Documentário discute ocorrência de incêndios higienizadores em favelas paulistanas

Quem acompanhou a Mostra Sesc de Cinema Paulista, assistiu a documentário de grande impacto: “Limpam com Fogo”, realizado por trinca formada com Rafael Crespo, de 25 anos, Conrado Ferrato, 30, e César Vieira, 35. O filme mostra, em narrativa condensada em 85 minutos, tema de incômoda atualidade: os incêndios, que destroem favelas paulistanas, e suas relações com a especulação imobiliária. “Limpam com Fogo”, nome de evocação bíblico-higienista, dá a entender que, na maior cidade do país, acontecem incêndios no mínimo suspeitos. As chamas incendiárias pretendem limpar áreas em regiões importantes da metrópole, de forma que os pobres, com seus barracos de madeira ou papelão, sejam expulsos e substituídos por grandes construções destinadas a quem pode pagar.

A suspeita da trinca de jovens realizadores de “Limpam com Fogo” não é gratuita. Eles consumiram vários anos na produção do filme e consultaram as mais diversas fontes. Uma delas, a arquiteta e urbanista Ana Paula Bruno, formada pela FAU-USP, defendeu tese de doutorado sobre o assunto (“Os Incêndios em Favelas no Município de São Paulo”). Estudiosa de questões relativas à regularização fundiária, direito à cidade, políticas públicas e ocupações irregulares, Ana Paula constatou como “fator determinante” para a ocorrência de incêndios “a correlação entre favelas erguidas em terrenos valorizados e a qualidade construtiva delas”. Constatou, também, que “existe maior vigilância sobre comunidades tidas como ‘inaceitáveis’.

Para mostrar a complexidade do tema da moradia em São Paulo e buscar soluções possíveis, os três realizadores ouviram arquitetos, urbanistas, líderes comunitários, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) e políticos (os que quiseram falar, pois muitos se negaram a fazê-lo).

A Revista de CINEMA conversou com a compacta equipe de “Limpam com Fogo”.

Você são estudantes de Arquitetura e Urbanismo? Como chegaram ao tema da recorrência de incêndios higienizadores nas favelas paulistanas?

Nos causa espanto a frequência com que nos perguntam se somos da área de Arquitetura. Por um lado, ficamos felizes pois cremos ter feito um bom recolhimento de material no que diz respeito a urbanismo. Ao mesmo tempo, nos entristece o fato de poucos considerarem a hipótese do “Limpam com Fogo” ser um filme feito por três jornalistas. Para nós, é um sintoma que o campo de trabalho anda, em sua forma mais geral, comprometido com uma falta de profundidade endêmica nos temas tratados. O jornalismo no Brasil anda doente. Nós três nos conhecemos na faculdade de Jornalismo e esse é o nosso primeiro longa-metragem como diretores. O primeiro corte do filme “Limpam com Fogo” foi o nosso trabalho de conclusão de curso. Tivemos a presença de grandes jornalistas na nossa banca, como Caco Barcellos, que deram importantes insights para o projeto. Daí, então, começamos uma campanha no Catarse e levantamos recursos suficiente para continuar as gravações e finalizar o filme. Somos todos paulistanos e entusiastas de um espaço urbano mais democrático para a cidade.

Como lhes ocorreu o tema dos incêndios vistos, no filme, como possível mecanismo de “higienização social” de forma a liberar áreas valorizadas para a especulação imobiliária?

Nosso filme nasceu nas aulas de Videojornalismo do professor Marcos Cripa. Desde o começo, ele nos incentivou a ir para a rua buscar histórias. Pouco tempo depois da demolição do prédio da Favela do Moinho, em 2011, fomos lá fazer uma matéria para a disciplina dele e ouvimos as histórias dos sobreviventes. A partir daí, começamos a pesquisar sobre o assunto. Descobrimos o site Fogo no Barraco, que mapeava os incêndios, e vimos a correlação entre estes incêndios e a valorização dos terrenos. Indo mais a fundo na pesquisa, descobrimos a tese de doutorado de Ana Paula Bruno, que revela a correlação entre favelas em terrenos valorizados e a qualidade construtiva delas – fator determinante para a ocorrência de incêndios. Existe uma maior vigilância sobre comunidades inaceitáveis, o que garante que elas permaneçam em condições precárias e, assim, mais suscetíveis a incêndios e outras formas de despejo.

Como se deu a coleta dos depoimentos e das imagens que compõem o filme? Tudo é produção da trinca ou vocês contaram com materiais de acervo de emissoras de TV, por exemplo?

