Os bastidores da premiação do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro

A festa de entrega dos troféus Grande Otelo aos melhores do cinema brasileiro, ano passado, foi marcada pela vulgaridade. Um comando formado por comediantes apelou para termos chulos, constrangedores. Este ano, a Academia Brasileira de Cinema entregou a concepção da cerimônia a Bia Lessa, diretora cênica das mais experientes. Ela partiu do “oito ao oitenta”. Nenhuma vulgaridade. No polo oposto, recorreu ao que o cinema gerou de reflexão mais sofisticada. E tome Deleuze, Rancière, Virilio. Só que tal opção, sem tempo para ser amadurecida como espetáculo cênico, resultou em uma das cerimônias de premiação mais cansativas (e confusas) já transmitidas pelo Canal Brasil.

Quando o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro estava em seu nascedouro, Bia Lessa comandou, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, festa maravilhosa, plena de cores, alegria e agilidade.

Desta vez, ela, que é tão visual em seus trabalhos, resolveu despejar enormes letreiros (e legendas) na telinha do Canal Brasil. Os premiados transformaram-se em mero acessório. Ninguém tinha tempo para absorver uma reflexão de Delleuze ou Rancière ou Virilio, pois o “show” tinha que continuar.

Os olhos do espectador sonhavam com imagens que enchessem a telinha. Refiro-me aos que aguentaram os ultra-monótonos 20 minutos iniciais, compostos com letreiros imensos e entrega em bloco de confusos prêmios para curtas de ficção, documentário e animação, depois, figurino, maquiagem e efeito visual. Os discursos de agradecimento seguiam monótonos e despolitizados, com citação de nomes de alcance doméstico-profissional.

Exceção para Helena Ignez, brilhante em seu agradecimento (ela foi homenageada junto com o prolixo conterrâneo Antônio Pitanga). A atriz temperou a linha histórica de sua trajetória cinematográfica com poderosa (e bem articulada) pegada feminista.

Com dois baianos no palco (Helena e Pitanga), a trilha sonora da festa conheceu seu único momento de vibração estimuladora: sons de berimbau se multiplicaram numa empolgante (e imaginária) “roda de capoeira”.

A música brasileira, uma de nossas maiores riquezas, teve presença modesta na festa da Academia. Destaque para voz de Adriana Calcanhoto, que musicou atrevida resposta do saudoso Joaquim Pedro de Andrade a revista que quis saber por que ele fazia cinema.

Houve alguns, raríssimos, agradecimentos dignos de menção: Roberto Berliner (de “Buscando Helena” e “Nise”) foi sintético e preciso ao defender a adoção de crianças (tema de seu curta). Márcio Fracarolli, da Paris Filmes, deu informações necessárias em seu discurso em defesa do cinema infanto-juvenil.

Flávio Bauraqui só não foi brilhante, porque a emoção o transtornou. A inteligente Andrea Horta, que derrotou Sonia Braga, se perdeu em discurso confuso. Halder Gomes, ô macho!, que poderia animar a noite com sua irreverência, fez agradecimento desprovido do humor costumeiro.

Quando a entrega de troféus era retomada (abrindo brecha entre os capítulos da “aula da professora Bia”) e um premiado subia (sozinho, às vezes em grupo) ao palco, quem acompanhava a festa pela TV só via vulto(s). Parece que não havia uma única câmera capaz de captar um plano aproximado (close, então, nem pensar). De casa, quem resistia, continuava sem ver o rosto e as reações dos laureados. A emoção de Bauraqui só foi captada por seu discurso oral, já que seu rosto e corpo não ganharam registro visível (só longínqua panorâmica do gigantesco palco do Teatro Municipal).

Janelas Abertas

Por sorte, o Canal Brasil colocou na roda trechos de um de seus melhores programas deste ano, o “Janelas Abertas”. Aí, sim, tínhamos realizadores inteligentes e articulados, falando – em tela cheia – de criação e paixão cinematográficas. O mesmo acontecia com parte dos depoimentos emprestados por “Um Filme de Cinema”, de Walter Carvalho, ou fragmentos de “ A Linguagem do Cinema”, de Geraldo Sarno.

Os letreiros (Bia Lessa não queria deixar nada de fora, a aula tinha que ser completa e extenuante) voltavam a reinar. Os “obscuros” (vítimas da penumbra) premiados continuavam cada vez mais em segundo plano, soterrados por letreiros gigantes.

