Marat Descartes: DNA de cinema

São só quatro anos fazendo longas-metragens, mas o paulistano Marat Descartes já se destacou como um dos principais atores de sua geração no cinema. Versátil, não vê problemas em alternar protagonistas e participações especiais, longas e curtas, teatro, cinema e televisão. O papel tem que ser bom. Talvez, por isso, esteja em tantos filmes prestes a chegarem em cartaz. Seu próximo protagonista a escancarar as telas é Júnior, de “Quando Eu Era Vivo”, novo filme de Marco Dutra, com quem repete a parceria. Marat brilha mais uma vez encarnando um sujeito perturbado internamente que exterioriza seus demônios.

Marat também está em “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”, de Gustavo Galvão, em “Entre Vales”, de Philippe Barcinski, em “Aos Ventos que Virão”, de Hermano Penna, todos já exibidos em festivais, e em “Até que a Casa Caia”, de Mauro Giuntini, em finalização. Para se ter ideia da produtividade do sujeito, basta saber que, além de todos esses filmes, Marat, recentemente, também foi visto nos cinemas em “Corpo Presente”, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori, em “O Tempo e o Vento”, de Jayme Monjardim, e em “Nove Crônicas para um Coração aos Berros”, de Gustavo Galvão.

Prestigiado ator de teatro, Marat despontou no cinema com o curta “Um Ramo” (2007), de Marco Dutra e Juliana Rojas. Estreou em longas como protagonista de “Os Inquilinos” (2009), de Sérgio Bianchi. Entre seus destaques, estão “Trabalhar Cansa” (2011), de Dutra e Rojas, e “Super Nada” (2012), de Rubens Rewald. Em entrevista exclusiva para a Revista de CINEMA, Marat, tranquilo e despojado, fala sobre seu processo de construção dos personagens e mostra por que é tão requisitado no cinema brasileiro atual.

Revista de CINEMA – “Quando Eu Era Vivo” é sua terceira parceria com Marco Dutra – depois do curta “Um Ramo” e do longa “Trabalhar Cansa”. Como se deu essa parceria?
Marat – Rodamos “Um Ramo” em 2006. O Marco me conheceu no teatro, eu fazia um monólogo chamado “Primeiro Amor”, do Beckett, bem sucedido, que ganhou o Prêmio Shell. Não conhecia o Marco, até conhecia alguns contemporâneos da ECA/USP, com quem já tinha feito outros curtas, mas a turma do Caixote eu não conhecia. Adorei de cara a pegada que ele e a Juliana têm, sobrenatural, flertando com o filme de gênero. O filme teve boa visibilidade, foi para Cannes, ganhou prêmio lá. Quando veio “Trabalhar Cansa”, me ligaram para falar que o Marco e a Juliana estavam para fazer um longa, mas que não tinham certeza se eu tinha a idade para fazer o Otávio. Pedi para ler o roteiro e fiquei enlouquecido. Disse que queria muito fazer o filme (risos). Me chamaram para fazer uma leitura e fui já como o personagem, coloquei um terno, como se estivesse indo pedir emprego (risos). Estavam preocupados porque não parecia um quarentão. “Vocês não estão entendendo, quero muito fazer, engordo, pinto de grisalho etc.” Eles toparam e foi incrível. De novo rolou Cannes e foi muito importante, dando mais visibilidade ao meu trabalho e criando uma afinidade muito grande entre nós três.

Estava filmando outro longa em Minas Gerais, do Gustavo Galvão, quando rolou o “Quando Eu Era Vivo” e o Marco ligou, dizendo que estava sondando, pois o filme não era só dele e que tinha um esquema de produtor mais forte. Quando ele contou a sinopse, enlouqueci, queria muito fazer também. Era para ser o Fábio Assunção, que teve problemas de agenda, e que era um nome mais comercial. Já tinha o [Antônio] Fagundes e a Sandy, a mídia do filme já estava garantida, não precisava de mais um global, falei para ele. Ele foi atrás disso, conversou com o produtor e rolou. E foi só alegria. Personagem mais incrível que já fiz. Às vezes fico com pudor de falar, porque os outros cineastas podem ficar com inveja (risos), mas é de fato o personagem mais complexo e rico que já fiz. Ele vai entrando num vórtice de loucura e isso é um prato cheio para um ator.

