Fest Brasília – 7ª noite: memórias do pai e por trás dos escudos da tropa de choque
Equipe de "Por Trás da Linha de Escudos" © Humberto Araújo

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

Mais três filmes foram apresentados ao público do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: o longa documental pernambucano “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, o curta paulistano “Torre”, de Nádia Mangolini, e “Baunilha”, do pernambucano Leo Tabosa. O mais aplaudido pelo público, demorada e calorosamente, foi a animação “Torre”, que revê, por fragmentos de memória de quatro filhos, a trágica história do guerrilheiro urbano Virgílio Gomes da Silva (1933-1969).

Houve divisão nos aplausos para as duas produções pernambucanas. Parte do público, que abarrotou a sessão, não vaiou, mas também não aplaudiu estes filmes. Outra parte festejou os documentários, bastante diferentes em suas propostas. O curta “Baunilha” dá voz a Brenno Furrier, dono de espaço onde se praticam consentidas formas de sexo representadas pela sigla BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).

“Por Trás da Linha de Escudos” é o mais novo trabalho de Marcelo Pedroso, 38 anos, diretor de “KFZ-1348″ (com Gabriel Mascaro), “Pacific” e de “Brasil S/A”, longa que lhe rendeu, três anos atrás, vários prêmios no Festival de Brasília (inclusive o de melhor diretor). O cineasta resolveu acompanhar a vida cotidiana de policiais militares, que se colocam atrás de escudos em confrontos sociais. Afinal, compõem o Batalhão de Choque da PM de Pernambuco. São o braço armado do Estado na repressão a manifestantes em passeatas ou ocupações de terras urbanas e rurais, rebeliões em presídios e casas de “atendimento sócio-educativo” a menores (chamadas Funase, em Pernambuco), e também em estádios de futebol.

O filme de Pedroso começa com raro vigor. O primeiro embate dos escudos se dá contra o movimento “Ocupe Estelita”, foco de resistência ao avanço da especulação imobiliária no Recife. O Choque combateu com violência e por dez horas o grupo de defesa de área vital da cidade do Recife, que daria lugar a gigantescas torres residenciais, ajudando a transformar o centro da já conturbada capital nordestina em megalópole higienizada, com menos área verde e  trânsito sobrecarregado.

A Tropa de Choque chegou ao combate contra o Ocupe Estelita com seus soldados municiados de poderoso arsenal repressivo. Um dos policiais conta ao cineasta que cada militar leva cem dispositivos (gás paralisante, gás de pimenta, balas, bombas etc.) para a “batalha” e que, muitas vezes, eles são insuficientes, a ponto de exigirem reforço. Manifestantes desarmados são submetidos a significativa quantidade de bombas de gás lacrimogêneo e até a granadas de feito dispersivo.

Pedroso, que dá voz aos que são protegidos pelos imensos escudos, oferece também voz, neste primeiro momento, a um único manifestante, um dos mais atingidos pelo gás lacrimogêneo. Muito articulado, o rapaz descreve o que sentiu sob três intensos jatos do gás. Com os olhos e nariz desprotegidos, pensou que ficara cego e que não conseguiria respirar.

A palavra e as imagens voltarão, em seguida e definitavemente, aos integrantes da força armada. O comandante do Choque discorrerá sobre a natureza do trabalho de seus subordinados e afirmará que há três tipos de manifestantes: os ideológicos, que acreditam ter uma causa a defender, os que seguem a multidão (efeito manada) e os “baderneiros”. Segundo a curiosa análise do militar, quando “o Choque chega ao local da manifestação, os primeiros vão embora, pois têm reivindicações a defender”. Os sem noção também partem logo. Restam “os baderneiros”.

O filme não problematiza esta análise exdrúxula. Mesmo assim, a narrativa segue vigorosa e potente. Estamos seguros, decorrida meia hora de filme, que Marcelo Pedroso seguirá os passos do teórico e documentarista francês Jean-Louis Comolli em seu texto mais famoso: “Como Filmar o Inimigo”. E que inscreverá “Por Trás da Linha de Escudos” em segmento raro do cinema brasileiro, aquele que enfrenta ao menos um dos três temas tabus, tão bem explicitados por Jean-Claude Bernardet em suas reflexões (as Forças Armadas, o Poder Financeiro e o Poder Midiático).

Na sequência mais visual e potente do filme, nos deparamos com a votação e manifestações ocorridas no dia do impeachment de Dilma Roussef. Os manifestantes que usam “verde-amarelo” (os ditos coxinhas) abraçam e fazem “selfies” com soldados do Choque preferencialmente em frente a imensos tanques. Já os “vermelhos” (ou mortadelas) levam porrada. Um jovem mostra sua indignação com a brutalidade do Choque enquanto o sangue escorre de seu rosto para a camiseta.

