Mostra destaca o papel do som no cinema
"Cantando na Chuva" (1952)

Para destacar o papel fundamental do som no cinema, a mostra Som: a história que não vemos apresenta, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, de 13 de setembro a 2 de outubro, uma seleção de longa-metragens que marcaram a história da utilização do som, desde o primeiro filme com áudio sincronizado à imagem – O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927) – até produções recentes do cinema nacional, como O Som ao Redor (2012). Logo depois, de 4 a 23 de outubro, a mostra será apresentada no CCBB São Paulo.

A mostra é dedicada a discutir e valorizar o uso do som, seja narrativamente, artisticamente ou criativamente; sublinhando sua função essencial no cinema contemporâneo, com sistemas surrounds e tecnologias que expandem cada vez mais seus limites. Serão realizados dois debates com o curador Bernardo Adeodato – no dia 20 de setembro, às 19h, com a participação dos cineastas Eduardo Nunes e Marília Rocha; e, no dia 28, às 19h, com os designers de som Paulo Ricardo e Ricardo Cutz.

A mostra promove também matinês nos fins de semana, às 11h, com filmes para todas as idades: a animação da Disney Fantasia (1940), o primeiro filme feito em surround, nos dias 16 e 23 de setembro; e Wall-E (2008), de Andrew Stanton, nos dias 17 de setembro e 1º de outubro. Entre as sessões especias, está também a de Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, no dia 27 de setembro, às 18h, com tradução de libras e audiodescrição.

Tudo começa em 1927, com o filme O Cantor de Jazz (The Jazz Singer). A chegada do som afetaria o trabalho dos atores (que agora teriam que usar suas vozes) e o modo de produção das obras – um período muito bem descrito no clássico musical (gênero, aliás, criado diretamente pelo advento do som no cinema) Cantando na Chuva (Singing in the Rain, 1952). Em pouco tempo, cineastas começaram a experimentar com o som, não só no que concerne os diálogos, mas também brincando com associações variadas com a imagem, como são os casos de M – O Vampiro de Düsseldorf (1931), do genial Fritz Lang, onde um assovio nos relaciona com o assassino antes mesmo de vermos seu rosto, e do ainda mais radical Entusiasmo (Enthusiasm, 1930), primeiro filme sonoro de Dziga Vertov.

Com o passar dos anos, o cinema continuou a experimentar com a faixa sonora do filmes, seja com ruídos ou música. O que seria das piadas de Jaques Tati em Playtime (1967), da construção contra pontual do som e o uso do silêncio em Persona (1966), de Ingmar Bergman, ou da construção de tensão em filmes, como Era uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West, 1968), de Sergio Leone, e 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey, 1968), de Stanley Kubrick. No meio de toda essa mudança e evolução de linguagem, um estilo viria a se associar ao som numa parceria que traria grandes avanços para o cinema. Em 1928, Walt Disney fez sua primeira animação com som, o curta Steamboat Willie, onde ruídos e música são essências para o desenvolvimento da história, seu ritmo e principalmente na criação de seu mundo fantástico. Em 1940, a Disney lança Fantasia (1940), uma animação construída a partir da música, pioneiro na tecnologia de reprodução multicanal, o primeiro filme feito em surround – infelizmente essa tecnologia era muito cara na época para que pudesse ser democratizada nas salas de exibição.

Com tempo, o som tosco e ruidoso que era exibido em mono cedeu seu lugar para os sistemas surrounds de ultra potência e qualidade. Cada vez maior é o uso de efeitos, ambiências e de outros recursos sonoros para que realidades sejam reproduzidas e até mundos que nunca existiram sejam criados com autenticidade. Na década de 70, dois filmes foram cruciais para o impulso estético e tecnológico e, principalmente, para a criação de conceito que amplia o papel do som e seu valor para contar uma história: Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars Episode IV: A New Hope, 1977), de George Lucas, e Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola. É nestes filmes, impulsionados pelo trabalho de Ben Burtt no primeiro e de Walter Murch no segundo, que surge o profissional responsável por criar a concepção de som de uma obra do início ao fim do processo, o “sound designer” ou designer de som. Acompanhando esse movimento, vemos o surgimento de diretores que dão grande importância ao som para criar e compor um mundo imaginário ou de sonho, onde questões filosóficas e psicológicas são destacadas como em Eraserhead (1977), de David Lynch, e Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky.

Nas últimas décadas, o som vem sendo cada vez mais explorado e ganhando importância na construção do cinema, a qualidade do som de um filme passou a ser valorizada no cinema de arte e de entretenimento. No brasileiro O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, o som fala do cotidiano, torna-se personagem e cenário da história, expandindo a tela de cinema (como os muros e grades de nossas casas), ajudando o espectador a se localizar espacialmente e narrativamente. O avanço da tecnologia permanece em curso. Vemos hoje a chegada do sistema Dolby Atmos, onde um número ilimitado de canais de áudio nos envolvem, fazendo com que o espectador pare dentro da tela, vivendo uma experiência única e fantástica como em Gravidade (Gravity, 2013), de Alfonso Cuáron.

A programação completa da mostra pode ser conferida no site www.bb.com.br/cultura.

 

Mostra Som: a História que Não Vemos
Data:
13 de setembro a 2 de outubro (CCBB RJ) e 4 a 23 de outubro (CCBB SP)
Locais: CCBB RJ – Rua Primeiro de Março 66, Centro – (21) 3808-2020 / CCBB SP – Rua Álvares Penteado, 112, Centro – (11) 3113-3651
Ingressos: R$ 10 e R$ 5 (meia)

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