Começa o É Tudo Verdade
“Eu, um Negro”, de Jean Rouch

Uma curadoria “de olho no lancê!”, diria o locutor esportivo Sílvio Luiz. Ao que Luis Fernando Veríssimo poderia acrescentar: “e feita por um devoto de Nossa Senhora do Contexto”. Pois é assim, “de olho no lancê!” e em sintonia com o contexto histórico, que o jornalista e crítico Amir Labaki realiza, há 22 anos, o Festival Internacional de Cinema Documentário É Tudo Verdade.

Nesta quarta-feira, 19 de abril, o festival promove sua abertura no Rio de Janeiro, território que viu nascer e expandir-se a Bossa Nova, apresentando filme (“Eu, meu Pai e os Cariocas – 70 Anos de Música no Brasil”) que deve causar frisson por causa da notoriedade de sua diretora, a atriz Lúcia Veríssimo, e por seu tema – o grupo musical Os Cariocas. O famoso quinteto vocal é rememorado por um de seus criadores, Severino Filho (1928 – 2016). Nunca é demais lembrar que o conjunto participou da seminal gravação de “Chega de Saudade”, em 1958, e de histórico show no badalado Au Bom Gourmet, junto com João Gilberto, Tom & Vinícius. Lúcia, vale frisar – e o título do filme deixa isto claro – é filha de Severino Filho. E sobrinha de Ismael Neto, outro fundador do grupo.

A abertura paulistana, nesta quinta-feira, 20 de abril, será internacional. O filme escolhido – “Cidade de Fantasmas”, do norte-americano Matthew Heineman, soma dois temas momentosos: o Estado Islâmico e um grupo de repórteres-ativistas, o RBSS (Raqqa Está Sendo Assassinada Silenciosamente). Os jornalistas registram, diariamente, em vídeos e fotos, as ações do EI, que fez da cidade de Raqqa, na Síria, sua “capital”.

Até 30 de abril, Rio e São Paulo assistirão a mais de uma centena de filmes oriundos de 30 países. Um quarto deste total é composto de produções brasileiras. No terreno das homenagens, haverá exibição de “Eu, um Negro”, para celebrar o centenário do grande mestre do cinema documental, o francês (apaixonado pela África) Jean Rouch (1917-2004). Haverá, também, poderosa retrospectiva do documentário soviético. Afinal, a produção não-ficcional do imenso país eurasiano que se chamou, por décadas, URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) conta com alguns dos mais importantes realizadores do mundo (caso de Dziga Vertov, Dovjenko, Pelechian e Sokurov). Se o gigantesco país ainda existisse, estaria festejando o centenário de seu marco fundador, a Revolução Bolchevique, comanda por Lênin, em 1917.

Os curadores desta mostra (Amir Labaki e o filho Luís Felipe, que fala russo e fez de Dziga Vertov o tema de seu mestrado) explicam que a retrospectivaintitulada “100: De Volta à URSS” pretende rever a produção não-ficcional na extinta União Soviética, “um dos continentes submersos” da história do documentário. “No centenário das revoluções de 1917 (a anti-czarista, de fevereiro. e a bolchevique, de outubro)” – situam – “nada mais oportuno do que propor ciclo especial para pesquisar tal produção”.

Amir e Luís Felipe se impuseram um desafio: selecionar obras fundamentais que fossem além dos clássicos mais conhecidos, como “A Queda da Dinastia Románov” (1927), de Esfir Chub, e “O Homem da Câmera” (1929), de Dziga Vertov” (este, eleito, recentemente pelo BFI, o melhor documentário do mundo).

A retrospectiva “100: De Volta à URSS” apresenta, em oito programas, doze documentários da era soviética, com cópias disponibilizadas pelo Austrian Fim Museum, Gosfilmofond, Net Film Moscou e Lenfilm. Vertov comparece em “Avante, Soviete!”, seu irmão Mikhail Kaufman com “Moscou” (parceria com Iliá Kopálin), Esfir Chub, com “O Grande Caminho”, Mikhail Kalatôzov, diretor do ficcional “Soy Cuba”, com “Sal para a Svanécia”, Roman Karmén e Mikhail Slútski, com “Um Dia do Novo Mundo”, Dovjenko, com “A Batalha por Nossa Ucrânia Soviética” (parceria com Iúlia Sôlntseva), Fridrikh Ermler (Diante do Julgamento da História), Pável Kogan (“Olhe Para o Rosto”), armênio Artavazd Peleshian, com “O Início”, Marina Babak (“Mais Luz!”), Marina Goldovskaya (“O Poder de Solovkí”) e Aleksándr Sokúrov, com “Elegia Soviética”.

Prêmio para Vizinhos

O Festival É Tudo Verdade sempre promoveu duas grandes competições – uma internacional e uma brasileira. Este ano, cria uma terceira: a de documentários latino-americanos.

Dois filmes – um mexicano (“No Exílio: Um Filme de Família”, de Juan Urrusti), sobre espanhóis acolhidos pelo México de Lázaro Cárdenas, e um argentino (“Perón, Meu Pai”, de Blas Eloy Martinez), que reprocessa entrevista que Perón concedeu ao escritor Tomás Eloy Martinez – vão disputar o prêmio de melhor filme internacional e o de melhor produção latina. A eles se somarão mais quatro documentários de países hispano-americanos: “Atentamente”, da colombiana Camila Rodríguez, “O Esquecimento (Im)Possível, do argentino Andrés Habegger, “Rito de Passagem”, da chilena Maite Alberti, e “Ruínas de seu Reino”, do mexicano Pablo Escoto.

