Filmes do gênio alemão Murnau mobilizam grandes plateias no Olhar de Cinema
Aurora

Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba

Dos 21 longas-metragens dirigidos por F.W. Murnau (1888 -1931), na Alemanha e nos EUA, só 12 chegaram aos nossos dias. Pelo menos três são considerados obras-primas: “Aurora”, “A Última Gargalhada” (ou “O Último dos Homens”) e “Nosferatu”.

O Olhar de Cinema (VI Festival Internacional de Curitiba) resolveu apresentar ao seu público, em cópias novíssimas e de altíssima qualidade, dez dos doze filmes que restaram do mestre alemão (oito produzidos na República de Weimar e dois de sua fase norte-americana). Ficaram de fora, por razões técnicas  – “inexistência de cópia em DCP” ou “alto preço cobrado por estúdio dos EUA” – o germânico “O Campo Ardente” (“Der Brennende Acker”, 1922) e o estadunidense “O Pão nosso de Cada Dia” (“City Girl”, 1930).

Aaron Cutler, norte-americano radicado no Brasil há sete anos, curador da mostra Olhar Retrospectivo Murnau, vem apresentando, para salas cheias, cada um dos dez filmes programados. Além de lembrar a importância da Cinemateca Brasileira no restauro de “O Castelo Vogelöd” (1921) e da Cinemateca do Chile na recuperação de “Fantasma” (1922), ele vem destacando a importância do Instituto Murnau, incansável na busca de materiais que ajudaram a aproximar as obras restauradas de seus conceitos originais. E, também, da Cinemateca de Bolonha, com o essencial projeto “L’Immagine Ritrovata”.

O curador sempre chama atenção, em sua falas introdutórias, para aspectos estilísticos do genial mestre germânico. “Fantasma” – pontuou Cutler – “soma romantismo a alguns elementos do Expressionismo. E nos leva a finais felizes ou esperançosos, como em muitos filmes do diretor”. Em “Tabu”, que Murnau produziu com recursos próprios e codirigiu com Robert Flaherty, Cutler recomendou atenção especial à trilha sonora. Afinal, “o filme foi realizado como um projeto mudo, já na era sonora, mas colocou grande ênfase nas composições musicais”. No raro “O Castelo Vogelöd”, o curador reafirmou ideia recorrente: “os monstros de Murnau são diferentes dos monstros do Expressionismo Alemão, pois são internos. Neste filme, o monstruoso está no sentimento da Culpa”.

A carreira de Murnau no cinema foi muito curta. Durou apenas 11 anos. Ele começou tarde, aos 31 anos, e morreu, prematuramente, aos 42, uma semana antes da estreia de “Tabu”, que alcançou imenso sucesso comercial. Mas deixou obra tão inventiva e importante, que resgatar seus primeiros filmes tornou-se tarefa de muitos, mundo a fora. Mesmo assim, nove desapareceram totalmente. Inclusive um dos quatro longas-metragens de sua fase norte-americana, “Os Quatro Demônios” (1928, realizado um ano depois de “Aurora”). Havia esperança de que a Fox, “major” hollywoodiana que contratou Murnau depois do sucesso planetário de “A Última Gargalhada”, armazenasse negativos do filme. Aaron Cutler descarta esta possibilidade: “os negativos desapareceram num incêndio”. Nunca é demais lembrar que os filmes, nos anos 1920, eram impressos em suporte de nitrato, altamente inflamável.

Ver a obra completa de Murnau nos leva a um nome – o da escritora e roteirista Thea von Harbou (1888-1954) – que, historicamente, ligamos indelevelmente ao longevo Fritz Lang (1890-1976), outro gênio germânico. Que, como Murnau, também migrou para os EUA.

Thea, nascida numa aristocrática família prussiana, viveu a efervescência da República de Weimar e casou-se, em 1922, com Fritz Lang, tornando-se sua colaboradora mais próxima. Juntos, escreveram muitos roteiros (inclusive o de “Metrópolis”, baseado em livro dela). Em 1931, o cineasta separou-se da esposa-roteirista e foi viver em Paris e depois nos EUA. Ela filiou-se ao Partido Nazista e, com a derrota de Hitler, foi presa e submetida a trabalhos de reeducação. Pois a bela e ambiciosa Thea Von Harbou está nos créditos de pelo menos dois filmes de F.W. Murnau: “Fantasma” (1922) e “As Finanças do Grão Duque” (1924). Nada a ver, portanto, com a fase assumidamente nazista da escritora e roteirista germânica.

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