Oposição de valores de classe, mais uma vez

Mal passado o burburinho em torno de “Que Horas Ela Volta?”, Anna Muylaert põe no circuito “Mãe Só Há Uma”. Todavia, mesmo com uma premiação no Festival de Berlim, a recepção crítica de seu novo longa foi fria aqui no Brasil. Na comparação com o anterior, pode-se dizer igualmente que o filme mais recente foi um fracasso de público. Talvez seja o caso de aproveitar o DVD de “Mãe Só Há Uma”, lançado pela Imovision, para entender o por quê de tal descompasso entre dois filmes de realização quase simultânea e que mantém uma linha temática facilmente identificável.

“Que Horas Ela Volta?” é um dos filmes do cinema nacional com melhor recepção crítica e sucesso de bilheteria nas últimas décadas. Premiadíssimo e alvo das mais diversas discussões, colocou Muylaert no epicentro dos mais diversos debates ao acenar para questões subliminares da conflituosa relação de classes no Brasil. Por meio da figura de uma mãe, empregada doméstica, e da filha estudante que quer entrar na USP, Muylaert fez um recorte da movimentação de classes no Brasil sob os anos de petismo.

A figura da mãe, por suposto, é central no novo Muylaert, assim como as questões subliminares da conflituosa relação de classes. Mas a recepção fria da crítica, tanto quanto o desinteresse do público, deixa no ar interrogações que não se podem por embaixo do tapete. “Que Horas Ela Volta?” teria sido superestimado em razão de um boca a boca que logo fez com que os holofotes lhe fossem apontados? Muylaert, por si só, estava aquém do filme e não conseguiu manter-se na linha de frente do debate com “Mãe Só Há Uma?”. Ou, ainda, crítica e público subestimaram o mais recente Muylaert?

Penso que “Mãe Só Há Uma” deva ser visto a partir de questão assim, que o confrontem, pois, com o enorme impacto do filme imediatamente anterior. No confronto, talvez se possa aquilatar devidamente “Mãe Só Há Uma”; em consequência, se possa ter melhor apreciação da temática que impulsiona as duas realizações de Muylaert. Ora, nos dois filmes, a presença e a ausência da figura da mãe; nos dois filmes, a família tradicional burguesa e um elemento estranho disruptivo; nos dois filmes, a oposição de valores de classe: a normalização do modo de vida da classe média como referência a ser seguida.

Em “Mãe Só Há Uma”, um adolescente de dezessete anos é o foco da narrativa. Ele fora raptado de sua mãe biológica no hospital, logo depois do parto. A mulher que o raptou, de classe média baixa, deu-lhe educação, carinho, um sentido de vida e, mais, não lhe negou que não era seu filho natural. O rapaz segue uma vida “normal”, própria dos jovens de sua idade. Estuda, mas não tem interesse em estudos e sim em música: canta e toca numa banda de fundo de garagem; e, como muitos jovens “normais” de sua geração, é despertado para uma sexualidade que afronta valores tradicionais: ele se interessa ao mesmo tempo por meninos e meninas.

A normalidade de sua vida é quebrada quando sua família biológica descobre seu paradeiro. A mãe que o criara acaba presa pelo rapto e ele passa a morar na casa de seus pais naturais. Recebido com alegria e felicidade em sua “verdadeira” família, de classe média alta, logo se vê o descompasso entre o mundo em que vivia e o no qual passa a viver. O choque de valores entre os dois mundos é terrível e devastador para ele. A refinada casa burguesa em que passa a viver é um tormento; sua “nova” mãe, uma presença grudenta, lhe é uma absoluta estranha.

Completamente fora de sintonia, o jovem não suporta a ausência da mãe que o criara. Recolhido e oprimido em seu novo habitar, por meios de explosões casuais, ele expressa seu desconforto e bate de frente com as expectativas de um filho bem-comportado, nos conformes da classe média alta. Assim, seu comportamento sexual, escondido de sua mãe adotiva, ou, sabido, mas velado, é exposto para gerar mal-estar, para exibir seu descontentamento com a situação em que se encontra. Numa tensa discussão com sua “nova” família, ele grita: “você não é minha mãe, eu fui roubado duas vezes; uma no hospital e agora, por vocês”.

“Mãe Só Há Uma”, assim entendo, está longe de ser um filme desinteressante. Muylaert pode ser acusada por tratar de forma caricatural conflitos de classe – a ordem burguesa em contraste com a disfuncionalidade de uma classe mais baixa –, mas isso também pode ser dito de “Que Horas Ela Volta?”. Enfim, “Mãe Só Há Uma” é um filme que merecia acolhida diferente da que teve. Se Muylaert deixa pontos sem nó e conduz a narrativa por meio de contornos frágeis do ponto de vista sociológico, não é menos verdade que ela arrisca, e seu “Mãe Só Há Uma” tem um grande mérito: mantém a preocupação de exibir o confronto entre lados opostos em nossa sociedade. Sob esse aspecto, “Durval Discos” (2002), seu premiado longa de estreia, antecipa a linha temática de seu cinema por vir.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

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