Na segunda metade do filme, não veremos mais o vigor inicial. Pedroso e sua equipe se aproximarão cada vez mais dos “Choqueanos”, assistirão (o cineasta portando colete preto onde se lê POLICIA) a  brutal ação de desmonte de rebelião juvenil (numa unidade da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo, na verdade uma prisão que não ousa dizer seu nome) e, o que é mais questionável, passa a fazer “treinamentos” reais ou teatrais (dramatizados) com os soldados. Estas sequências do filme, além de tediosas e pobres em termos de imagens e sons, se submetem a premissa das mais questionáveis. Os militares do Choque garantem que também são vítimas de bombas (caseiras?), de gás lacrimogêneo e de pedras arremessadas pelos manifestantes (não há, no filme, nenhum registro das brutais ações militares de reintegração de posse de áreas ocupadas pelo MST ou pelo MSTS, as duas forças sociais mais organizadas do país, a primeira em defesa dos Sem-Terra e a segunda, dos Sem-Teto).

A entrada de Pedroso e sua equipe nos “treinamentos militares” acontecerá depois de um “Choqueano” afirmar que, no palco do confronto, o Batalhão tem autonomia para decidir se deve lançar mão de armas mais pesadas em revide aos ataques sofridos. A ausência de enfrentamento (por parte da equipe cinematográfica) a seus personagens fardados  nos leva a concluir que Pedroso acredita que há duas forças igualmente armadas em confronto. Os corpos dos manifestantes, com suas pedras, bombas caseiras ou com uma ou outra capsula de gás lacrimogêneo arremessada de volta, ganham o mesmo valor do poderoso e sofisticado arsenal bélico-militar, a que fôramos apresentados no começo do filme. Arsenal abundante e de alto custo financeiro (muitas vezes somos informados dos valores pagos por tais “armas de persuasão” ou morte).

Saímos do cinema conhecendo os “Choqueanos”, que jogam peteca, amam a profissão, cumprem a lei (sem questionar que, muitas vezes, exercem o mesmo papel dos capitães do mato que caçavam escravos) etc. E, em momento “Brasil cordial” (povoado por aqueles que se guiam pelo coração, pelos afetos), vemos o jovem que foi vítima de três jatos de gás lacrimogêneo e sentiu a angústia da cegueira e asfixia temporários, ministrar exercícios de ioga para soldados do Choque. Mais cristão, e ingênuo, impossível. Afinal, exercícios de ioga conseguirão mudar uma das poderosas estruturas do Estado, seu braço armado, voltado para – como lembraram as jovens cineasta Jéssica Queiroz e Bea Gerolin – o extermínio, em especial, das populações negras e pobres de nossas grandes periferias urbanas?

Comolli e Bernardet decerto ficarão muito desapontados com “Por Trás da Linha de Escudos”, este que é o quarto longa-metragem de Pedroso. O debate do filme foi palco de questionamentos duros vindos de dezenas de jornalistas, críticos e profissionais de cinema. E o pernambucano só não foi tomado pela perplexidade (como aconteceu com Daniela Thomas, de “Vazante”), porque, praticante de ioga há dois anos, manteve a posição de lótus, desenvolveu longos discursos defensivos e se autoquestionou, dizendo que também trazia dúvidas sobre os efeitos de alguns dos dispositivos adotados ao compor “Linha dos Escudos”.

Filhos de Virgílio

Já o curta de estreia de Nádia Mangolini, “Torre”, recebeu no debate elogios calorosos (como os aplausos no Cine Brasília). Mesmo quem acompanhou, quase 20 anos atrás, a polêmica em torno do personagem Jonas, interpretado por Matheus Nachtergaele, em ” O que É isso, Companheiro?” (recriação de Virgílio no filme de Bruno Barreto), leu o livro de Helena Salém e os brilhantes artigos de Franklin Martins e Elio Gaspari, recebeu novas informações e emoções vindas da telona do Cine Brasília.

Com ótimo roteiro de Gustavo Vinagre e brilhante animação (com técnicas e coloridos vários) da equipe mobilizada pela jovem Nádia, o filme nos traz dolorosas lembranças dos quatro filhos do guerrilheiro morto de forma brutal, depois do sequestro do embaixador do EUA Charles Elbrick (setembro de 1969). Trata-se, há que se registrar, de um documentário-animação, como “Dossiê Rê Bordosa”, de César Cabral.

O momento mais comovente da narrativa se dá quando um dos filhos conta que, com o pai desaparecido e a mãe presa, eles, pequenos, se viram no total desamparo e com uma bebezinha de quatro meses para alimentar. Iam, então, para a rua, “roubar garrafa de leite” que pudesse alimentar a criança. Assim fizerem até serem entregues ao Juizado de Menores e, depois, à avó. O filme deve figurar na lista dos premiados com o Troféu Candango por suas muitas qualidades, ousadias e beleza pictórica. No ano do Centenário da Animação Brasileira, só ele (e trechos de “Peripatético”, de Jéssica Queiroz) lança mão de desenhos em sua potente narrativa.

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