Já que os letreiros constituíam a alma da festa, deveria haver mais cuidado. O roteirista Lusa Silvestre foi, num certo momento, creditado como Luísa Silvestre.

Saudades e girassol

O momento “homenagem aos que se foram” resultou, como sempre, emocionante. O dever de casa foi executado com cuidado e boas fotos. Só me ocorreu um esquecimento grave: o do montador, produtor e diretor carioca-baiano-brasiliense Márcio Curi. Para que não pensem que ele é um “olvidável”, cito três de seus feitos: montou “Meteorango Kid, o Herói Intergalático”, produziu “Loucos por Cinema” (ambos de André Luiz Oliveira) e dirigiu dois longas-metragens (“A TV que Virou Estrela de Cinema”, com Yanko del Pino, e “A Última Estação”, coprodução Brasil-Líbano). Márcio Curi e o amigo Manfredo Caldas, que foi lembrado, morreram, numa mesma semana, em Brasília.

Bia Lessa teve um rompante digno de nota: entregar girassóis aos premiados. No meio do negrume do palco e da roupa escura dos dois anunciadores dos prêmios (Zelito Viana e Bárbara Paz) – e, não nos esqueçamos, do festival de letras que se multiplicavam –, era reconfortante ver ao menos a manchinha amarela desta exuberante flor. Só que os girassóis acabaram escondendo ainda mais o Troféu Grande Otelo (que Ziraldo recriou em proporções reduzidas, impedindo que ele se impunha aos olhos dos telespectadores).

A Academia precisa criar uma frente de trabalho para valorizar seu prêmio, que, em 2018, chegará à sua edição número 18. O primeiro esforço deve mirar data mais adequada (abril ou maio). O segundo: proibir a divisão de prêmios em uma mesma categoria (há que se evitar a “brodagem”, para tanto, basta estabelecer critério de desempate).

Terceiro: deve criar comissão interna para definir os pré-candidatos ao Troféu Grande Otelo de melhor filme estrangeiro (entendendo “estrangeiro” como sinônimo de filmes vindos dos cinco continentes e não apenas do mundo anglo-saxão).

Quarto: somar a mentes criativas, como a de Bia Lessa, profissionais de TV. Gente qualificada e ciente de que, em casa, o telespectador só não mudará de canal se a ele for oferecido espetáculo sedutor e estimulante.

Longe de mim sugerir que se copie a cerimônia do Oscar. Mas, convenhamos, com a Academia de Hollywood, a mais poderosa do mundo, há que se aprender. Principalmente, em itens em que ela é eficiente. Ninguém começa uma cerimônia de premiação com letreiro interminável, nem com entrega de prêmios a categorias pouco conhecidas do público. O que faz o Oscar, que ano que vem chegará a seu nonagenário? Entrega estatuetas aos melhores atores coadjuvantes (feminino e masculino).

Quinto e último: que as chatíssimas homenagens a instituições (não as homenagens aos artistas) sejam feitas antes, registradas pelas câmeras e editadas. Uma síntese da homenagem vai ao ar. O espectador, para prestigiar a festa, deve ser, antes de tudo, prestigiado.

Ou a festa da Academia brasileira continuará tendo como alvo principal apenas os convidados que estão dentro do Teatro Municipal? Por que, então, transmitir a cerimônia pela TV durante três longas horas?

Segue a lista dos premiados:

Aquarius – melhor filme, diretor, trilha sonora (três no total)

Elis – melhor atriz (Andréa Horta), fotografia (dividido), montagem, direção de arte, figurino, maquiagem, trilha sonora original, som (oito no total)

Boi Neón – melhor ator (Juliano Cazarré), roteiro original, fotografia (dividido), júri popular (4 no total)

Nise, o Coração da Loucura – melhor coadjuvante (Flávio Bauraqui)

De Onde Eu te Vejo – melhor atriz coadjuvante (Laura Cardoso)

BR716 – melhor roteiro original (dividido)

Pequeno Segredo – melhor efeito visual

Cinema Novo – melhor documentário (dividido) e melhor montagem.

Menino 23 – melhor documentário (dividido) e júri popular

O Shaolin do Sertão – melhor comédia

Minha Mãe é uma Peça 2 – melhor roteiro adaptado (dividido com “Big Jato”)

Carrossel 2 – menção honora (filme infanto-juvenil)

Buscando Helena – melhor curta documentário

O Melhor Som do Mundo – melhor curta ficção

Vida de Boneco – melhor animação

A Chegada – melhor longa estrangeiro

 

Por Maria do Rosário Caetano

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