrgico do Eduardo Escorel, nosso montador, que abriu espaços para cenas com mais amplidão.

Dessa vez, eu também já tinha mais conhecimento da coisa, porque já tinha feito o “Cafundó”, que me deu uma experiência completa, desde a produção à finalização e ao lançamento. Então, já fui com uma nova abordagem.

O ator Lázaro Ramos, em cena de “Cafundó”, primeiro longa dirigido por Paulo Betti inspirado nas suas memórias de infância

Revista de CINEMA – O projeto de “A Fera na Selva” nasceu antes de “Cafundó”, certo?

Paulo Betti – Muito antes. “Cafundó” foi uma parada que nós fizemos para depois fazer “A Fera na Selva”.

Revista de CINEMA – O que você trouxe dessa primeira experiência como diretor para esse set e que erros você cometeu ali que, dessa vez, conseguiu driblar?

Paulo Betti – O aprendizado principal foi não dividir a direção. Eu dirigi “Cafundó” com o Clóvis Bueno. Respeito o relacionamento que tivemos ali, mas não gostei da experiência. A direção dividida foi uma das coisas que me deixou insatisfeito. Dessa vez, eu queria ser o diretor e mandar no filme.

Outra coisa que aprendi foi a construir uma parceria com o diretor de fotografia, daí a minha insistência em ter o Lauro Escorel comigo. Chegaram a me apresentar outras possibilidades, mas bati muito o pé em relação a isso, o que se revelou um acerto, porque ele começou imediatamente a me apontar o que eu tinha que fazer. Isso foi importante, porque me deu o timing que eu não tinha aprendido direito com “Cafundó” e me ajudou a saber a hora certa de contratar os profissionais para fazer a coisa andar. Aprendi também a buscar imediatamente um bom produtor, que, no caso, foi o Giba [Antunes], da Batuta Filmes, lá de Sorocaba.

O interessante disso tudo foi que, no último dia das filmagens, voltando com o Lauro e a Eliane para o hotel, eu propus que eles dividissem os créditos de direção comigo. Essa foi uma ideia que surgiu no processo. Não sabia que ia tomar essa decisão enquanto estava filmando. Eu tinha um papel enorme no filme e, além de dirigir, também era o produtor – tinha que assinar cheque no intervalo entre uma cena e outra. O conhecimento desses dois foi fundamental.

Revista de CINEMA – As parcerias foram, então, importantes para você lidar com tantas funções ao mesmo tempo?

Paulo Betti – Sim, e isso foi muito positivo. Minha sorte é que eles só souberam que seriam codiretores depois! (risos) Foi ótimo, porque assim pude manter a autoridade sobre o filme. Aprendi também isso: você tem que estar firme no que pretende fazer, mas também tem que ouvir as pessoas. Eu e a Eliane estudamos o texto juntos durante quase um mês. Quando chegávamos ao set, ela ajudava muito a marcar as cenas, enquanto o Lauro já ia bolando as tomadas das câmeras. Honestamente, eu não tenho a vocação do diretor de cinema no sentido plano, de saber para onde apontar a câmera. Sempre trabalhei no teatro, sei como distribuir os atores no palco, mas não fico pensando no plano, na logística, quanto tempo vai levar para fazer. No fim, deu certo.

Revista de CINEMA – Você e Eliane têm uma história próxima com Sorocaba. O que esse set trouxe de diferente para a história?

Paulo Betti – Estávamos muito emocionados com a ideia de estarmos trabalhando juntos ali. Aquele foi o lugar onde passamos nossa infância e nos conhecemos. Esse fato fez com que toda a realização do filme tivesse uma emoção especial. As pessoas em Sorocaba estavam felizes por nós, dois atores conhecidos da televisão, estarmos filmando ali, o que somou uma corrente muito positiva. Propomos ao Sesi uma contrapartida de apoio na qual fizemos uma aproximação com todo mundo interessado em fazer cinema na cidade. Surgiram duas mil pessoas, e parte delas atuou como figurante ou ajudou a equipe. Fizemos também parceria com uma faculdade de Salto, uma cidade perto, e desenvolvemos um cineclube durante o processo de preparação do filme. Fizemos dez sessões de filmes que tinham a ver com o que nós pensávamos que poderia ser o nosso. Para você ter ideia, um menino figurante, de dez anos, assistiu a “Limite” (1931), do Mário Peixoto, leu o roteiro e a novela do Henry James e deu palpite sobre como devíamos aproximar o final do nosso filme com o daquele outro, reforçando uma ideia que a gente já tinha. Chegávamos ao cineclube cansados pra caramba, às vezes até sem saco, mas estavam lá 300 pessoas querendo ver “O Quarto Verde” (1978), do [François] Truffaut. Também tivemos uma grande facilidade para conseguir espaços para filmar em lugares mitológicos para mim e que sorocabanos frequentam: a estação de trem, o museu de arte moderna, o teatro. Isso tudo está no filme.

Revista de CINEMA – Você acaba de rodar também “Uma Noite Não É Nada”, nova produção de Alain Fresnot, que o dirigiu em “Ed Mort” (1997). Como foi esse reencontro?

Paulo Betti – Foi muito legal. Fizemos também um drama. Foi uma delícia trabalhar com o Alain. Esse é um filme triste pra caramba, mas foi muito gostoso de fazer. É a história de um professor que se apaixona por uma moça (Luiza Braga) que tem Aids, e eles vivem uma paixão um pouco suicida. Também foi filmado em um tempo curto, e fiz antes de partir para a montagem de “A Fera na Selva”. É gostoso trabalhar só como ator depois de fazer um trabalho como diretor, ator e produtor. É legal não precisar se preocupar se vai ou não chover (risos).