Marat (à esquerda), em cena de “Quando Eu Era Vivo”, de Marco Dutra, com Antônio Fagundes e a cantora Sandy, interpreta um personagem perturbador. © Flora Dias

Revista de CINEMA – Como foi o processo de criar a evolução dessa loucura?
Marat – Tivemos um mês de ensaio antes de começarmos a rodar. Como em uma peça de teatro, o Marco tinha toda uma curva na cabeça, inclusive dizia quando mudavam os atos da história. Fizemos uma gênese do personagem também, a história pregressa da família. E isso foi muito bacana, já entrava no apartamento com uma carga dramática de problemas mal resolvidos com o pai. Pode não estar textualmente no filme, mas está impresso ali. Conversei muito com o Marco também para criar a gênese desse personagem, para ir atrás de referências, fui ler o tratado do [Sigmund] Freud sobre “Luto e Melancolia”, porque parecia importante. O filme tem um lado sobrenatural que já está dado, eu como ator não tenho como contribuir com isso. Fui atrás de contribuir com uma consistência para essa loucura, fui atrás de entender. O Freud explica bem isso, que quando você perde alguém que é muito importante, você vai atrás de fazer esse luto, e se você não consegue fazer isso, você se torna o objeto do luto, que é o que acontece com ele. Quanto aos filmes, vimos vários, sobretudo “O Iluminado” [de Stanley Kubrick], que tem uma situação parecida de confinamento. “Quando Eu Era Vivo” se passa 90% dentro do apartamento.

Revista de CINEMA – Como é o Marco dirigindo? Há diferença de quando dirige com Juliana Rojas?
Marat – Acho que o processo é parecido. Ambos são muito tranquilos. O Marco sozinho continua sendo o mesmo Marco de quando está com a Juliana. Às vezes, trocamos pouquíssimas palavras e já nos entendemos. Essa coisa de ser um coletivo, o Filmes do Caixote, cria uma sintonia de set incrível e isso faz a filmagem transcorrer muito bem. Quando o tempo está apertado, está acabando a diária, rola uma força muito coletiva para terminar a tempo. Teve diária em que me peguei ajudando na arte. Adoro fazer essas coisas. Quando vou fazer filmes com turmas com quem não tenho tanta intimidade, aviso que, enquanto montam a luz etc, gosto de estar ali no set. Já vou me sentindo no local, usando a arte a favor do personagem. Gosto de estar criando o quadro também com o fotógrafo. Acho que esse é o barato do cinema e pelo que me apaixonei, o lado artesanal, em que você pode pintar cada quadrinho.

Revista de CINEMA – Como foi contracenar com o Antônio Fagundes e com a Sandy?
Marat – Foi uma experiência muito legal. Me lembro de um dia, em que estava deitado me concentrando um pouco, de olhos fechados, e escutei as duas vozes sem ver as figuras. Achei engraçado, parecia que estava sonhando com a televisão ligada (risos). Passei minha adolescência inteira admirando o Fagundes, cheguei a pedir autógrafo para ele, coisa que não fazia nunca. Fazia teatro desde os 13 anos e tinha um colega que morava no mesmo prédio que ele. Um dia o vimos chegando e fui correndo pedir um autógrafo. Cheguei até a contar a história do autógrafo para ele. “Você não vai lembrar, mas um dia te abordei na rua…” (risos). Mas no set tentei ter tranquilidade. Somos iguais nesse momento. Ele é incrível, você olha no olho e sente que estamos juntos. Com a Sandy, foi uma surpresa, porque ela tirou de letra a coisa do set. Já tinha experiência e tal, mas não era o foco da carreira dela. Muito precisa e muito correta com o que precisava imprimir para a personagem a cada cena. A equipe ficava mais preocupada com ela do que ela mesma. Todo dia íamos almoçar num restaurante no centro – filmamos ali na Av. São Luís – e ficava todo mundo: “o motorista vai te levar”, e ela tranquila, dizendo que tudo bem, que ia andando… (risos).

