O cinema dos oprimidos de Camilo Cavalcanti

O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante, de 38 anos, finalmente, está no corte final de seu primeiro longa, “A História da Eternidade”, que costura três histórias de amor no sertão remoto. A obra coroa a maioridade cinematográfica do realizador, exatos 18 anos de cinema, se tornando um curta-metragista reconhecido e premiado, autor de obras como “Rapsódia para um Homem Comum” (2005), “O Presidente dos Estados Unidos” (2007) e “O Velho, o Mar e o Lago” (2000). Seus 12 curtas acumularam mais de 120 prêmios em festivais. Seu cinema é construído a partir de crônicas humanas, que valorizam os tipos oprimidos, expressando suas dores a partir de um universo simbólico, narrativas tipicamente barrocas, como, aliás, é o seu homônimo curta-metragem “A História da Eternidade”, que foi lançado em 2003.

Nesta entrevista, Camilo revela alguns detalhes da construção do filme, como manteve o seu estilo de filmar (um estilo difícil de explicar), em que a linguagem tem um componente muito forte na maneira como relata suas histórias. E como escolheu o elenco para contar a história de três mulheres. As filmagens foram realizadas no sertão pernambucano, na localidade de Santa Sé (a 60 km de Petrolina) e na Bahia, em Juazeiro. O roteiro foi premiado pelo edital de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura e teve um orçamento de R$ 2 milhões, do qual Camilo diz se orgulhar por ter filmado num processo de “envolvimento e grande comunhão com as pessoas das comunidades onde filmamos”.

Irandhir Santos e Debora Ingrid em cena de “A História da Eternidade”. © Nicolas Hallet

Revista de CINEMA – Além do mesmo título, quais são as afinidades entre o curta e longa-metragem “A História da Eternidade”?
Camilo Cavalcante – O parentesco entre os dois é muito mais sinestésico, além do mesmo cenário, o sertão. Em relação à dramaturgia, são bem diferentes. No longa, são três histórias de amor, numa pequena, minúscula comunidade sertaneja (localidade de Santa Fé, que não é identificada no filme). Lá, tem um cemitério enorme, uma igreja antiga e somente três casas. Apesar disto, o lugar tem uma importância histórica para o sertão, mesmo esvaziada de pessoas. Para o filme, construímos mais três casas (cenográficas), além de uma pracinha, onde a comunidade assiste a uma TV coletiva.

Revista de CINEMA – O fato de ser um lugar tão isolado é fator decisivo para a história que queria contar?
Camilo Cavalcante – Não tanto o isolamento, mas a falta de lapidação da sociedade, sem os vícios da sociedade de consumo, permitindo uma relação especial de tempo e espaço. Trabalhamos com tempo estendido. Tratamos de histórias de amor muito brutas, que até poderiam acontecer em qualquer grande cidade, mas não desse jeito.

Revista de CINEMA – É uma maneira de achatar os tempos? Em que época se passa?
Camilo Cavalcante – É um tempo próprio, tenho dificuldade de localizá-lo, flerta, de alguma maneira, com o realismo fantástico, mas não é isto, é real, é palpável. Porque, entenda, lá é um lugar que não pega celular, que não tem internet e a única forma de comunicação com o mundo externo é um telefone público. É um mundo arcaico. É tempo de hoje, mas também reflete o passado.

Revista de CINEMA – Como se dão estas três histórias de amor?
Camilo Cavalcante – Duas delas já existiam, a terceira se agregou depois. Sou contrário ao número ímpar, gosto de número par, mas ela chegou (a inspiração) e o filme ficou assim. Basicamente, o amor e o desejo de três mulheres. Uma delas adolescente (Débora Ingrid, escolhida a partir de testes em várias cidade nordestinas), uma outra na faixa dos 40 anos (Marcélia Cartaxo) e ainda uma sexagenária (Zezita Matos).

Camilo Cavalcante dirige as atrizes Zezita Matos e Marcélia Cartaxo, e aposta na densidade dramática e nas cores de Caravaggio. © Nicolas Hallet

Revista de CINEMA – Como as histórias são apresentadas, em paralelo? Em capítulos?
Camilo Cavalcante – As histórias se entrelaçam, simultaneamente. Mais eu separei em três capítulos: Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu (“pé”, no sentido de árvore, como o nordestino costuma usar).

Revista de CINEMA – E os homens do elenco?
Camilo Cavalcante – Tem Léo França, um músico baiano, que vive um sanfoneiro cego. Tem ainda Irandhir Santos, que interpreta um artista sertanejo que sofre de epilepsia. E já Cláudio Jaborandy encara uma espécie de contraponto do Irandhir, um homem pragmático, que é mais apegado ao mundo concreto.

Revista de CINEMA – O artista vivido por Irandhir Santos seria o seu alterego na história?
Camilo Cavalcante – Tenho vários alteregos. Eu sou ele, sou o Jaborandy. Sou a velha… Esta é uma história na qual estive trabalhando por 12 anos, que passou por dois laboratórios, foi evoluindo. No final das contas, depois de tanto tempo, você acaba se transformando nesta história, que os atores dão carne e osso, e a história começa a estar viva de verdade.

Revista de CINEMA – Em falar nisso, verdade e fantasia acabaram sendo um assunto recorrente nesta conversa…
Camilo Cavalcante – É, porque este é um filme que levanta mitologias sertanejas. Não trabalho fatos reais, mas, digamos assim, mitologias reais. Um simbólico muito forte do nordeste, do sertão.

Revista de CINEMA – Que referências outras se agregam ao seu filme?
Camilo Cavalcante – O filme é musical. Não no sentido ortodoxo do musical, mas a música aparece com uma função dramática muito importante. Uso temas de Dominguinhos, compostos originalmente para o filme. Tem também composições originais do maestro polonês Zbigniew Brzezinski (que compôs para a Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieslowski), que dão uma certa melancolia do Leste Europeu… E têm canções dos anos 1970, Banda Pholhas, Secos & Molhados…

Revista de CINEMA – Já pensou se estas canções não surgiram de uma ação, mesmo inconsciente, de localizar o filme em algum lugar no passado?
Camilo Cavalcante – Não, não. Aliás, estas canções estão em momentos-chave do filme. Eu e Beto Martins (fotógrafo do filme) fizemos um estudo de cor para criar um sertão caravaggiano, basicamente com planos fixos. Aí, quando há um movimento de câmera bem desenhado, é justamente ao som de “Fala” (música do Secos & Molhados), num momento sinestésico do personagem de Irandhir Santos. É uma situação fundamental dentro da dramaturgia do filme. Tem um ar operístico… Uma ópera terceiro-mundista… E universal!

Antes de encerrar esta conversa queria somente citar um poeta pernambucano, Erickson Luna (1958-2007), que me inspirou com uma coisa que quero usar no filme, mais ou menos assim: “O amor é inefável, intraduzível, inexorável”. Porque o filme é isto, fala de amor, de desejo, como se fosse uma esperança no meio do deserto, da seca…

 

Por João Carlos Sampaio

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