Artigos Televisão — 28 setembro 2016
Processo criativo da série “Unidade Básica”

“Unidade Básica” é uma série do canal Universal e que foi escrita pelos autores desse artigo: Newton Cannito e Marcos Takeda.

A série partiu de um grande desafio: fazer um drama de hospital num ambiente de Unidade Básica, o tradicional “postinho de saúde”. As séries médicas, geralmente, acontecem em hospitais e têm duas situações clássicas: urgência (“Plantão Médico”) ou doença rara (“Dr. House”, processo investigativo). No nosso caso, foi diferente. O objetivo era abordar doenças crônicas (diabetes, por exemplo) e que, apesar de serem letais e tirarem a qualidade de vida do paciente, não têm urgência médica. Elas também são facéis de diagnosticar, o que dificulta a criação de um drama de investigação. Ao mesmo tempo, tínhamos que criar uma série que tem curva longa e investigação de um caso por episódio em 26 minutos.

Para resolver esses dilemas, começamos com a pesquisa de campo aprofundada e uma pesquisa teórica sobre as concepções de medicina. Logo fizemos o mapa dramático principal, o grande conflito conceitual que deu unidade à série: há uma médica especialista focada na doença e um médico de família, que defende uma medicina humanizada e focada no paciente. A preocupação dos médicos que entrevistamos é com séries como “Dr. House”, que acabam sendo apenas promotores da hipocondria, enfatizando apenas a inteligência do médico especialista, desvalorizando o trabalho do Médico de Família e Comunidade e a complexidade da Atenção Básica. Nosso objetivo na série foi mostrar a importância desse segundo tipo de medicina e criar um novo herói para as séries médicas. Um médico que, ao contrário de House, se preocupa com os seres humanos.

Logo percebemos que, em muitos casos, a investigação não precisa ser sobre “qual é a doença”. A doença é clara desde o início: Aids, diabetes, cirrosse. A investigação real é sobre por que o paciente quer morrer! Ou que contextos socioculturais evitam que ele trate realmente de sua doença. Para isso, ao invés da inteligência ser focada no diagnóstico raro, o prazer investigativo é entender os arranjos familiares e o contexto social do paciente. Conflitos éticos e concepções religiosas entram em jogo e nossa médica especialista tem que aprender a lidar com seres humanos reais, nao apenas com doenças.

Em seguida, foi necessário pensar um formato que realizasse um processo investigativo e que se encaixasse dentro de 26 minutos. Então, aqui, buscamos referências que pudessem servir de inspiração e modelo. É raro ver séries dramáticas de 30 minutos. Encontramos “Nurse Jackie”, que segue drama pessoal em uma curva longa, o que não nos servia de exemplo.

Foi, então, que a consultoria do canal Universal nos ajudou. Nos indicaram o mestre dos formatos Dick Wolf. Estudando a série “Lei e Ordem”, que apesar de ter uma hora de duração com comerciais (cerca de 40 minutos de série), a série se divide em duas partes, praticamente independentes: investigação e julgamento, sobrando cerca de 20 minutos para cada parte. Para retratar a estória em tão pouco tempo, algumas características da série se ressaltam: personagens centrais reduzidos, não há tempo morto, elipses e centralização em cenas chaves que chegam direto no ponto, sem dramas pessoais (esses eram revelados em reações a casos que se assemelhavam a algo pessoal do passado dos personagens).

O que nos inspirou em “Lei e Ordem” foi a manipulação do tempo do universo da série. Centrando em cenas chaves e corte do tempo morto, pudemos fazer uma aceleração de tempo sem precisar ser indicado por lettering. Seguindo a linha investigativa ciclicamente: aplicação da teoria (diagnóstico), resultado não satisfatório (discussão de equipe) e novas teorias. O tempo da diegese da série em um episódio poderia durar cerca de 9 meses sem que fosse necessário explicar ou apontar. Isso foi libertador, porque, se pararmos para analisar, o tempo da temporada dura um ano e se fóssemos nos prender a rigidez da “realidade”, ou faríamos uma série multiplot ou teríamos que nos atentar às dinâmicas entre os personagens dentro do episódio. Por exemplo, no primeiro bloco, Paulo e Laura estariam animosos, enquanto que no final (passados 9 meses), eles estariam mais amigáveis e isso era ruim para o episódio em si.

Durante o processo de formato, já havíamos criado um mapa dos personagens; os principais: dra. Laura é mais “cientista” e foca nos sintomas, dr. Paulo é “humanista” e foca no paciente. Para os secundários, foram pensados diversos personagens, porém novamente esbarramos no tempo e tivemos que reduzir aos essenciais: Beth, enfermeira e gerente que tem como função coordenar e mediar os médicos, Malaquias, agente comunitário que traz informações sobre os pacientes e também serve de ouvido para Paulo, e Samara, “estagiária”, mais ligada a Laura é quem traduz a discussão médica para o público.

Tendo todos esses conceitos claros, foram escritas as várias versões do roteiro, além da adequação à fidelidade médica. Os roteiros foram afinados pensando em gancho para os finais de bloco, revelação final, discussão teórica, entre outros pontos.

OBS: A série foi criada por Ana Petta, Helena Petta e Newton Cannito. Os roteiros foram escritos em colaboração com Victor Hugo Valois e com consultoria de Helena Petta. A direção foi de Carlos Cortez e Caroline Fioratti e produção da Gullane, em coprodução com a FICs.

 

Por Newton Cannito e Marcos Takeda, roteiristas

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