Revista de CINEMA – E como foi cantar com ela?
Marat – Até canto, sou afinado e tudo. Mas quando entrava a voz dela, perdia bonito, ia para melodia dela (risos). Pedi uma guia bem alta com a minha melodia. Ela tem uma voz linda, quando entrava cantando minha tendência era me perder junto com ela.

Revista de CINEMA – Você ficou marcado, de certa forma, por papéis que apresentam certa perturbação interior, uma angústia extrema que se externa. Você prefere esses personagens? Como se dá a construção dessa exteriorização?
Marat – Acho que sim, mas fico feliz de não ter caído em nenhum estereótipo. Outro dia, um jornalista muito infeliz da “Folha” foi lançar minha peça “O Natal de Harry”, e quis fazer um link com minha trajetória no cinema e a reduziu a dois tipos de personagens, losers e pais de família de classe média baixa, e, como cereja do bolo, disse porque talvez tenha esse tipo careca e bonachão. Talvez não tenha visto “Corpo Presente”, os filmes do Gustavo Galvão, “Super Nada”. Fico feliz em não ter caído em nenhum estereótipo. Mas concordo que sejam personagens muito complexos, mais introspectivos, de você ler o conflito através da minha interpretação. Mesmo os mais maluquinhos têm uma complexidade mais interna e é onde vejo que consigo contribuir mais, sem tanta verborragia. Gosto muito desses papéis. Acabei de ler o roteiro de “Mãos de Cavalos”, em que o Roberto Gervitz está trabalhando, e vi isso também. Ele não queria que eu lesse o romance e, ao ler o roteiro, fui sentindo algo estranho que só se revela no final. Vi essa marca de novo. Tanto que um dos meus filmes preferidos é “Caché”, do Michael Haneke. Tem um mistério que você não sabe o que é. E o Daniel Auteuil e a Juliette Binoche imprimem isso.

Revista de CINEMA – Como você trabalha a composição física dos personagens?
Marat – Não costumo me preocupar em fazer uma composição física, sobretudo no cinema. Aquela máxima, menos é mais. Tanto que uma das vezes que acho que mais errei, que pesei a mão, foi quando tentei compor trejeitos físicos, em “Corpo Presente”, em que era um raver cheio de tiques porque tomava anfetamina o tempo inteiro. Pensei que seria interessante, mas quando vejo acho meio… Quando você faz cinema, você já tem toda uma equipe pensando nisso, te inserindo num contexto socioeconômico, psicológico, enfim, tem a direção de arte etc. Acredito que é vestir essa roupa e sentir o personagem, o ambiente. Não me preocupo com a composição do personagem, imprime porque está lá. Engordei seis kilos para o Otávio, de “Trabalhar Cansa”, pintaram meu cabelo de grisalho. No “Corpo Presente”, emagreci um monte, raspei todo o cabelo, fiz uma tatuagem. Me preocupo mais em me colocar lá. Deixo mais a coisa acontecer, tenho medo de querer imprimir algo. Por outro lado, acaba acontecendo e toda vez você precisa repetir isso. Num primeiro momento, não venho com nada preparado.

