Fest Brasília – Favela carioca, Ceilândia sideral e Sussuapara piauiense ocupam a tela do Cine Brasília
Equipe de "Era uma Vez Brasília"

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

Trágica sincronicidade. Enquanto soldados do exército tomavam a favela da Rocinha, no Rio, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibia, em sua mostra competitiva, o curta “Chico”, dos jovens Marcos e Eduardo Carvalho, potente narrativa sobre a violência que atormenta a vida da população civil dos morros cariocas.

Os irmãos Carvalho, que são gêmeos, estudaram Cinema na PUC-Rio, com bolsas de estudo. Moradores do Morro do Salgueiro, conhecem em profundidade a realidade que abordam em “Chico”. Por isto, em densos e vibrantes 23 minutos, constroem sólida narrativa, que se passa em futuro próximo (2029). “Treze anos depois do golpe de Estado no Brasil” – registram em sinopse sintética – “crianças negras e pobres são marcadas com tornozeleira e rastreadas por pressupor-se que irão, cedo ou tarde, entrar para o crime”. Chico (o expressivo Fabrício Assis) é uma destas crianças. No dia do aniversário dele, depois de apagar as velinhas de singelo bolo preparado pela avó (Lúcia Talabi), algo de trágico acontecerá, para desespero de sua mãe (Jeckie Brown, uma força da natureza). No mesmo dia, o Parlamento aprova Lei de Ressocialização Preventiva, criada para autorizar a prisão de menores. O final, arrebatador, tem força buñuelina.

Diretores sintonizados com seu tempo e com a vida negra nas favelas cariocas, a dupla realizou dois filmes em 2015 – “Boa Noite, Charles” e “Alegoria da Terra”. Com “Chico”, fortíssimo candidato ao Troféu Candango, eles conquistaram a prestigiosa Margarida de Prata, troféu humanista atribuído anualmente pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

O Cine Brasília recebeu, na mesma noite de sexta-feira, 23 de setembro, sua maior lotação. Havia espectadores ocupando, inclusive, rampas de trânsito e todos os degraus. A razão de tamanha procura era, claro, o novo filme do cineasta goiano-ceilandense Adirley Queirós (“Era Uma Vez Brasília”), e o novo curta da realizadora e professora da UnB, Dácia Ibiapina (“Carneiro de Ouro”).

Adirley já ganhou o Candango de melhor curta com o vigoroso “Rap, o Canto da Ceilândia”, em 2005, e de melhor longa com “Branco Sai, Preto Fica”, em 2014. Em sua trajetória, que já soma quase uma dezena de títulos, ele vem apostando na hibridização, somando documentário e ficção (agora mais que nunca, a ficção científica).

O cineasta, que se orgulha de ser ceilandense, já havia dialogado com o gênero futurista em “A Cidade é Uma Só?” e, principalmente, em “Branco Sai, Preto Fica”. Agora, radicalizou.  Em “Era Uma Vez Brasília”, pratica o que chamou de “documentário fabular”. Sua narrativa mistura metaforicamente temporalidades. Em 1959, quando Brasília nascia na terra vermelha do cerrado, um agente intergaláctico (WA4) é preso por fazer loteamento ilegal. No espaço sideral, receberá a missão de vir à Terra para matar o presidente JK, justo no dia da inauguração de Brasília. Sua nave espacial se perderá no tempo e só aterrissará no Planalto Central (na Ceilândia) em 2016, ano do golpe parlamentar que derrubou um governo eleito e entronizou governante que fala por mesóclises.

O filme, por sua relação com a ficção científica, com o documentário e com a política, deixou parte do público perplexa. Os aplausos não foram consagradores como acontecera, três anos atrás, com “Branco Sai, Preto Fica”. No debate, Adirley deixou claro que “o filme não é a favor da presidente deposta, mas visceralmente contra Temer e outros monstros que habitam o Congresso Nacional”. Deixou claro, também, que o filme foi gravado no Ano O P.G. (ou seja, ano zero pós-golpe).

Houve quem imaginasse um filme de orçamento robusto, devido ao poder de invenção de sua direção de arte sideral. Adirley esclarceu, no debate, que o filme foi feito ao longo de três anos, com R$ 350 mil, e finalizado com parceria lusitana. A diretora de fotografia (que soma-se a três outras mulheres nesta função, entre os nove concorrentes do festival) Joana Pimentel é portuguesa e teve papel fundamental no resultado de “Era Uma Vez Brasília”. Assim como Denise Vieira (um dos esteios do coletivo Ceiperiferia), que assina surpreendentes direção de arte e figurino. À frente do elenco, estão Wellington Abreu, Marquim do Tropa (alma de “Branco Sai, Preto Fica”), Andreia Vieira e Franklin Ferreira, todos ceilandenses e companheiros de vida-arte-cinema-e-rap da maior satélite do DF.

Adirley já prepara seu quarto longa-metragem, “Mato Seco em Chamas” e, pela primeira vez, dividirá a direção com uma mulher, justo a fotógrafa lusitana Joana Pimentel. E, também pela primeira vez, dará protagonismo absoluto a personagens femininas (lembremos que o cineasta, ex-jogador, já mergulhou no mundo do rap e dos bailes black, dominado por homens, no futebol e em greve operária idem). “Será uma doideira alucinada” – brincou – “pois ‘Mato Seco em Chamas’ vai contar a história de cinco mulheres que descobrem petróleo na área da Ceilândia”.

O curta da piauiense-brasiliense Dácia Ibiapina se passa em Sussuapara, no município de Picos, no Estado nordestino. Lá, vive Dedé Rodrigues, um praticante do chamado “cinema de bordas”. Ou seja, um fã de filmes de ação e efeitos especiais hollywoodianos, que, ao tentar imitar os gringos (evoquemos Paulo Emilio e “nossa incompetência criativa de copiar”), acaba gerando filmes ingênuos e divertidos, como “Cangaceiros Fora do Tempo 1, 2 e 3″ e “O Sanfoneiro que Tocou no Inferno”.

Dácia interessou-se pelo conterrâneo, por ver no cinema dele “uma profunda e orgânica relação com o sertão piauiense” e não uma mera imitação do cinema hegemônico.

O “cinema de bordas” é tema de série de TV em processo de produção, comanda pela baiana Sylvia Abreu, da Truq (mesma produtora de “Eu me Lembro” e “Abaixo a Gravidade”). Em Brasília, durante o festival, a série colhe farto material.

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