Criação Narrativa — 15 setembro 2016
Simpatia pela agonia
Taxi Driver

Há um momento no filme Taxi Driver em que o personagem Travis quer desabafar com o mentor dos taxistas, que atende pelo apelido de Wizard. Travis tenta falar das “ideias ruins que estão na sua cabeça” e da sua vontade de “fazer alguma coisa”. Sua fala é reticente, seu olhar é fugidio. Wizard esboça um arremedo de lição de vida, palavras que para Travis soam como bobagem. Travis não sabe o que dizer, Wizard não sabe o que aconselhar. Uma comunicação condenada ao fracasso, confirmando a observação do dramaturgo Harold Pinter de que a linguagem é o instrumento que o ser humano inventou para não se comunicar.

Na hora da despedida, o mentor frustrado estende a mão e Travis a aperta. Um cumprimento estranho – Travis segura apenas as pontas do dedo de Wizard, mas se mantém segurando a mão do interlocutor por mais tempo do que manda a convenção. Eis aqui, no simples gesto, o drama interior de um candidato a psicopata social. Ele gostaria de driblar seu isolamento, daí segurar a mão por um longo tempo, ao mesmo tempo em que não consegue encontrar contato humano, daí o aperto de mão anacrônico, resultado de uma conversa que não vai para lugar nenhum.

O diretor Martin Scorsese conta que a pergunta clássica nas palestras que faz é “onde eu devo colocar a câmera?” A resposta são outras perguntas. Quem é o personagem? Sobre o que é a cena? No caso da cena de Taxi Driver, Wizard parte em seu carro e a câmera é colocada junto ao vidro traseiro. Através do vidro, vemos Travis se afastar, sozinho nas ruas que ele considera contaminadas pela escória.

Quem é o personagem e sobre o que é a cena? As mesmas perguntas são decisivas na hora de escrever. O sentido original das palavras pode ajudar. O protagonista é um proto-agon. Proto é primeiro. Agon, em grego, significa embate, disputa. Em nossas palavras atuais, o protagonista é um conflito. Cabe lembrar que agon originou também a palavra agonia, que aponta para um combate interior. “Na ficção, todo sentido nasce de um coração em luta consigo mesmo”, conforme nos lembra Faulkner.

Outra palavra-chave é simpatia. Um produtor afeito às receitas gosta de afirmar que não sente simpatia por este ou aquele personagem. Parece impróprio considerar Travis um sujeito simpático, e tornar ele gostável seria o pior conselho a ser dado ao roteirista. Curiosamente, a mensagem do produtor afeito às receitas acaba sem querer tocando no sentido profundo da palavra. Simpatia vem de syn-pathos, que aponta para partilhar a experiência e o sofrimento. Simpatizar com Travis não significa achar ele um cara legal, mas compreender o seu pathos. Dito de outro modo, simpatizamos com sua agonia.

O agon de Travis é ter ideias ruins em sua cabeça e não conseguir entendê-las e compartilhá-las. Um coração em luta consigo mesmo que se manifesta com toda grandeza em um aperto de mão. O agon do personagem Rafael, o Filho da Noiva, também pode ser capturado em gestos. Quando seu pai elegante, apelidado de comendador, entra com um buquê de flores no restaurante da família, o gesto instintivo de Rafael é tapar os olhos. E logo em seguida receber o pai com afeto. O pai traz a realidade que Rafael prefere não ver: o convite para visitar a mãe na clínica. Rafael dá a desculpa de estar ocupado, o pai observa que faz um ano que o filho não visita a mãe com Alzheimer e naquele dia é o aniversário dela.

A agonia de Kramer aparece quando o filho o acorda, no dia seguinte à mãe ter ido embora de casa. Assim que o filho o chacoalha, ele vê a cama vazia e emite uma interjeição que revela seu abandono. Mas logo em seguida levanta para fazer o café da manhã tentando convencer o garoto de que tudo está bem e de que vão se divertir juntos. Durante toda a cena, na verdade é a si mesmo que ele tenta convencer.

Quando Joe Buck, de Perdidos da Noite, reencontra o vagabundo Ratzo, seu primeiro gesto instintivo é sorrir. Só depois Buck se lembra que Ratzo passou a perna nele e vai tomar satisfação. O sorriso é de alguém perdido e sozinho que revê um amigo, a raiva vem do fato de que o único candidato a amigo é um trapaceiro.

Pequenos gestos que revelam cruéis combates interiores. Momentos que tocam na intimidade profunda do personagem, um lugar delicado, difícil de alcançar. O personagem não quer mostrar esse lugar nem para si mesmo. Um coração em luta consigo mesmo, na sentença de Faulkner que deveria ser recitada de joelhos, em louvor ao deus das narrativas.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor

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