Revista de CINEMA – Você acabou de rodar “Até que a Casa Caia”, de Mauro Giuntini. Como foi?
Marat – Acho que foi um dos primeiros frutos espontâneos de outros filmes. Ele ia fazer com outro ator de Brasília, que teve um problema de agenda, e ele estava meio desesperado, a um mês de começar a rodar. Zapeando, parou em “Os Inquilinos” e me ligou. Bateu a agenda, deu certo, fui rodar em Brasília. É outro gênero que nunca tinha feito, que ele chama de dramédia. Há uma comédia de costumes – é a situação de um casal que não é mais casado, mas que continua morando junto, que sou eu e a Virgínia Cavendish, e um filho adolescente –, mas há um drama ético muito forte porque ele é um professor de curso de alfabetização que se envolve com a política para trazer verbas para melhorar o curso. Ele ganha uma mala de dinheiro de lobistas, mas não sabe o que fazer com aquilo. Foram quatro semanas de filmagem, fiquei um mês e meio para ensaiar e fazer preparação.

Marat faz um professor em “Até que a Casa Caia”, de Mauro Giuntini, uma comédia dramática sobre os novos arranjos familiares. © Marcelo Veras

Revista de CINEMA – Você também está nos dois longas do Gustavo Galvão, “Nove Crônicas para um Coração aos Berros” e “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”. Como se deu essa parceria?
Marat – O Gustavo veio para São Paulo com a ideia de fazer “Nove Crônicas para um Coração aos Berros” e saiu angariando atores. Todo mundo fez sem cachê, pensando em quando ganhasse algum edital rolaria um cachê simbólico. Topamos a ideia dele. Ele foi assistir a uma leitura aberta de um espetáculo, que não foi concluído, “Lá Fora Vai Estar Chovendo Sempre”, do Gero Camilo. No final desse dia, ele me pegou na Paulista e me contou do projeto. Disse que não tinha personagem, só a situação. Até brinquei: “se puder não ser um pai de família, e ser uma coisa bem louca…” (risos). Acabou sendo essa coisa que é um personagem que aparece de várias maneiras para o Leonardo Medeiros. Foi muito legal conhecer o Gustavo, muito tranquilo e instigante ao mesmo tempo. Depois de um ano, ele me convidou para fazer um roteiro bem antigo que era o “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”. Adorei, era outro gênero, um road movie, e o personagem era bem expansivo, bem loucão. Quebrava com tudo que havia feito. E tem também um mistério no personagem.

Revista de CINEMA – No cinema, você também já fez um ator, em “Super Nada”, do Rubens Rewald. O filme te deu um Kikito, em Gramado. Qual é a importância de um prêmio como esse e o quanto o personagem se relacionava com sua história?
Marat – Prêmio é sempre muito gostoso de ganhar, é um reconhecimento do seu trabalho e deve contribuir. Ninguém nunca me falou que me ligou porque ganhei um kikito (risos). Mas deve ajudar sim. Há quem diga que uma vez que você ganha um prêmio é pior, pois acham que você está muito caro. No filme, minha filha faz minha filha, minha esposa faz uma das namoradinhas. E o resto da turma são amigos de vinte anos, então foi tudo muito lá em casa. Quando o Rubens me convidou fiquei meio em crise, porque achava que não tinha idade para fazer esse personagem, ele passa por conflitos e necessidades de infraestrutura que até identifico no começo da carreira, quando fiz tradução, transcrição, fui trabalhar em livraria, tentei de tudo para sobreviver, até chegar o momento em que comecei a viver de teatro. Estudando mais o personagem, percebi que o problema dele era de maturidade, independia da faixa etária. Quem veio fazer a preparação, especialmente das cenas mais físicas, mais coreógrafas, foi a Cristiane Paoli-Quito, que foi minha mestre na faculdade e até hoje é uma espécie de guru. É quase uma homenagem ao nosso ofício, o quanto é difícil e maravilhoso ao mesmo tempo.

