Cine Ceará: triunfo argentino e cubano
Os premiados no Cine Ceará © Arlindo Barreto

Por Maria do Rosário Caetano, de Fortaleza

Os principais prêmios da vigésima-sétima edição do Cine Ceará, entregues na noite da última sexta-feira, 11 de agosto, foram destinados a três filmes protagonizados por personagens homossexuais. O argentino “Ninguém Está Olhando”, de Julia Solomonoff, foi escolhido como o melhor filme pelo júri oficial e pela Crítica. Guillermo Pfening, que interpreta um famoso (e homossexual) ator argentino em busca de novos desafios profissionais, em Nova York, ganhou o Troféu Mucuripe de melhor interpretação masculina.

O cubano “Últimos Dias em Havana” conquistou os prêmios de melhor direção (Fernando Pérez), fotografia (Raúl Pérez Ureta) e o Troféu Olhar Universitário (atribuído por estudantes de Cinema). O filme fala da dilacerada amizade entre Diego e Miguel, dois habitantes de um cortiço em Centro Habana, bairro pobre da capital cubana. Diego, que é homossexual, vive seus dias finais consumido pela Aids, mas não perde o humor ferino. Já Miguel, que aguarda visto para imigrar para os EUA, é silencioso, amargo e assexuado.

Outro filme cubano, “Santa e Andrés”, de Carlos Lechuga, recebeu dois prêmios importantes: melhor atriz, para Lola Amores, e roteiro (do próprio Lechuga). O filme, assim como “Morango e Chocolate” (Alea & Tabío, 1995) e “Últimos Dias em Havana”, aproxima duas personagens de naturezas opostas, um escritor homossexual que deseja imigrar, e uma camponesa, comissária do povo, cuja missão é vigiá-lo.

Um quarto filme – o chileno “Uma Mulher Fantástica”, de Sebastián Lélio –, protagonizado pela transexual Daniela Vega e premiado em Berlim com o Urso de Prata de melhor roteiro e com o Teddy (destinado ao melhor filme de temática homoafetiva), recebeu dois troféus técnicos: melhor trilha sonora (Matthew Herbert) e melhor som (Isaac Moreno). Ao brasileiro “Malasartes e o Duelo Contra a Morte” coube o Mucuripe de melhor direção de arte para Tulé Peake.

A hegemonia hispano-americana na competição foi acachapante. Só dois dos sete concorrentes não foram premiados pelo júri, o dominicano “El Hombre que Cuida”, e o brasileiro “Pedro sob a Cama”.

“Último Dias em Havana” foi, sem dúvida, o filme mais criativo e complexo entre os apresentados pelo festival cearense. Seu diretor, Fernando Pérez, discípulo de Tomás Gutierrez Alea, é o maior cineasta vivo de Cuba. O júri teria feito a coisa certa se atribuísse à ficção cubana, que mantém diálogo permanente com o documentário, o prêmio principal. E a seus dois protagonistas (Jorge Martínez, o Diego, e Patricio Wood, o Miguel) o troféu Mucuripe de melhor ator.

A opção dos jurados pelo argentino “Ninguém Está Olhando” não é absurda. O filme de Julia Solomonoff sustenta-se em roteiro sólido e em um protagonista construído com muitas nuances. Guillermo Pfening, que conhecemos de “Nacido y Criado”, de Pablo Trapero, e “O Médico Alemão”, de Lucia Puenzo, entrega-se com paixão ao papel do ator famoso na TV argentina, que vai tentar a sorte em Nova York e passa a enfrentar todo tipo de dificuldade (dezenas de testes, “bicos” profissionais e pequenos furtos em lojas).

Se o júri de longa-metragem não fez a coisa integralmente certa, o júri de curta deu um show. Escolheu, entre os 14 concorrentes, quatro filmes inquietos e inventivos, sem dúvida, os melhores exibidos pelo Cine Ceará. O vencedor foi o filmensaio “Festejo Muito Especial”, do paulistano Carlos Adriano, que homenageia o centenário de Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977). E o faz com fragmentos de filmes que ele amava (em especial os de Jean Vigo), imagens de arquivo (o encontro entre Emilio com o italiano Ungaretti) e ritmo musical arrasador.

