Mostra de Cinema Mexicano chega a São Paulo
Manhã Psicotrópica

A produção contemporânea é o foco da Mostra de Cinema Mexicano, que será aberta, nesta quinta-feira, 18 de maio, no Caixa Belas Artes, em São Paulo. A programação, que soma 17 filmes (14 longas e três curtas) a palestras, debates e um minicurso, prossegue até o dia 31 deste mês. Em julho, de 12 a 16, a mostra segue para a Caixa Cultural, em Curitiba.

As sessões inaugurais desta quinta-feira começam às 16h00, com exibição do documentário “H2Omx”, de Cohen & Hagerman, sobre a crise hídrica numa das maiores cidades do mundo, a capital mexicana, e do ficcional “As Lágrimas”, de Pablo Delgado (este, às 18h30). Depois da sessão, o realizador, que veio acompanhar a mostra, debaterá seu filme com o público do Cine Belas Artes.

Mateus Nagime selecionou 17 produções de gêneros que vão do drama social à animação, do documentário às produções enriquecidas por “forte viés de humor” (caso de “Manhã Psicotrópica” e “Te Prometo Anarquia”). E o fez, movido pela intenção de “exibir filmes premiados internacionalmente, mas que não chegaram ao circuito comercial brasileiro, nem à programação da Netflix”. Infelizmente, lembra o curador, “o intercâmbio do Brasil com a produção cinematográfica da América Latina está mais concentrado na Argentina. Com exceção de nomes como Alfonso Cuarón, Alejandro González Iñárritu e Guillermo del Toro, pouco se sabe, por aqui, sobre o cinema mexicano”. Vale lembrar que o trio Cuarón-Iñarritu-Del Toro, detentor de boa quantidade de estatuetas da Academia de Hollywood, transformou os EUA em sua base profissional.

O curador entende que, “por estar em um bloco intermediário, dividindo as duas Américas, o México mistura sua identidade cultural com influências que vêm dos EUA e da América do Sul, criando um cinema jovem, inspirado nas vivências de rua, e dotado de diretores supercriativos, sobretudo em início de carreira”.

Arturo Ripstein

Só um veterano, o cineasta Arturo Ripstein, 73 anos, foi escalado para a mostra. Dele, o público brasileiro conhece pelo menos “Vermelho Sangue” e “Ninguém Escreve ao Coronel”. Poderá, agora, conferir seu vigésimo-quinto longa-metragem, “As Razões do Coração” (2013), que será exibido neste sábado, 20, e na segunda-feira, dia 22.

Nagime justifica a opção pelo experiente e produtivo realizador, que em breve poderá ser visto como “ator”, no novo longa de Fernando Trueba, “A Rainha da Espanha”: “nossa ideia foi, desde o início, focar no cinema contemporâneo e é natural que tenhamos muitos jovens, em seus primeiros filmes. Mas Arturo Ripstein é um diretor que se reinventa e seu cinema é sempre muito atual. Escolhi-o por ser o meu favorito no recorte temporal. Acho que a presença dele gera um diálogo curioso – ao mesmo tempo que o cinema dele é bem diferente, tem muitos pontos em comum com a nova geração”.

“O grande fio condutor da mostra” – enfatiza o curador – “está na apresentação de personagens que sofrem certo deslocamento, que passam por alguma ruptura e buscam algo a mais”. Ele vê esta característica como denominador comum tanto dos documentários, quanto dos filmes ficcionais (dramas, romances etc.).

Entre os longas-metragens que mais repercutiram na nova safra mexicana, está “As Escolhidas”, de David Paulo, selecionado para o Festival de Cannes, em 2015, e premiado com vários troféus Ariel, pela Academia de Cinema do México. O filme, um dos representantes de seu país na disputa pelos Prêmios Platino, traz à tona o drama de adolescente arremessada de forma compulsória em sistema de prostituição e escravidão sexual. E o faz com linguagem que presta tributo ao cinema documental, com bons atores (todos desconhecidos do público brasileiro) e tratamento duro e seco.