Marat, em “Super Nada”, de Rubens Rewald, que lhe rendeu o kikito de melhor ator no Festival de Gramado, no papel de um homem sem sentido para a vida. © Marcos Camargo

Revista de CINEMA – Você tem trabalhado também em filmes essencialmente paulistas. Como é sua relação com a cidade?
Marat – Sou tão paulistano da gema que já está em mim e tenho que tomar cuidado quando vou fazer filmes fora de São Paulo (risos). O Gustavo Galvão, quando fui fazer “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”, me chamou antes, principalmente, para eu pegar o ‘r’ de Brasília, que é muito específico e marca muito a fala do candango. Quando faço filme em São Paulo, me sinto em casa. Cresci e me criei na Vila Madalena até os dezesseis anos, quando fui morar com minha primeira esposa ali perto, até me mudar para a Vila Romana. Sou garoto da zona oeste desde sempre. Conheço muito o significado dessa efervescência cultural e essa loucura. Lidar com isso não é uma preocupação.

Revista de CINEMA – Entre os seus trabalhos, está “2 Coelhos”, do Afonso Poyart, que é um filme repleto de efeitos visuais, ação, tiroteios e afins. É um processo diferente?
Marat – Na verdade foi uma grande diversão, brincávamos de polícia e ladrão (risos). Sabíamos que ia ter um bando de efeitos na pós-produção e virou até um jargão – falavam: “vamos lá filmar”, e a gente retrucava: “não vamos filmar não, me põe na pós” (risos). Teve um momento tenso em que a Alessandra Negrini se joga do carro, feito logicamente por uma dublê, que estava do meu lado, e meu coração quase saiu pela boca (risos). Esse tipo de coisa de filme de ação foi uma surpresa. Cena de tiroteio foi uma farra. E foi um personagem muito bom de fazer, porque não era um bandidão estereotipado que ia para um caminho hiper-realista. Era um bandido de um bando de patetas, havia um traço de humor que trouxe uma leveza.

Revista de CINEMA – O que o levou às artes dramáticas?
Marat – Indo bem às reminiscências mais antigas, já na quarta, quinta série eu já fazia isso. Tinha que fazer um trabalho de história, sei lá, e perguntava se podia fazer uma pecinha. Escrevia os esquetes. Na oitava série, um professor de filosofia da escola – estudei no Colégio São Luís – propôs montar um grupo de teatro. Montamos e não parei mais. Me apaixonei perdidamente por estar em cena. Montamos uma peça por ano no colegial, uma comédia que não lembro o nome, “Gota d’Água” e “O Avarento”, do Molière. No último ano, estávamos com “O Avarento” montado e resolvemos alugar o Teatro Augusta para nos apresentar, numa matinê. Levamos a sério. Tanto que desse grupo várias pessoas seguiram a carreira. Fiz depois direito na PUC, por três anos. Não cheguei a me formar. No final do primeiro ano de direito, prestei e passei na EAD. Depois de um tempo, vi que não fazia sentido pagar uma faculdade que não me dizia muito – até tinha coisas muito interessantes, retórica etc, que trouxe para o ofício de ator. Quando terminei a EAD, quis fazer Letras – cursado na USP –, e foi muito bom, porque estava mais maduro e fui buscar lá ferramentas para meu trabalho de intérprete. Na formação da EAD, tem só um semestre de interpretação para a câmera. Tinha muito medo da câmera, não sabia como lidar com isso. Mas fui me interessando pelo outro braço do ofício. Fiz muitos curtas, telefilmes na TV Cultura, participações no programa da Denise Fraga no “Fantástico”, e esses primeiros trabalhos me fizeram ter mais intimidade com a câmera, como me posicionar e me expressar frente a ela. Porque é diferente do teatro. Quando surgiu a oportunidade de mergulhar num set de filmagem todos os dias, como protagonista de longa, foi apaixonante.

