Artigos Narrativa Slideshow — 13 dezembro 2016
“Magal e os Formigas”: o karma familiar na narrativa

Esse artigo fala do processo de roteirização e fabulação a partir da autobiografia. “Magal e os Formigas” (estreia em dezembro) é um longa que eu (Newton Cannito) dirigi e escrevi o roteiro junto com o Marcos Takeda. Partimos dos princípios do Instituto Fabular (www.fabular.com.br) para criação de fábulas autobiográficas, utilizando memórias pessoais e familiares como matriz para a reconstrução ficcional e autoconhecimento do indivíduo.

“Magal e os Formigas” é uma comédia que contrapõe a ascética cultura operária aos valores de curtição, alegria e prazer. João, em meio à crise de terceira idade, começa a delirar e ver Sidney Magal. João precisará dos conselhos do “Magal” para aprender a curtir a vida, recuperar o amor de sua mulher e ajudar seu filho financeiramente.

Para mim, o filme funcionou como uma cura. O pedagogo Julio Groppa diz que só podemos nos considerar adultos, quando conseguirmos perdoar nossos pais. Toda a cura espiritual ou psicológica é baseada na quebra de padrões transmitidos por sua família. Os medos passam de pai para filho.

No processo de cura, é fundamental conseguir perdoar seus pais. Eu tive pais ótimos, me sustentaram. Deram amor. Você os ama, mas você também tem raiva deles. Por que isso acontece? Porque nós sempre nos decepcionamos com nossos pais.

Eu, tal como todo menino, achava meu pai o máximo. Ele me ensinou muitas coisas, me passou sabedoria, habilidades físicas, cultura (time de futebol) etc. Ele era o maior. Mas, quando virei adolescente, descobri: papai era um fracassado. Em parte, pela falta de grana. Mas mais que isso. Ele tinha ideias repetitivas, antigas e obcecadas.

Quando eu era criança, meu pai tinha tanto medo de passar fome que acumulava centenas de sacos de arroz em casa. Nós não tínhamos prazer. Não tinha música em casa, e só víamos notícias nos jornais. Nem sofá na sala tínhamos.

Fui rebelde durante muito tempo, até perceber que a rebeldia contra papai não levava a nada. Então, comecei a pacificar a energia e a entender de onde veio tanto medo. Era kármico da família. O avô dele havia fugido da Itália e passado fome. Esse foi o medo que ele herdou.

Mas a minha cura só foi possível quando comecei a tratar isso como arte. Comecei a escrever uma série de contos chamados “Os Formigas” sobre minha família e também fiz um curta sobre isso. Nele, fiz a caricatura de toda a família. Peguei a situação do acúmulo de arroz e levei ao paroxismo máximo. Percebi que a dicotomia era entre medo e prazer de viver. Que o medo nos impedia de curtir a vida. Esse “curtir a vida” efetivei na imagem de não termos um sofá na sala. Lembro, claramente, que mamãe queria um sofá, mas papai comprou arroz. A dicotomia era entre sofá e arroz. A solução visual foi fazer um sofá de arroz.

Escrever e filmar essa sátira me ajudou a compreender melhor a paranoia. Mostrar o filme para meu pai, já com AVC (e sem conseguir falar) e ver ele rindo de sua própria vida me ajudou a perdoá-lo. É ridículo falar em perdoá-lo, pois ele sempre quis fazer o melhor. Mas eu o culpava, então, precisei perdoá-lo. Hoje, tenho que me perdoar por ter tido raiva dele.

Em dezembro, estreia “Magal e os Formigas”, um longa sobre o mesmo universo, também focado na dificuldade de meu pai em “curtir a vida”. Dificuldade que eu também tenho e quero superar. Esse filme, ao invés de sátira, é uma comédia dramática de conciliação.

A comédia é o gênero que possibilita a conciliação e a solução do problema. Eu criei, então, um personagem inspirado em meu pai. É um homem aposentado, sempre de mau humor e que faz cálculos para ganhar na loto. Isso é dado real, meu pai era matemático e, quando aposentou, passava seus dias preso num pequeno quarto fazendo cálculos para achar a fórmula perfeita para ganhar na loto. Ele continuou trabalhando em algo inútil, apenas para manter sua mente sã.

O personagem também odeia o Sidney Magal que, nas palavras dele, é um “rebolador televisivo”. É nesse momento que Magal aparece para ele, como um delírio, um anjo, um mentor ensinador. E começa a ensinar o coroa a viver.

O filme é autobiográfico em seu início. O personagem é muito parecido com meu pai. Mas papai nunca viu Magal como um anjo. Isso foi uma fábula criada por mim, uma solução imaginária para curar o karma familiar. Imaginar uma solução, afinal, é o primeiro passo para que ela aconteça realmente.

O enredo é, obviamente, inspirada na fábula da Cigarra e da Formiga. Magal é a cigarra, que canta e curte a vida. Meu pai é a formiga, que acumula. Mas o filme relê a fábula. No filme, a formiga irá aprender que a cigarra também trabalha e que é possível curtir a vida e trabalhar ao mesmo tempo.

Ou seja, criei uma história para incentivar eu mesmo a quebrar meus próprios padrões. Só consegui criá-la quando realmente entendi meu pai e todo esforço que ele fez na vida para me dar condições de comer e estudar.

 

* Esse artigo é dedicado a memória do seu Athenoges Cannito.

 

Por Newton Cannito, roteirista

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