Entrevistas — 24 fevereiro 2017
Quem é o autor de um filme? O diretor ou o roteirista?
Marcílio Moraes e seu livro, "O Crime da Gávea"

“O teatro é a arte do ator, o cinema, do diretor, e a televisão, do patrocinador”. Se depender do teledramaturgo Marcílio Moraes, que no próximo dia 9 de março lança seu primeiro filme, “O Crime da Gávea”, esta provocadora definição da essência do teatro, cinema e TV vai mudar. Para ele, cinema e TV são artes de quem escreve a história. Portanto, do roteirista e do teledramatugo.

Nos créditos de “O Crime da Gávea”, o nome de Marcílio aparece como “autor-roteirista, produtor e diretor de finalização”, além de autor do romance homônimo, publicado em 2003, que deu origem ao filme. A direção é assinada pelo estreante André Warwar, que ainda não veio a público exigir destaque para seu nome.

Marcílio Moraes se define profissionalmente como escritor, dramaturgo e autor-roteirista. Afinal, iniciou-se no ofício artístico escrevendo contos e peças de teatro. Na Rede Globo, ajudou a escrever telenovelas de sucesso, como “Roque Santeiro”, “Roda de Fogo”, “Mico Preto”, “Sonho Meu” e o remake de “Irmãos Coragem”. E, também, as minisséries “As Noivas de Copacabana”, “Dona Flor e seus Dois Maridos” e “Chiquinha Gonzaga”.

Em 2005, foi contratado pela TV Record. Na emissora, coescreveu “Essas Mulheres” e assinou seu maior sucesso, “Vidas Opostas”. Escreveu, ainda, “Ribeirão do Tempo” e as séries “Fora de Controle” e “A Lei e o Crime” (esta, um correspondente televisivo dos favela movie, alcançou significativo reconhecimento). Atualmente, desenvolve série sobre Martinho Lutero, iniciador da Reforma Protestante.

A paixão de Marcílio pela questão da “autoria no cinema e na TV” vem de longe. Durante muitos anos, ele presidiu a Associação Brasileira de Autores Roteiristas (Abra) e abraçou a defesa do autor-roteirista como uma das causas de sua vida. “Agora” – conta – “acabamos de criar uma nova entidade, a GEDAR, que cuida da gestão de Direitos Autorais dos autores-roteiristas, da qual sou presidente. Nosso objetivo é lutar pelo direito de remuneração por exibição das obras, junto com os diretores, que criaram a DBCA (Diretores Brasileiros de Cinema e do Audiovisual). Nosso objetivo é fazer uma pequena mudança na legislação para que possamos usufruir daquilo que os músicos já conseguiram: receber do exibidor, seja quem for, por cada exibição das nossas obras”.

Cinema policial

O romance que lhe deu origem, “O Crime da Gávea” filia-se ao gênero policial. Além de Simone Spoladore e Ricardo Duque, os protagonistas, o filme conta com Aline Fanju, Roberto Birindelli, Tessy Callado, Silvio Guindane e Celso Teddei no elenco.

A trama, que começa com o assassinato de uma jovem mulher e mãe em sua própria casa, se desenvolve no Rio de Janeiro, em locações que vão da Pedra da Gávea ao Jóquei Clube, passando pelo Parque da Cidade, por avenidas, bares, restaurantes e lugares emblemáticos do bairro da Gávea, na zona sul carioca. Busca-se, segundo o roteirista-autor, “um tom noir dentro da melhor tradição do cinema policial”.

“O Crime da Gávea” é, segundo Marcílio, “um filme de amor e mistério, com aguda visão crítica da sociedade brasileira e reflexões de caráter existencial”.

Paulo (Ricardo Duque), ao chegar em casa, encontra a mulher Fabiana (Aline Fanju) assassinada. A filha de três anos sobrevive e permanece próxima à mãe, sem ferimentos. Paralelo aos trabalhos da Polícia, Paulo, que se relaciona com a sensual Elisa (Spoladore), investiga o crime e acaba se perdendo no labirinto de suas próprias contradições. Viverá, assim, papéis bem contraditórios: de vítima, suspeito, detetive, juiz e carrasco.

