“Arábia” conquista o Troféu Candango
Premiados do festival © Júnior Aragão

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

“Arábia”, longa-metragem dirigido pelos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans, venceu o Festival de Brasília, por escolha do júri oficial e da crítica. O público preferiu o afeto que se encerra em “Café com Canela”, dos baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio.

O longa mineiro acompanha as andanças e labutas do operário Cristiano por empregos diversificados. Seguimos seus passos, ao longa de dez anos, e o vemos perambulando por lavoura de cítricos ou fábricas de cidades como Contagem, Ipatinga, Teófilo Otoni e uma Ouro Preto anti-cartão postal. O protagonista Aristides de Sousa, o Juninho, ganhou o Candango de melhor ator. Foram premiadas, também, a montagem e a trilha sonora de “Arábia”, um filme humanista, delicado e pontuado por humor sutil.

O júri oficial dividiu os principais troféus entre mais três filmes: “Era uma Vez Brasília”, do ceilandense Adirley Queirós (direção, fotografia e som), “Café com Canela” (atriz e roteiro) e “Vazante” (atriz coadjuvante e direção de arte). Mais dois concorrentes foram lembrados de forma secundária: o terror paraibano “O Nó do Diabo” (ator coadjuvante) e o gaúcho “Música para Quando as Luzes se Apagam” (prêmio especial para “ator social”, o transexual Emelyn Fischer).

O júri não atribuiu nenhum prêmio ao carioca “Pendular”, de Júlia Murat, nem ao pernambucano “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, nem ao paranaense “Construindo Pontes”, de Heloísa Passos. Este só foi reconhecido, pelo ótimo uso de imagens de arquivo, por júri do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.

Na área do curta-metragem, que contou com júri próprio, os prêmios dividiram-se também com harmonia. O vencedor, o paranaense “Tentei”, assim como “Arábia”, ambienta-se em meio à classe trabalhadora. Uma operária da periferia procura, tomada por profunda angústia, Delegacia da Mulher para denunciar violência doméstica.

A violência é também tema de “Chico”, curta ambientado em  favela carioca, num futuro próximo (2029). Lei de Ressocialização Preventiva permite o encarceramento de crianças. A guerra no morro trará desespero à casa onde o menino Chico vive com a mãe, uma ex-presidiária, e a avó. O filme, realizado pelos gêmeos Eduardo e Marcos Carvalho, rendeu a eles o Candango de melhor direção, som e o Prêmio Canal Brasil. No palco, Eduardo agradeceu “os R$15 mil e o troféu oferecidos pela emissora”, lembrando que seus atores não são conhecidos (a mãe e o menino atuam no grupo teatral Nós do Morro, no Vidigal, e a avó é professora em escola de periferia). “Agora, ao verem o filme exibido no Canal Brasil” – pontuou, emocionado – “nossos atores se sentirão valorizados como artistas e como cidadãos”.

“Mamata”, comédia anárquica baiana, foi outro curta que recebeu prêmios importantes, como o de melhor ator (o também diretor do filme, Marcus Curvelo), montagem e prêmio da crítica. O diretor-ator repetiu no palco gracejos semelhantes aos colhidos na internet para constituir o tecido narrativo de sua “Mamata”.

Não havia filme arrebatador entre os doze curtas, nem entre os nove longas concorrentes. Daí, a serena divisão de troféus Candango. Na categoria longa-metragem, quatro foram destinados a “Arábia”, três a “Era uma Vez Brasília”, dois para “Café com Canela” e  dois para “Vazante”.

O júri mostrou sintonia fina com os temas que fizeram ferver (muitas vezes de forma excessiva e extra-filme) os debates de curtas e longas da competição. O assunto que mais incendiou debates e gerou intervenções virulentas foi a representação dos negros.

