Artigos Televisão — 30 novembro 2016
Manuela Dias, abelha-rainha
Cena da minissérie “Justiça”

Está chegando à reta final um ano que foi trágico para milhões de pessoas (vide as grandes migrações), ininterruptamente ameaçador para outros milhões (perguntem aos europeus e estadunidenses), instável como uma bolha de sabão para os milhões da América Latina, perverso como um pesadelo para um bilhão e 500 milhões de muçulmanos pacíficos e a África Negra piorou sua situação da região mais pobre do planeta. Como se diz na minha terra, lá no coração da Bahia, “tão feio que a Feiura, quando viu, saiu correndo horrorizada”.

No Brasil, todos os males se agravaram: desemprego, violência contra a mulher, preconceitos atávicos, tráfico de armas e drogas, atendimento público à educação e saúde, o desmantelo da política e uma lista longa que todos sabem e/ou sofrem. A população demonstrou satisfação apenas com o futebol e com a mega operação do Ministério Público contra a corrupção, que pode resultar em uma limpeza ética, na punição de empresários, políticos e funcionários públicos criminosos, e também pode melar — no momento em que escrevo, os três Poderes estão em litígio por causa da Lava Jato.

Me perguntei como a teledramaturgia brasileira realizada em 2016 reagiu diante de 2016, levando em conta que a arte reflete a atualidade, a época na qual está inserida, consciente ou inconscientemente, em formas realistas ou abstratas, em cores naturais ou simbólicas. Adotei o critério da massividade, o que o povo mais vê, e me voltei para a TV aberta e a teledramaturgia da Globo, a que alcança ou se aproxima mais vezes do teto entre 35 e 40 pontos de audiência (já lá se foram os tempos, que não mais voltarão, em que telenovela alcançava 90 pontos). De tudo que rolou na teledramaturgia de alto consumo (e também na TV paga) durante este ano perturbador, o grande destaque foi “Justiça”, de Manuela Dias, telessérie com 20 capítulos exibida em agosto/setembro.

Balizas

A jovem roteirista já havia chamado a atenção em janeiro com a minissérie “Ligações Perigosas”, mais uma versão audiovisual do clássico romance de Choderlos de Laclos. Piscou o olho para o espectador com seu jeito espiralado de montar a narrativa, com os diálogos lapidados, com a precisão culinária como mistura os temas (no caso sedução, vingança, intriga), habilidades também presentes nos roteiros dos filmes “Floresta que se Move” (a partir de Shakespeare) e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (a partir de Guimarães Rosa), lançados recentemente. Mas foi em “Justiça”, de sua autoria, que mostrou sem medo as cartas que tem para lançar na mesa da grande arte de contar histórias.

Assassinato de mulheres, estupro, violência patológica, corrupção política, atropeladores que não socorrem suas vítimas, policiais malfeitores, prostituição, vingança, distúrbios psicoemocionais e a contraparte de bons sentimentos, recuperações morais, buscas de superação, o complexo exercício do perdão e piedade extrema (eutanásia). Tudo acontece em Recife, em 2009, mas o que vemos é o Brasil em 2016. O macro tema são as fronteiras e as falsas fronteiras entre o certo e o errado ou, como disse a própria Manuela Dias, “uma pesquisa audiovisual sobre o que é justo”. Aqui vale uma citação de Hegel: “as verdadeiras tragédias não são conflitos entre o certo e o errado e sim entre dois direitos”.

Pólen

Esses limites nem sempre nítidos são tratados em “Justiça” através de quatro histórias independentes e lineares que, conectadas pelo destino e pelas circunstâncias, conformam uma narrativa aparentemente não linear. Uma estrutura que, ao contrário do quebra-cabeças tradicional, vai ficando mais difícil à medida que se aproxima do final, quando as últimas peças encontram seu lugar de encaixe. Foi exatamente aí, no como contar, na forma de narrar, que Manuela Dias mostrou o poder de seu jogo e, de quebra, ratificou a máxima dramatúrgica de que cada conteúdo só se expõe inteiro se for abençoado por uma forma específica e condizente de exposição. Como cada época necessita de uma linguagem própria para se exprimir.

Contar múltiplas histórias em paralelo não é novidade desde 1916, quando Griffith realizou “Intolerância”. A novidade é a consciência de contemporaneidade de “Justiça” e sua irradiação pandêmica: Recife é o Brasil, o Brasil é o mundo, o mundo somos todos. Uma representação confiável da atualidade humana, um espelho que se mexe diante de nós, inquieto. Comparo seu estilo narrativo de ir e vir, de voar de um personagem para outro buscando a vida, com o processo de polinização das abelhas, com a possibilidade de encontrar em flores e pinhas um grão, por mais minúsculo que seja, que é ao mesmo tempo alimento e sêmen, comida e reprodução, manutenção e propagação. Uma atualização de linguagem, atitude coetânea da segunda década do século XXI. Por isso, o grande acontecimento da teledramaturgia em 2016.

 

Por Orlando Senna

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