Trailers TV Revista de Cinema — 17 maio 2017
Um Casamento
© Optaciano de Oliveira Filho

Manchas negras na tela prateada. Frame após frame, as formas desconexas vão se transformando. Até que se vislumbra por alguns segundos um casal de noivos, eles sorriem enquanto cortam o bolo. Do filme de casamento de Maria Moniz e Ruy Simões, pais da diretora Mônica Simões, só restaram pequenos fragmentos. Filmado na década de 1950, os anos foram implacáveis com o rolo de 16 milímetros.

Esse mergulho no álbum de família originou o documentário “Um Casamento”, primeiro longa-metragem em 35 anos de carreira da videomaker, fotógrafa, documentarista e artista plástica, que chega aos cinemas em 18 de maio, com distribuição da Pandora Filmes e Spcine. O trabalho reconstrói a história de vida dos pais da diretora baiana, antes e depois daquele dia especial celebrado em 28 de julho de 1954. A narrativa é conduzida pelas lembranças da atriz e jornalista Maria Moniz, 82 anos, que revisita o passado através do vasto acervo de fotos e filmes familiares, sempre guiada pelas conversas francas com a filha.

Nascida em Salvador (BA) em 1935, Maria sempre se considerou “uma espécie de ovelha negra”. Filha única, aos 12 anos começou o namoro com Ruy Simões, 12 anos mais velho, sob os protestos da mãe. A rebeldia se manteve depois de casada, quando ingressou na escola de teatro contra a vontade do marido.

O filme, fugindo à regra, foi gravado na sequência do roteiro e todas as cenas rodadas uma única vez. Tudo isso no intuito de não interferir na espontaneidade da personagem e da diretora. Essa naturalidade é captada na tela. Como narrativa, os bastidores muitas vezes assumem o primeiro plano.

Mônica idealizou o filme há 15 anos, quando pesquisava para o documentário “Uma Cidade” (2000), que conta a história da vida privada de Salvador, por meio de filmes domésticos realizados entre 1920 e 1970.

Contemplado pela Fundação Cultural da Bahia via edital, “Um Casamento” foi rodado em Salvador em 2015. A locação, por si só, funciona como um personagem na narrativa. Chamado pela família de Boulevard, a casa esteve presente em todos os momentos da vida da protagonista: foi o local onde nasceu, cresceu e mora até hoje. Onde os três filhos foram criados e onde o casal morou até a separação.

Historiadora de formação, Mônica Simões sempre dedicou seu trabalho como diretora à etnografia – principalmente a situação do negro – por meio de documentários, como “Eu Sou Neguinha” (1988), “Quilombos Urbanos” (1994) e “Negros” (2009). Mas, em “Um Casamento”, obra autoetnográfica, o desafio foi relaxar o olhar crítico de pesquisadora e se deixar aberta à subjetividade.

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