O filme “Vazante”, de Daniela Thomas, que se passa no Brasil escravagista, foi massacrado. Houve quem o desqualificasse como “um Sinhá Moça global”. Ou seja, uma “versão lenta” do folhetim apresentado em duas versões pela Rede Globo, no qual uma sinhazinha branca se apaixona por um galã abolicionista. Só não ocorreu ao autor de tal comparação que, no filme de Daniela Thomas, a sinhazinha branca, de apenas 12 anos, é feita esposa de um senhor e comerciante de escravos, e que se relacionará não com um príncipe encantando ariano, mas sim com um jovem negro.

Daniela Thomas, aturdida e nocauteada pelo agressivo debate, não conseguiu se defender. Chegou, sob fogo cerrado, a admitir que, se pudesse, não faria de novo um filme como “Vazante”. Uma voz no auditório chegou a sugerir que ela nem lançasse o longa-metragem no circuito comercial.

Outros temas polêmicos ligados a gênero (novas sexualidades) e etnias tiveram destaque nos debates. O recifense Marcelo Pedroso, por sua vez, colocou nitroglicerina na fogueira ao abrir generoso espaço (em “Por Trás Linha de Escudos”) para o repressivo Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. Ficou sob tiroteio verbal (quase) tão intenso quanto o que nocauteou Daniela Thomas. Mas, mesmo abalado, o cineasta conseguiu defender seu filme com argumentos escandidos com perturbadora calma. Regressou ao Recife, sem nenhum prêmio.

As causas sociais e de gênero calaram fundo nas decisões nos diversos júris das competições do festival. Todos os atores premiados – a baiana Valdineia Soriano e a mineira Jai Barbosa, o mineiro Aristides de Sousa e o pernambucano Alexandre Sena – são negros ou mestiços. O “ator social” (antes os chamávamos de não-atores) Emelyn Fischer, adolescente transexual gaúcho, ganhou prêmio especial do júri.

Na hora dos agradecimentos pelo Candango de “melhor filme” atribuído a “Arábia”, o cineasta mineiro (de Contagem) Affonso Uchoa, branco (como o codiretor ouro-pretano João Dumans) mandou, sutilmente, um recado aos polemistas dos debates matinais, em especial, àqueles que desautorizaram cineastas de classe média branca a realizarem filmes sobre pretos, pobres e periféricos. Clamou, sem alterar o tom da voz, pelo direito à alteridade. Ou seja, à capacidade humana de se colocar, por identificação, no lugar do outro. Alteridade é a marca de “Arábia” e de dois filmes que tiveram profunda ressonância no cinema brasileiro contemporâneo: “Serras da Desordem”, do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci, e “Martírio”, do franco-brasileiro Vincent Carelli.

A Mostra Brasília, que apresentou 13 curtas e quatro longas, teve a plateia mais ruidosa da cansativa noite dos Candangos e Troféus Câmara Legislativa do DF (foram entregues mais de 50 prêmios). Nem a habilidade da dupla de mestres-de-cerimônia, formada pelos atores Mariana Nunes e Caco Ciocler, conseguiu dar dinamismo ao suceder de prêmios, tamanha era a lista de nomes enunciados, sem que fossem registrados graficamente (como faz o Festival de Gramado) no telão.

O júri oficial da competição candanga premiou um longa documental, o simpático, mas redundante, “talking heads” de Denilson Félix, “O Fantástico Patinho Feio”. Tema vibrante (quatro mecânicos amadores que transformaram sucata em potente carro de corridas) recebeu tratamento convencional.

Já o público, consagrou a “ongueira”, mas instigante, ficção juvenil “Menina de Barro” (e sua protagonista, a adolescente Rafaela Machado, foi escolhida pelo júri oficial como melhor atriz). Na categoria curta-metragem, o público ungiu outra obra infanto-juvenil, “O Menino Leão e a Menina Coruja”, de Renan Montenegro.