O material que compõe o filme é bem variado. A maior parte foi gravado com uma câmera semiprofissional, que era nossa. Começamos a gravar entrevistas em comunidades que já haviam sido atingidas por incêndios, e fizemos entrevistas com diversos pesquisadores da área. Mas as gravações levaram muito tempo, uma vez que é um trabalho que aconteceu em “dois tempos” – quando era TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e depois como filme. Ao longo desse tempo, constatamos que algumas comunidades já visitadas “pegam fogo” novamente. Essa é uma realidade para a maioria das pessoas que moram em favelas suscetíveis a incêndios: a repetição dos casos. O longo tempo de gravação acabou nos levando a, infelizmente, registrar essa repetição. Além disso, contamos com materiais gravados pelas comunidades e materiais retirados da internet, cedidos pelo Centro de Mídia Independente. A matéria da TVT (TV dos Trabalhadores) é fundamental, uma vez que eles foram o único veículo que cobriu a CPI dos Incêndios em Favela. Nós acompanhamos as sessões na Câmara dos Vereadores quando ainda estávamos fazendo pesquisa para nosso trabalho de faculdade. As matérias do Carlos Carlos são um testemunho do escárnio dos vereadores com o drama da população.

O filme tem um bom acabamento e lança mão de recursos “gráficos” que causam impacto. Quem os ajudou na finalização do filme?

A filmagem foi um processo que envolveu basicamente apenas nós três – por vezes dois ou até apenas um. O processo de pós-produção contou com o interesse de outros profissionais, que se dedicaram e agregaram muito ao filme. Tanto na montagem, quanto na animação e no desenho de som. A correção de cor e finalização foi realizada através de uma parceria com a Zumbi Post, que mostrou interesse e embarcou na ideia de fazer o filme acontecer.

Não há logotipos de empresas, nem de órgãos públicos nos créditos do documentário. Vocês filmaram (os três diretores aparecem em outras funções na ficha técnica) na cara e na coragem? Dá para quantificar o custo final de produção?

Em vista de como o projeto começou, é difícil falar do custo total da produção. Nós gastamos todo o dinheiro levantado no

Catarse (N.R – estavam habilitados a conseguir R$ 34 mil e conseguiram R$ 36 mil) na pós-produção do filme, e contamos com apoios pontuais ao longo do projeto. Mas as gravações foram feitas pelos três diretores – não havia equipe. Todos acumulamos duas ou até três funções para que conseguíssemos qualidade nos depoimentos, na imagem e no som. Cara e coragem é um jeito de descrever – a gente gosta de dizer que fizemos o filme com arco e flecha. Foi um desafio.

Como se deu a escolha dos principais depoimentos (Ermínia Maricato, Guilherme Boulos, Nabil Bonduki) e como se processou a relação com os políticos? Foi difícil acessar os parlamentares? Como vocês se apresentavam a eles?

A lista de depoimentos era maior na verdade. Não conseguimos falar com todos que queríamos. O Nabil Bonduki foi um dos nossos primeiros entrevistados, ainda quando fazíamos o TCC. Ele nos alertou sobre a tese da Ana Paula Bruno. O nome da Ermínia Maricato, assim como de outras pesquisadoras, surgiu da nossa investigação sobre o assunto, procurando quem já tinha abordado temas similares. As entrevistas com os políticos (com exceção do Nabil e do Fernando Haddad, que faziam parte da fase do TCC) foram gravadas após levantarmos o dinheiro no Catarse para transformar nosso projeto em filme. Nós sempre abordamos os políticos como Jornalistas formados pela PUC-SP, que estavam fazendo um documentário sobre incêndios em favela. As entrevistas, marcadas com semanas de antecedência, com notificação das assessorias, abordam exatamente as questões que apresentamos no filme. A atuação dos políticos perante nossas câmeras reflete o trabalho deles na comissão de inquérito na Câmara. O mérito pelo escárnio é todo deles. Alguns vereadores se recusaram a nos conceder entrevista. São os casos de Edir Sales e Souza Santos. Gilberto Kassab também não quis nos atender.

Vocês ganharam o prêmio de melhor longa-metragem da Mostra Sesc de Cinema Paulista. Que destino darão ao filme?

Junto com o prêmio de melhor filme na fase paulistana, o “Limpam com Fogo” foi classificado para concorrer uma vaga na Mostra Nacional de Cinema do Sesc, que deve ocorrer ao longo deste segundo semestre. Estamos concorrendo com os longas indicados pelas Mostras Sesc dos outros Estados da região Sudeste. Além disso, estamos vendo a possibilidade de incluir o filme em mais alguns festivais nacionais. Regularmente organizamos sessões gratuitas independentes em faculdades, ocupações, CEUs e circuitos periféricos. O filme também está disponível em uma plataforma on demand (https://vimeo.com/ondemand/limpamcomfogo).

 

Por Maria do Rosário Caetano

 

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(1) Reader Comment

  1. Ninguém aguenta mais especialistas elucubrando teorias sobre aquilo que pesquisam, mas não vivem ou pouco vivem. Se é chato no jornalismo, imaginem no cinema. Pobre do documentário que serve como trampolim de militâncias que pouco tem a ver com a vida de quem está na rua todo dia.

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