Críticas de Filmes Slideshow — 31 janeiro 2017
Vida cangaceira em poesia
© Fred Jordão

Escusado dizer que o ciclo de cinema pernambucano é um dos mais férteis e ricos da Retomada do cinema brasileiro. Contudo, talvez seja o caso de lembrar que um dos marcos desse ciclo, e da Retomada, tenha sido “Baile Perfumado” (1996), dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Vinte anos após, ao lado do livro “A Aventura do Baile Perfumado” (Editora Cepe), organizado por Amanda Mansur e Paulo Cunha, temos seu lançamento em DVD pela Imovision. Assim, a possibilidade de revermos, apreciarmos e reavaliarmos esse marco do cinema nacional.

O filme, não custa ressaltar, foi feito num momento de retomada; portanto, quando fazer cinema era uma aposta, um risco que implicava no enfrentamento das mais diversas dificuldades. Com isso em vista, há um dado importante a ser acentuado. A realização de “Baile Perfumado” se insere num momento de efervescência musical em Recife com a presença do movimento Mangue Beat. Em sintonia com esse movimento musical, a banda sonora do filme acolheu as letras e sons de Chico Science e a Nação Zumbi, Fred Zero Quatro e o Mundo Livre S/A. Creio que, nesse elemento de identificação cultural, um dos trunfos que fez de “Baile Perfumado” um dos filmes mais “curtidos” daqueles anos de retomada.

Na agitada cena cultural recifense de meados da década de 1990, Lírio Ferreira e Paulo Caldas tomam um tema caro à cinematografia nacional – o cangaço – e propõem um filme, sob muitos aspectos, disruptivo. Quando se pensa em cangaço e Cinema Novo, vem à mente de qualquer espectador a imagem do sertão calcinado pela seca e a violência como sinal de rebeldia às condições de miséria. Lírio Ferreira e Paulo Caldas seguem outro caminho. Em “Baile Perfumado”, não há o sol inclemente dos filmes do Cinema Novo, tampouco sua narrativa se pauta pelo foco nas condições de miséria frente ao flagelo da seca.

“Baile Perfumado” narra, de forma bastante livre e alusiva, a aventura do mascate libanês Benjamin Abraão, que na década de 1930 filmou o bando de Lampião. Após desertar o exército do Império Otomano na I Grande Guerra, Benjamin fugiu para o Brasil e se estabeleceu em Recife. Na capital pernambucana, nos anos finais da Primeira República, tão ambicioso quanto arrivista, ele estabeleceu contatos com figuras de relevo daquele tempo: foi secretário do Padre Cícero e, em razão dessas relações influentes, conheceu Lampião, o mais famoso e temido cangaceiro do tempo do cangaço.

Anos depois, já na era Vargas, Benjamin levou a cabo a ousada iniciativa de filmagens daquele que, com o fim da Primeira República, passou a ser o bandido mais procurado do nordeste. Benjamin conseguiu realizar seu intento; todavia, como personagem suspeito ao trafegar entre cangaceiros e macacos (forças policiais que perseguiam cangaceiros), acabou assassinado sem que se soubessem as circunstâncias e motivações. Parte das imagens que registrou foram descobertas anos depois e se constituem num dos documentos mais ricos da vida e do cotidiano dos cangaceiros.

Na medida em que há poucas informações biográficas sobre Benjamin Abraão, Lírio Ferreira e Paulo Caldas filmaram a partir de um roteiro fragmentado e alusivo. “Baile Perfumado” evoca pessoas reais, situações supostamente vividas, mas principalmente envolta em lendas. Lampião, Maria Bonita, cangaceiros, coronéis, figuras políticas e forças policiais são exibidos em situações desdramatizadas, quase como se o peso de seus papéis sociais fosse deliberadamente arrefecido.

Isso porque, creio, a Lírio Ferreira e Paulo Caldas interessa mostrar um estado de espírito que, de algum modo, humanize a figura do cangaceiro; melhor, faça com que se o veja como um homem vaidoso, que se perfumava, era sensível e dançava para celebrar a alegria da vida, alheio à perseguição que sofria. “Baile Perfumado”, então, mostra homens e mulheres num ambiente de descontração, em momento de festa, indiferentes à realidade crua e cruel da miséria e dos contrastes sociais. As poucas cenas de violência – na morte de Benjamim vê-se apenas o corpo ensanguentado – são coreografadas; não geram, pois, sentimento de catarse: o movimento das imagens segue o ritmo do Mangue Beat.

Filme símbolo de um momento, hoje, creio, “Baile Perfumado” merece reparos. Porque se sabe tão pouco sobre Benjamin Abraão, inevitável assinalar que o personagem criado por Lírio Ferreira e Paulo Caldas é fruto de liberdade poética. O reparo, no caso, visa lembrar que a eventual complexidade da situação vivida por Benjamim foi esmaecida em proveito do estado de espírito que Ferreira e Caldas queriam exibir. Sendo esse o propósito, “Baile Perfumado” é um aprazível e oportuno filme num momento de reafirmação do cinema nacional.

Entretanto, assevero que a aventura real e o desfecho trágico do mascate libanês, os quais dariam ensejo a debates sociológicos e antropológicos, foram alienados do filme.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

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