A seleção da competição brasileira não traz, este ano, filmes de pegada épica como “Corumbiara”, de Vincent Carelli, ou panorâmico-totalizadora como “Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos”, de Marcelo Mazagão. Nem profundos mergulhos em nossa história com a grandeza de “Imagens do Estado Novo”, de Eduardo Escorel.

Como os aguardados dez filmes sobre os conturbados momentos políticos que estamos vivendo ainda não ficaram prontos, os temas da safra atual vão do autismo (“Em um Mundo Interior”) à trajetória de artistas (“Maria Martins – Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos”), passando pelo feminismo (“Mexeu com uma Mexeu com Todas”), pelo retrato do cientista político Hélio Jaguaribe (“Tudo é Irrelevante”) e chegando a uma tradutora gaúcha, de nome poético, que encantou o cineasta Jorge Furtado (“Quem é Primavera das Neves?”).

A seleção internacional traz temas mais momentosos que os brasileiros. Steve James, do festejado “Basquete Blues”, discute a crise financeira nos EUA, em 2008, a partir do banco Abacus, em “Pequeno o Bastante para Condenar”. Da Inglaterra chega “A Copa dos Trabalhadores”, que revela as condições de trabalho de africanos e asiáticos que constroem o cenário da Copa do Mundo de 2022 (em Doha, no Qatar). “Prisão em Doze Paisagens”, coprodução entre Canadá e EUA, mergulha no sistema carcerário norte-americano. Da Ucrânia, em parceria com outras ex-Repúblicas Soviéticas, chega “Relação Próxima”, de Vitaly Mansky (ele debaterá o cinema da Revolução Bolchevique aos tempos atuais). Este filme mostra a crise (marcada por tensas relações com a Rússia), que varre o país da “revolução laranja” desde 2013. Um longa documental austríaco conversa com a secretária do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbles.

O É Tudo Verdade promoverá, também, suas tradicionais competições de curtas internacionais e brasileiros. Entre a produção nacional de curta duração, o público tem mais um encontro marcado com o realizador Carlos Adriano e seus filmes experimentais. Desta vez, ele marca presença com “Festejo Muito Pessoal”, de 9 minutos, que tem como ponto de partida artigo escrito em 1977 pelo crítico e professor Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977). O artigo, publicado postumamente, tem o mesmo nome do filme. Para transformar tal fonte em novo ensaio poético, o cineasta trabalha “a reapropriação de arquivos, evocando não só trechos de filmes citados no texto de Paulo Emílio, como de outros evocados a partir de afinidades diversas”.

Homenagem

Um cineasta – Sérgio Muniz, de 80 anos – receberá homenagem e será tema de mostra retrospectiva de seus filmes. Ele, que integrou a Caravana Farkas e fez parte da equipe responsável pela era de ouro do Globo Repórter (1973-1979), terá oito documentários exibidos: o longa “Andiamo in’Merica” e sete curtas e médias-metragens (“Você Também Pode Dar um Presunto Legal”, “Rastejador”, “Beste”, “O Berimbau”, “A Cuíca”, “De Raízes e Rezas” e “Roda e Outras Histórias”). E debaterá sua obra com o público.

Na Conferência Internacional de Documentários, Muniz conversará com o cineasta Aurélio Michiles, que lança, este ano, o DVD de seu mais recente longa documental – “Tudo por Amor ao Cinema”, sobre o ex-curador da Cinemateca do MAM-Rio e agitador cultural amazonense-carioca Cosme Alves Netto (1937 – 1996).

Jean Rouch será tema de debate que reunirá dois especialistas em sua obra: Philippe Constantini e Mateus Araújo. Outra mesa deve constituir o momento mais esperado do núcleo reflexivo do Festival, pois reunirá o cineasta João Moreira Salles e o montador-cineasta (e crítico de cinema) Eduardo Escorel para debater “No Intenso Agora”. Este longa documental de Salles, participou do Festival de Berlim com recepção marcante. Labaki pretendia abrir a vigésima-segunda edição do É Tudo Verdade com “No Intenso Agora”, mas o realizador carioca preferiu vitrine mais discreta.

O seminário deste ano incluirá também reflexões sobre a presença feminina no cinema, a cargo do Coletivo Elviras (formado por críticas e pesquisadoras de cinema) e questões ligadas ao direito de autor cinematográfico (sob o comandado de Sylvio Back).

No próximo sábado, dia 22, às 16h00, encontro imperdível reunirá Vitaly Mansky e os dois curadores da mostra soviética, Amir e Luís Felipe Labaki. Em pauta, claro, a produção documental do grande país eurasiano.

Na terça-feira, 25 de abril, será lançado (na Reserva Cultural, 19h00) pela Abraccine, em parceria com o Festival e com a Paco Editoral, o livro “Bernardet 80: Impacto e Influência no Cinema Brasileiro”. O professor, crítico, ensaísta, escritor e cineasta franco-brasileiro participará do lançamento ao lado dos organizadores do livro, Ivonete Pinto e Orlando Margarido, e dos colaboradores da publicação.

O cartaz do festival, cujo material gráfico notabiliza-se, historicamente, pela beleza e importância do que mostra, traz fotograma do interior de locomotiva soviética que serviu a Denis Kaufman, ou seja, a Dziga Vertov, “o peão que roda sem cessar”, em suas andanças como cineasta, exibidor e agitador cultural da Revolução Bolchevique.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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