Críticas de Filmes Slideshow — 31 janeiro 2017
Ecos histéricos e históricos

1964. Durante um evento de divulgação da turnê dos Beatles nos Estados Unidos, um repórter desavisado se aproxima de John Lennon e lhe pergunta: “Qual dos Beatles é você?”. Munido de sua célebre cara-de-pau, Lennon responde: “Sou o Eric”. E o repórter, microfone em punho, se dirige à câmera e começa sua reportagem: “Estamos aqui com Eric, dos Beatles…”. A gozação é geral.

Este é apenas um dos deliciosos momentos do documentário “The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years”, dirigido por Ron Howard, conhecido por seu trabalho de direção na trilogia “O Código da Vinci”, “Anjos e Demônios” e “Inferno’, entre outros.

A pergunta é inevitável: ainda há o que dizer sobre os Beatles? O mundo precisa de mais um documentário sobre o quarteto de Liverpool? O recorte escolhido pelo filme se centraliza nas turnês mundiais do grupo, em como tudo aconteceu com uma velocidade estonteante, numa época onde o conceito de comunicação de massa apenas engatinhava, e o de globalização sequer existia. O filme retrata a explosão da Beatlemania internacional a partir da sua primeira turnê norte-americana e da aparição do quarteto no superprestigiado programa da Ed Sullivan. A rapidez com que tudo se desencadeou acaba justificando o fato do citado repórter não conhecer John Lennon, exatamente o mesmo Lennon que, pouco tempo depois (muito pouco tempo), teria de convocar uma coletiva para explicar publicamente sua afirmação que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo.

Com farto material de arquivo, o longa estampa na tela as reações histéricas e históricas daquela geração baby-boomer que, menos de 20 anos após o término da Segunda Guerra, reconhecia-se finalmente como voz ativa e atuante dentro da sociedade de consumo. É o momento de uma virada social na qual o jovem sai de sua condição de coadjuvante para tornar-se rei e senhor das tendências mercadológicas e comportamentais.

A descontração, as brincadeiras, a irreverência que os Beatles destilavam nas diversas coletivas que davam à imprensa podem parecer triviais hoje, mas eram revolucionárias naqueles anos que antecederam o icônico maio de 1968, quando tudo mudou. Certamente, não é fácil apreender este conceito nos dias de hoje, onde tudo é criado e pensado para se transformar em fenômeno midiático, mas é preciso olhar o filme com olhos de 1964 para compreender melhor a extensão da Bealtemania e as portas que ela abriu para o futuro das comunicações. Da mesma forma que é praticamente impossível, para a geração atual, tentar entender por que os cabelos dos Beatles provocavam tanta celeuma. Acredite: hoje beirando o ridículo, o corte “tigelinha” dos rapazes foi recebido na época como um grito de rebeldia desta juventude “iê-iê-iê’.

Considerações socioculturais à parte, o documentário traz momentos dos mais saborosos, como o cineasta Richard Lester dizendo que foi pressionado a rodar o filme “A Hard’s Day Night” o mais rápido possível, porque os produtores acreditavam que a fama dos Beatles não duraria mais que alguns meses. Ou cenas de uma Sigourney Weaver adolescente flagrada em meio a milhares de jovens que choravam e gritavam num show em Nova York.

Há também o lado menos festivo, como a exaustão e a desilusão dos quatro rapazes que – ainda muito cedo em suas carreiras – sucumbiam à pressão de atuar em shows onde os feridos suplantavam a casa dos 200, ou fugir num caminhão fechado para evitar a violência da histeria, ou mesmo de ter de se apresentar em 25 cidades num período de 30 dias. Afinal, antes dos Beatles, sequer existia o conceito de turnês em grandes estádios, segundo informa o filme. A famosa canção “Help” é um grito de socorro de Lennon relativo a estas pressões. Paul McCartney chega a afirmar que todo o filme que leva o nome da música foi gravado com o quarteto chapado para suportar o ritmo.

Talvez nada disso seja exatamente uma grande novidade e, talvez, respondendo à pergunta feita no início deste texto, o mundo não precise mesmo de mais um documentário sobre os Beatles, mas, mesmo assim, para quem viveu o período, é sempre gratificante ver (rever) as performances do grupo na tela grande, em belas imagens remasterizadas, e tentar compreender a importância da Beatlemania como fenômeno ímpar da cultura pop. E, para quem não viveu a época, a explosão dos rapazes que colocaram Liverpool no mapa mundial não deixa de se revestir de um marcante caráter histórico-pioneiro que abriu novas estradas para as gerações futuras.

Em tempos de neo-caretice, ainda há muito o que aprender com Paul, George, Ringo… e Eric.

 

The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years
EUA, 138 min., 2016
Direção: Ron Howard
Distribuição: Flix Media
Estreia: 2 de fevereiro

 

Por Celso Sabadin

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