Revista de CINEMA – Seu primeiro longa foi “Os Inquilinos”, como protagonista. Como foi ser batizado pelo Sérgio Bianchi?
Marat – O Bianchi é duro, é difícil. Quando entramos em conflito, era porque havia uma genialidade que ele queria que eu atingisse e ele estava certo (risos). Quando entrávamos em atrito era em função da cena. A primeira semana foi mais conflituosa e depois nos entendemos. Ele chegou a dar uns gritos, os pitis dele, mas eu o chamei no canto e disse que não funcionava daquele jeito. Aí conseguimos nos comunicar numa boa. Ele tem uma mania de perseguição, já que produz os próprios filmes. Se ele é diretor, tem que pensar na cena, e não no pagamento. Às vezes achava que estavam roubando ele, trocava de produtor executivo três ou quatro vezes. É tenso. Foi meu primeiro longa, meu primeiro protagonista em longas, e não teve nenhuma preparação. Fui um dia na casa dele bater um papo com ele, de uma hora, eu, ele e a Ana Carbatti. E funcionou. Não senti falta de ter feito mil ensaios.

Marat em seu primeiro longa-metragem, “Os Inquilinos”, de Sérgio Bianchi: filmagens tensas em um papel que lhe rendeu muitos elogios

Revista de CINEMA – Como foi a adaptação do teatro para o cinema?
Marat – A dificuldade é em como lidar com a câmera. Só horas de voo te trazem experiência e conhecimento em relação a isso. No filme do Bianchi, ia meio na intuição, estava meio perdido, não sabia, por exemplo, a diferença de uma lente 35mm para uma lente 18mm. Por isso, pegar protagonista foi fundamental. Se está num plano fechado, tem que interiorizar mais, fazer mais fechado. Se é um plano mais aberto, precisa ser mais gestual para imprimir. Essas regulagens, a experiência trouxe. No teatro, compomos muito mais no sentido físico, gestual. Em cinema, quanto menos fizesse e mais fosse na verdade da situação da cena e simplesmente respirasse o ambiente, mais a coisa sairia verossímil. Isso foi uma chavinha que fui descobrindo. As duas linguagens partem do mesmo princípio, que é o entendimento. Vem aí um pouco da minha trajetória, relacionando teatro e literatura. Quando pego o roteiro, quero entender o que está por trás das palavras, decupando cada cena dentro da trajetória inteira. Interpretar, no sentido mais literal da palavra. E aí não há diferença entre cinema e teatro.

Revista de CINEMA – Como é sua relação com a televisão?
Marat – Com a TV, só falta me chamarem (risos). Tenho feito até bastante coisa, mas não estou bombando em novelas. E talvez nem seja um desejo muito forte, porque acho que deve ser foda. Fiz “A Vida da Gente”, e via a vida dos protagonistas e não desejo isso pra ninguém (risos). Os caras sugam o sangue e você tem que estar totalmente disponível. O personagem que fiz era perfeito. Entrava no episódio 40, morria no 90, já tinha período determinado. E, em termos financeiros, é muito bom. Você fica contratado, recebendo um salário bom por um bom tempo. Te dá uma tranquilidade (risos). Fiz muitas minisséries: “Alice”, “Oscar Freire 279”, “Maysa”, “Tudo que É Sólido Pode Derreter”, “A Teia”, que foi lançada recentemente.

Revista de CINEMA – O que o aproximou do Jayme Monjardim?
Marat – Há uma sintonia, uma admiração, mas acho que ele nunca me viu no teatro e não lembro como cheguei em “Maysa”. Cheguei já como “Marat, o grande ator de teatro de São Paulo”. E rolou uma sintonia. Sempre que tem aquela primeira mesa nos projetos dele, ele me apresenta assim, o grande ator de teatro de São Paulo que não gosta muito de fazer televisão (risos). De onde ele tirou isso? “Para de espalhar isso, é mentira (risos). Eu gosto, me chama que eu faço.”