O júri oficial dividiu o prêmio principal (categoria curta-metragem) entre o documentário “Tekohá – Som da Terra”, de Rodrigo Arareju e Valdelice Veron, e o ficcional “UrSortudo”, de Januário Jr., um potiguar radicado no Paranoá, uma das cidades-satélites que gravitam em torno do Plano Piloto. O realizador lembrou sua origem periférica e defendeu, com veemência, a continuação dos Editais Afirmativos da SAv-MinC (destinados a realizadores negros e indígenas). “Meu filme” – lembrou – “só tornou-se realidade, porque fomos premiados por este único edital realizado no Governo Dilma Roussef”. Que, ao que tudo indica, será (já foi) descontinuado.

Veja a lista dos premiados:

LONGA-METRAGEM

“Arábia” (MG) – melhor filme, ator (Aristides de Sousa), montagem (Luís Pretti e Rodrigo Lima), trilha sonora (Francisco César e Christopher Mack), Prêmio da Crítica

“Era uma Vez Brasília” (DF) – Melhor direção (Adirley Queirós), fotografia (Joana Pimentel) e som (Francisco Craesmeyer, Guile Martins, Daniel Turini e Fernando Henna)

“Café com Canela” (BA) – Melhor atriz (Valdinéia Soriano), roteiro (Ary Rosa), melhor filme pelo Juri Popular

“Vazante” (SP) – melhor atriz coadjuvante (Jai Batista), direção de arte (Vady Lopes)

“O Nó do Diabo” (PB) – melhor ator coadjuvante (Alexandre Sena)

“Música Para Quando as Luzes se Apagam” (RS) – Prêmio Especial para “ator social” (Emelyn Fischer)

“Construindo Pontes” (PR) – Prêmio Marco Antonio Guimarães de melhor uso de imagens de arquivo (atribuído pelo CPCB – Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro)

CURTA-METRAGEM NACIONAL

“Tentei” (PR) – melhor filme, atriz (Patrícia Savary), fotografia (Renata Corrêa)

“Chico” (RJ) – melhor direção (Irmãos Carvalho), som (Gustavo Andrade), Prêmio Canal Brasil

“Mamata” (BA) – melhor ator (Marcus Curvelo), montagem (Amanda Devulsky e Marcus Curvelo), Prêmio da Crítica

“Peripatético” (SP) – melhor roteiro (Ananda Radhika), Prêmio Especial do Júri

“Carneiro de Ouro” (DF) – melhor filme pelo júri popular

“Torre” (SP) – melhor direção de arte (Pedro Franz e Rafael Coutinho)

“Nada” (MG) – melhor trilha sonora (Marlon Trindade)

MOSTRA BRASILIA/CÂMARA DISTRITAL  (CURTAS E LONGAS)

“O Fantástico Patinho Feio” – melhor longa-metragem

“UrSortudo” – melhor curta (ex aqueo), ator (Elder de Paula), roteiro (Januário Jr)

“Tekohá – Som da Terra” – melhor curta (ex aqueo), som (Maurício Fontenelli)

“Menina de Barro” – melhor atriz (Rafaela Machado), melhor longa pelo júri popular

“Carneiro de Ouro” – melhor direção (Dácia Ipiabina)

“Afronte” – melhor montagem (Lucas Araque), Prêmio Saruê do Correio Braziliense

“O Menino Leão e a Menina Coruja” – melhor direção de arte (Bianca Novais, Flora Egécia e Pato Sardá), melhor curta pelo Júri Popular

“A Margem do Universo” – melhor fotografia (Gustavo Serrate)

“O Vídeo de Seis Faces” – melhor trilha sonora (Ramiro Galas)

FESTUNIBRASILIA (FESTIVAL UNIVERSITÁRIO)

“O Arco do Medo”, de Juan Rodrigues (UFRB – Recôncavo da Bahia) – melhor filme

“Fervendo”, de Camila Gregório (UFRB – Recôncavo da Bahia) – melhor direção

“O Homem que Não Cabia em Brasília”, de Gustavo Menezes (UnB) – melhor curta pelo júri popular

Menções honrosas para “Afronte” (construção criativa), “Serenata” (fotografia) e “Mira” (filme de animação)

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