O filme, que dura sintéticos 78 minutos, será lançado, pela distribuidora Elo Company. Em depoimento à Revista de CINEMA, o “autor-roteirista” explica por que “O Crime da Gávea” é um “Filme de Marcílio Moraes”:

AUTOR-ROTEIRISTA – O que parece estar em questão é a autoria do filme. A cultura cinematográfica parte do pressuposto de que o diretor é automaticamente o autor do filme. Mas isso nem sempre é verdade. Autor é aquele que concebe, que constrói a linguagem, que toma as decisões que vão dar o significado do filme, como um todo. No caso de “O Crime da Gávea”, terminadas as filmagens, meus sócios (Lúcia e Eduardo Quental) e eu assumimos a direção, ou seja, todas as decisões, até o corte final, que determinaram a cara e o sentido do filme. O tradicional genitivo de posse, “de fulano”, que indica a autoria, ficou comigo, porque, além da finalização, a história original é minha, bem como o roteiro e a produção. Esta circunstância, que fique bem claro, em nada diminui o trabalho ou a qualidade profissional do André Warwar, enquanto diretor. Ele certamente ainda vai dirigir muitos filmes em que a autoria lhe será atribuída. Esta particularidade do nosso filme é interessante, porque levanta a discussão, de extrema importância, a meu ver, da autoria no audiovisual. Analisemos o caso da autoria, no Brasil. O que deu mais certo no nosso audiovisual foi a dramaturgia de televisão, novelas e séries, tanto em termos de público, nacional e internacional, como de crítica, de faturamento e de prestígio. A que se deve isso, por que tanto sucesso? Por razão básica, no meu entendimento: a televisão brasileira teve a sabedoria de valorizar o autor-roteirista, antes de tudo. Por causa da aposta no escritor, nossa ficção televisiva adquiriu a consistência dramatúrgica necessária para conquistar o público. Já o cinema brasileiro não deu a devida importância ao roteiro e ao autor-roteirista.

A HEGEMONIA DO DIRETOR – “Uma câmara na mão e uma ideia na cabeça”, lema popularizado por Glauber Rocha, parece indicar que tudo acontece no set de filmagem. Que não há nada anterior ao grito “ação”. E não é verdade. Sem o fundamento de um texto escrito, profissional, não se faz um filme consistente. Quer dizer, o filme já tem uma primeira autoria estabelecida antes de qualquer imagem.

A frase da “ideia na cabeça” foi boa como palavra de ordem para um momento, ali pela década de 60, em que a precariedade dos recursos exigia muita improvisação nas filmagens. Mas é bastante problemática, porque omite ou mesmo nega o roteiro. Por exemplo, a maior parte das pessoas não sabe que, por trás de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” existe uma obra, na verdade duas obras literárias bastante consistentes, “Os Cangaceiros” e “Pedra Bonita”, do José Lins do Rego. Basta ler os dois romances e estaremos aptos a avaliar o quanto deles está presente no filme. No entanto, este fato, da maior relevância, foi omitido. Aí parece que tudo aquilo foi inventado ali na hora. E o que de fato aconteceu foi que o Glauber criou uma linguagem cinematográfica maravilhosa, original, em cima de um material literário pré-existente. Isso diminui a obra dele? Não, pelo contrário, engrandece.

LINGUAGEM DE TV? – “O Crime da Gávea” não tem linguagem de TV. Nem no romance, nem no roteiro – e menos ainda no filme – usei a linguagem de novela. Meu propósito foi exatamente o contrário e, neste sentido, um grande aprendizado. Aprendi muito. E dou um exemplo bem concreto: aprendi a usar o silêncio. Para mim, por tanto tempo submetido à tagarelice da televisão, foi muito gratificante explorar o potencial significativo do silêncio. Mesmo que eu reconheça que foi a linguagem da TV que conquistou o público brasileiro, eu sei que quando o filme se vale da linguagem das novelas, deixa de ser cinema. Ou pelo menos se torna um cinema raquítico. No Brasil, a presença massacrante das telenovelas tem influenciado o cinema e, às vezes, mais que isso, tem determinado a estética dos filmes. O resultado não é bom. “O Crime da Gávea” procura fugir dessa armadilha. Os filmes têm que conquistar o público enquanto cinema, não enquanto reflexo da televisão.

Por Maria do Rosário Caetano

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