Revista de CINEMA – E como foi a extensão no cinema, com “O Tempo e o Vento”? Foi muito diferente dos filmes que você em geral faz?
Marat – A diferença é a estrutura, cidade cenográfica etc. O Jayme é tranquilo. Não tem muita preparação, talvez tenha com os protagonistas, mas não tivemos muito tempo. Lemos o roteiro, as cenas, conversamos um pouco. Mas ele tem um cuidado. Na cena final, quando o sobrado fica livre, entrei na casa gritando. Falou para fazer fazendo menos. Sentia que o cara explodia, depois de ficar confinado, com a filha que morre. Mas o Jayme achava que não cabia. Chegamos num lugar que parecia que tinha razão. Em novela, ele dirige uma cena ou outra, só faz direção geral.

Revista de CINEMA – Há muitas diferenças em atuar em filmes com baixo ou médio orçamento e em grande orçamento?
Marat – Senti diferença. Aquela relação artesanal de quando é uma equipe mais reduzida e você tem uma relação mais próxima é difícil no filme de grande estrutura. Não conseguimos ter essa relação quando entra num esquema mais industrial. Vide o “Lula, o Filho do Brasil”, era praticamente um número lá. Minha relação com o [Fábio] Barreto ou mesmo com o fotógrafo, mesmo com a arte, quase não existia. Com o Jayme, apesar de ser um filme tão grandioso em termos de estrutura, havia uma proximidade maior, mas porque já nos conhecíamos. É diferente, não que seja prejudicial para a obra.

Revista de CINEMA – Você é um ator que não tem problemas em fazer papéis de pequeno tempo de tela ou coadjuvantes, mesmo sendo um protagonista que cada vez mais chama a atenção – assim como curtas. O que o leva a aceitar um papel?
Marat – São muitos fatores. Primeiro, o papel tem que ser legal, independente de ser protagonista. Fiz uma ponta no “Aos Ventos que Virão”, do Hermano Penna. Ele me ligou e da conversa fiquei instigado. É um personagem que dá uma palestra para um grupo de operários – está tenso e ele chega com um discurso ridículo, uma coisa meio nazista. Achei interessante. Outro aspecto muito importante é a própria agenda, conciliar trabalhos. Muito importante, se não seria hipócrita, é o cachê, tenho família grande para sustentar (risos). Faz diferença também serem pessoas com quem já tenho afinidade. Faço com quem não conheço, mas faz diferença ser uma turma legal no set. Se tiver que escolher entre dois projetos, vou escolher o qual mais tenho afinidade com a equipe. Com o próprio Bianchi, cujo set foi conturbado, trabalharia de novo. Só não fiz “Jogo das Decapitações” por conta de “O Tempo e o Vento”, em que tive que ficar à disposição cinco meses com aquele bigodão (risos). Amei o roteiro do Bianchi e trabalharia de novo. Muito daquele jeitão é a genialidade dele.

Revista de CINEMA – Você pensa em migrar para outras áreas, como produção, direção ou roteiro?
Marat – Com o grupo da EAD, criamos um coletivo, a Fuleragem Filmes. Fizemos três filmes, dirigi e escrevi o primeiro, “Uma Confusão Cotidiana”, baseado num texto do [Franz] Kafka, porque me apaixonei pelo texto e achava que daria um filme. A priori, não tenho interesse em ser outra coisa que não ator. Fiz um monólogo agora, do Steven Berkoff, “O Natal de Harry”, e eu mesmo quis traduzir o texto, achei que tinha ferramentas para tal. Não sou tradutor de formação, mas achei que para o processo seria muito bom. Acho que ninguém sabe, mas sou também locutor. Devem estar cansados de escutar minha voz, e não saberem que é minha, em publicidade, institucionais.

Revista de CINEMA – Quais são seus próximos passos?
Marat – Faço uma participação na segunda temporada da série “O Negócio”, estou com o monólogo “O Natal de Harry”, que faço mais alguma vezes nesse ano e vou tentar circular no ano que vem. Tem também “Um Bonde Chamado Desejo”, dirigido pelo Rafael Gomes, que ganhou edital e precisamos mergulhar nele.

 

Por Gabriel Carneiro

One thought on “Marat Descartes: DNA de cinema

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.