Artigos Mercado — 10 março 2017
Olhar(es) sob os resultados do audiovisual brasileiro

Muito tem se debatido em artigos e posts acalorados na internet a respeito dos resultados recentes do audiovisual brasileiro anunciados pela Ancine e fortemente repercutidos pela imprensa nos últimos dois meses. Resultados fruto de uma política pública que se desenvolveu a partir do Ministério da Cultura e consolidou-se através de uma Ancine forte e atuante. Os resultados são inegáveis: 2016 foi recorde na produção de filmes que chegaram às telas de cinema (143), recorde de ingressos vendidos (30,4 milhões), aumento do market share da produção nacional (16,5%), recorde em número de salas de cinema no Brasil (3168). Além dos “recordes simbólicos”, como a ótima presença do cinema nacional em Berlin, com 12 produções presentes no festival, além do destaque de Aquarius em Cannes.

Porém, um ponto sempre colocado em cheque é que, apesar destes grandes números, o público das produções cinematográficas brasileiras ainda fica muito aquém do investimento e das políticas desenvolvidas. Só para ilustrar, dos 143 filmes brasileiros de 2016, apenas seis fizeram mais de 1 milhão de espectadores (4,2%). Não sejamos tão exigentes – se olharmos a faixa de público de 100 mil até 1 milhão, temos 16 filmes, representando 11,2% deste total.

Na base da pirâmide, observa-se que os filmes que obtiveram menos de 10 mil espectadores representam 66,4% do total da produção nacional (95 filmes). Nesta lista, temos filmes que fizeram 59, 47, 18 espectadores, ou seja, temos um problema aí.

Numa primeira e imediata análise, rapidamente aponta-se o dedo para a própria produção cinematográfica nacional, destacando a falta da qualidade do nosso cinema. Mas, numa lista de 95 filmes, não encontramos algumas boas e aclamadas obras? Sem dúvida que sim. São exemplos do mérito e relevância da base desta pirâmide obras como: Mate-me por Favor, premiado no Festival Internacional de Cinema de Veneza, alcançando 9.825 espectadores; Cinema Novo, premiado com o Olho de Ouro em Cannes, com 6.641 espectadores, e Trago Comigo, premiado no Guadalajara, com 3.023 bilhetes registrados.

Superada essa reflexão inicial, aprofunda-se o olhar para o famoso “gargalo da exibição”. Nos diversos debates recentes, em sua grande maioria, apontam que há um déficit de salas e de espaço nos circuitos para a produção nacional. Mas, ora, se hoje temos cota para o cinema brasileiro – que sem dúvida ainda precisa ser aprimorada e cumprida em sua plenitude – e recorde de salas em operação no Brasil, será que está aí a chave do problema? Ainda que ocuparmos ostensivamente as salas de todo o país com estes filmes, a presença do público não será proporcional à esta ocupação.

Aprofundando a questão, penso que o setor audiovisual deve superar o fetiche pela sala de cinema. A cada sucesso nacional (filmes com grande público), naturalmente, outras boas obras são sacrificadas, pois o exibidor – a ponta mais realista da cadeia – sempre irá privilegiar a bilheteria. Alguns dirão: e a formação de público? – sem dúvida há muito o que avançar, porém, mesmo no melhor dos cenários, a tela de cinema não será generosa à todos.

Nessa perspectiva, mais que atacar a exibição, creio que devemos nos debruçar nas estratégias de distribuição e pensar a sala de cinema como espetáculo, como ativação da obra cinematográfica; e não, necessariamente, como início e fim do ciclo. Se faz urgente sofisticarmos nosso pensamento e políticas de distribuição, incorporando cada vez mais as novas janelas como o Video on Demand e a TV a cabo, na perspectiva de fazer essa produção nacional ser vista e repercutida.

Por falar em repercussão, uma questão complementar e fundamental a esse debate é a crítica cinematográfica brasileira. Assim como nossas produções devem mirar as mais diversas janelas, nossa crítica audiovisual também deve valorizá-las.

A crítica especializada possui importante papel no sucesso e visibilidade das produções audiovisuais e, para tanto, deve considerar e analisar cada vez mais as produções que não caminham nos trilhos e nas telas mais tradicionais do cinema. Encarando esse caminho “alternativo” não como desprestígio ou irrelevância, mas sim como estratégia e mérito, fazendo com que nossas métricas de público comecem a ser repensadas à luz da realidade de um novo mercado audiovisual brasileiro.

 

Por Gabriel Portela Saliés, Coordenador de Novos Negócios da Spcine

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(2) Comente

  1. Parabéns Gabriel! Importante e amadurecida reflexão!
    Abraço,
    Lula Oliveira
    Salvador-Bahia

    • Grande Lula! Obrigado e seguimos em contato!

      Abs

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