A melhor direção coube aos cariocas Estevão Meneguzzo e André Félix, por “Valentina”. O filme, uma ficção que tem muito de documental, mostra o amor de uma jovem conservadora do Cinema do MAM pelo cinema brasileiro. Em especial, por “Eternamente Pagu”, por sua diretora (Norma Bengell) e por sua atriz (Carla Camuratti). O filme abre espaço, ainda, para Flávio Migliaccio procurar os negativos de seu primeiro longa como diretor, “Os Mendigos” (1962). O curta conquistou, ainda, o Troféu Samburá, atribuído por júri formado pelo jornal “O Povo”.

O Mucuripe de melhor roteiro coube ao cearense Felipe Camilo, por “Memórias do Subsolo ou o Homem que Cavou Até Encontrar uma Redoma”. O jovem Camilo reconstrói, com fotos domésticas, sua trajetória político-afetiva, de 1984, quando nasceu, passando pelas eleições de 1989, até desaguar  nas desilusões de nossos dias. Cumpre o que promete com narrativa em primeira pessoa de grande beleza, sem nenhum narcisismo. E olhe que o filme é pura subjetividade. O realizador assina também o roteiro, a montagem, a fotografia (com sua coprodutora Fernanda Brasileiro) e “protagoniza” o filme, que ganhou, ainda, o cobiçado Prêmio Canal Brasil (troféu, R$15 mil e exibição na emissora).

“Caleidoscópio”, de Natal Portela, único representante do interior do Ceará na competição (a cidade de Tianguá), conquistou o Mucuripe de melhor filme cearense. Com imagens sensoriais da vida numa pequena cidade, abastecida por açude (que serve também de espaço de lazer) o filme demonstra imenso amor pela gente simples do lugar e pela paisagem que o ambienta. Já o Júri Abraccine (Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos) escolheu como melhor curta-metragem a animação mineira “Vênus – Filó, a Fadinha Lésbica”, de Sávio Leite, que inspirou-se em texto erótico de Hilda Hilst.

Aplausos para o Cocó

A festa de premiação do Cine Ceará foi prestigiada pelo governador Camilo Santana, que prometeu investimentos de R$ 60 milhões, em parceria com a Ancine, no setor audiovisual cearense. “Além de apoio à produção de filmes de curta e longa-metragem” – avisou – “serão construídas vinte salas de exibição em cidades do interior”. Até o final de seu mandato, o governador garantiu “investimento de 1,5% do orçamento estadual em Cultura”. Depois de elogiar “conquistas do Estado do Ceará na área educacional”, ele partiu para a questão do Meio-Ambiente. Sob aplausos, prometeu revitalizar o Parque do Cocó, a mais mobilizadora paixão dos cearenses que compareceram, ao longo de sete dias, ao Cine São Luiz. Tema de concurso de filmes curtíssimos, o Parque do Cocó esperou 40 anos até ser regularizado. Agora, vai ganhar programa de manejo e equipamentos que pretendem torná-lo mais convidativo e agregador.

O filme que venceu a Competição Parque do Cocó,  promovido pela Secretaria do Meio-Ambiente, em parceria com a Oi Futuro, foi  ”O que é o Parque do Cocó?”, de Marília Alencar. Seguindo as trilhas abertas por Jorge Furtado em seu curta mais famoso (“Ilha das Flores”, 1989), Marília dá respostas divertidíssimas a indagações sobre temas, os mais diversos (a história do Parque, a luta por sua preservação, a ambição imobiliária, a trilha que corta o imenso parque). Vale lembrar que o Cocó tem área de mais de 1.500 hectares (é cinco vezes maior que o Central Park de NY, e sete vezes maior que o Ibirapuera paulistano). Por ter vencido a competição (os filmetes tinham que ser feitos com celulares), Marília ganhou prêmio no valor de R$ 3 mil (da Oi) e kit completo da Secretaria do Meio Ambiente. A plateia riu muito e aplaudiu calorosamente a reexibição de “O que é o Parque Cocó?”.

A noite dos troféus Mucuripe contou com homenagem ao cinema chileno, representado pelo embaixador Jayme Gasmuri, e com a exibição especial de um dos momentos mais luminosos do cinema documental contemporâneo, “O Botão de Pérola”, de Patricio Guzmán, premiado dois anos atrás em Berlim. O que se viu na tela do São Luiz foram imagens sensoriais, históricas e políticas que podem garantir ao realizador chileno (radicado na França) mais uma vaga na lista de 50 melhores documentários de todos os tempos do BFI (Instituto Britânico de Cinema). Guzmán já ocupa dois postos com o monumental “A Batalha do Chile” e “Nostalgia da Luz”.

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