Outro filme que teve boa e recente repercussão é “Te Prometo Anarquía”, de Júlio Hernández Condón. Depois de dirigir dois documentários, Júlio mergulhou na ficção e está concluindo seu sétimo longa-metragem. “Anarquía” mostra um casal homoafetivo, Miguel e Johnny, que passa seus dias andando de skate por regiões caóticas da capital mexicana. Eles se divertem, exercitam sua sexualidade e, sem grana, aceitam doar sangue para o mercado negro, sem imaginar as consequências deste ato.

Os filmes de outro diretor selecionado, Julián Hernández – observa o curador da Mostra – também “dão ênfase à juventude, à sexualidade e à temática homoafetiva (LGBT)”. Caso do curta “Nuvens Flutuantes” e de sua mais recente produção, “Eu Sou a Felicidade deste Mundo”. De Nicolas Pereda, que teve filmes exibidos em mostras brasileiras, foi escolhido “Verão de Golias” (de 2010). De Ricardo Silva, “Navalhada” (2014), de Rigoberto Perézcano, “Carmin Tropical” (também de 2014) e de Enrique Rivero, “Nunca Morrer” (2012). Da cineasta Dalia Reyes, será apresentado “Banho de Vida”, que mostra mulheres garis compartilhando ideias, dores e confissões em um banho público. Outro nome feminino da mostra é o de Isabel Acevedo, que dirige “O Bom Cristão”. Um curta-metragem, “Ramona”, traz a assinatura de Giovanna Zacarias.

Os documentários escolhidos para a Mostra de Cinema Mexicano Contemporâneo – explica Nagime – fogem do formato tradicional. Um deles – “H20mx”, de José Cohen e Lorenzo Hagerman – expõe a crise hídrica, preocupação permanente da população, em especial a mais pobre, das periferias da imensa capital mexicana (terceira – ou quarta – maior cidade do mundo). Outro destaque, diz o curador, recai sobre “A Navalhada”, filme de Ricardo Silva, premiado no Festival de Locarno, na Suíça, que trabalha na fronteira entre o documentário e a ficção.

A programação abre espaço também para animações, como “O Modelo de Pickman”, de Pablo Ángeles Zuman, e “Manhãs Psicotrópicas”, de Alejandro Aldrete.

O minicurso sobre o “Cinema Mexicano”, ministrado por Mateus Nagime, acontecerá nos dias 23 e 24 de maio, na Caixa Cultural, Praça da Sé, com entrada franca. O curador refletirá sobre questões históricas, estéticas e políticas do cinema azteca, apresentando cenas dos filmes selecionados. Interessados devem ligar para (11) 3321-4400 para garantir sua vaga, pois o Auditório da Caixa tem capacidade para apenas 50 pessoas.

Outro evento no campo reflexivo da Mostra Mexicana – o debate “O Cinema Mexicano Contemporâneo e suas Aproximações com a América Latina” – ocorrerá no dia 25 de maio, às 18h30, no Cine Belas Artes, e contará com participação dos pesquisadores Daniel Maggi, Marina da Costa Campos e Natalia Christofoletti Barrenha, mediados por Mateus Nagime.

O curador não nega que foi difícil conseguir material reflexivo sobre o novo cinema mexicano, pois “ele é pouco estudado”. Mesmo no México, “não encontramos muitos estudos e tivemos um tempo um pouco apertado para confeccionar o catálogo”. Frente a tal dificuldade – justifica – “preferimos focar nos ‘encontros presenciais’. O minicurso (só ministrado em São Paulo) será para justamente discutir e apresentar de forma crítica os filmes da Mostra e outros igualmente interessantes”. E finaliza: “os debates reúnem especialistas em cinema mexicano e latino, para discutir não só o cinema mexicano atual, mas como ele se insere em contexto maior”.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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