Paulo Betti (ao centro), nas filmagens de “Uma Noite Não É Nada”, do diretor Alain Fresnot (de pé), no papel de um homem maduro, apaixonado por uma jovem com Aids. © Aline Arruda

Revista de CINEMA – Assim como “A Fera na Selva”, “Uma Noite Não É Nada” é um filme que nada contra a corrente da atual produção acelerada de comédias no país, e seu último papel em novelas foi marcado justamente pela comédia. Você sentiu alguma pressão de potenciais patrocinadores para apostar nesse filão?

Paulo Betti – Sempre tem esse tipo de coisa. Questionavam o fato de o filme ter apenas eu e a Eliane. Ouvi isso em muitos lugares. “Só dois atores?” Sim, tem muitos filmes assim, tem “Antes do Pôr do Sol” (2004) e toda uma trilogia só com dois atores. Eu dizia: “Observem a história, prestem atenção nela, que pode ser boa”. Tem uma caretice do mercado, sim, em relação a certo tipo de filme. Eu fiz um filme de baixo orçamento. Não tenho pretensão de conseguir um público estratosférico. Se eu conseguir cem mil espectadores está mais do que bom.

Revista de CINEMA – Financiar projetos é sempre algo muito difícil. Para levantar os recursos de “Cafundó”, você experimentou um sistema de investimento de pessoas físicas descontado em folha de pagamento, o que seria uma alternativa à dependência de patrocínios e editais. Como você avalia essa experiência?

Paulo Betti – Foi muito desgastante, porque você se dispersa muito. Eu precisava conseguir mil aposentados para que a coisa funcionasse. A Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) fez um anúncio no holerite dos aposentados, no qual eu falava que o cinema brasileiro era o álbum de fotografia do Brasil. No outro mês, eu explicava o que era o “Cafundó” e, no seguinte, como eles poderiam colaborar com o meu filme. Era algo como R$ 40 que a Previ adiantaria e, no fim do ano, seriam restituídos no Imposto de Renda. O problema é que isso é como o “Criança Esperança”: na hora que você se mobiliza, que aquilo o toca e você quer ajudar, você tem que pegar o telefone e, no impulso, fazer a doação. Se você for esperar o outro dia para isso, o desejo que você teve de fazer a contribuição já é suficiente e você não se levanta para ir lá investir. Você sente que já se tornou uma boa pessoa apenas por ter querido fazer aquilo. Consegui 80 pessoas, aposentados do Brasil inteiro. Comecei a ligar para cada uma dessas pessoas pensando que elas podiam convencer outras, mas não deu. Foi o tipo de coisa que a gente tenta fazer funcionar quando está na produção, mas não funciona.

Revista de CINEMA – O financiamento da cultura é uma questão bastante debatida atualmente. A Lei Rouanet está na mira de congressistas e de certa opinião pública. Por que essa legislação está sendo vilanizada?

Paulo Betti – O Brasil está em um momento de crise política forte. Estamos passando por um golpe branco, e os artistas, por suas tradições libertárias, estão majoritariamente contra isso. Uma grande maioria de políticos – alguns extremamente reacionários – se sente agredida por eles e estão querendo fazer uma devassa na Lei Rouanet para punir os artistas que, para o desespero deles, não são quem mais arrecada com isenção fiscal. Criou-se o estigma de que os artistas vivem de mamar nas tetas do governo quando, na realidade, no que diz respeito ao cinema, com a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e a criação de séries de TV e editais e tudo mais, acabaram desenvolvendo um setor muito próspero do ponto de vista comercial, com muitos empregos e o florescimento de estúdios. Não dá para conviver com um sistema político que tem um Congresso como o que temos hoje no Brasil. Era evidente que ia rolar algum conflito. É só você ver quem lidera essa perseguição às leis de incentivo à cultura.

Revista de CINEMA – Sedes do Ministério da Cultura e da Funarte seguem ocupadas em todo o país a despeito da recriação do Ministério da Cultura. Na sua opinião, por que as manifestações seguem ocorrendo?

Paulo Betti – Não considero o governo do Temer legítimo. Acho que essas ocupações são ponta de lança de um inconformismo de como foi conduzido o processo de impeachment da presidente Dilma. Não estou nem fazendo a defesa dela. Estou dizendo que acompanhei a progressão dos fatos e vi com clareza as combinações entre o setor jurídico e as grandes empresas de comunicação e como isso foi se combinando para criar as condições de povo na rua que levaram àquele espetáculo horrendo que nós todos vimos, com excelentes pais de família tementes a Deus que, logo na sequência, se revelaram absolutamente corruptos. E o governo Temer, pelo seu açodamento no processo que devia ser de apenas interinidade e na falta de juízo ético e moral na escolha de seus ministros, mostra não ser legítimo. Então, eu apoio as ocupações dos espaços de cultura no país e as considero muito legítimas. A cultura tem esse papel de denúncia, de deixar claro que o que está ocorrendo no Brasil é um golpe.

Revista de CINEMA – A Lei da TV paga está abrindo um bom campo de trabalho para séries dramáticas e documentais. Você tem algum projeto de direção nesse novo campo?

Paulo Betti – Meu projeto, depois de “A Fera na Selva”, é continuar meu trabalho como ator. Eu sou ator. Estou felicíssimo com o filme, mas não quero ser diretor, não (risos).

 

Por Amanda Queirós

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