Criação Narrativa Slideshow Televisão — 03 fevereiro 2016
Onde nascem as séries
Cena de "Homeland"

Uma pergunta corrente é: quando vamos produzir séries com a qualidade das melhores séries americanas? Para tentar uma resposta, vale um exercício de inversão de eixo. Vamos imaginar que nos Estados Unidos alguém pergunte: quando vamos ganhar a Copa do Mundo, com um time da mesma qualidade do Brasil (aliás, da Alemanha)?

Uma resposta razoável seria que, com o planejamento adequado, as escolas de futebol, os treinamentos, o método, os técnicos, a tecnologia, o estudo dos melhores times, as inovações – enfim, se tudo for feito à perfeição, daria para esperar que, em alguns anos, talvez os americanos ganhem uma Copa.

Uma grande série, que deixa sua marca na cultura, não nasce por mágica. Ela é fruto, a começar, de uma tradição narrativa. Nos anos 80, as séries americanas eram chamadas de enlatados. Renato Russo cantava que éramos programados para receber os enlatados dos USA das nove às seis. Três décadas depois, talvez Renato Russo não comporia muita coisa por não conseguir desgrudar da Netflix.

Em sua vinda ao Brasil, o celebrado professor de roteiro Robert McKee comparou Tony Soprano a Hamlet, que é considerado o personagem mais complexo dos palcos. Descontando um certo exagero, a comparação é um sinal de que a grande série hoje ombreia com a alta literatura e a grande dramaturgia.

Mas criar um Hamlet é a questão. O nível de sofisticação narrativa das séries, de relevância artística e de exploração dos dilemas humanos chega a profundezas que nos atingem, mobilizam e perturbam.

O problema para fazer uma grande série é dinheiro? Também, mas isso está longe de garantir qualidade. Faltam roteiristas, como os produtores gostam de se queixar? Pode ser, mas para uma série com a qualidade que se almeja, a verdade é que falta tudo. Se nossa ambição é alta, se o desejo é seguir os mestres – e o desejo de grandeza é legítimo – então, todos devem se aprimorar em seu ofício sempre, do contrarregra ao produtor executivo.

Uma série como “Homeland”, por exemplo, não é grandiosa apenas pela qualidade de suas histórias – mais que isso, sua narrativa toca em nervos profundos de uma civilização perturbada pelo terrorismo. As séries escavam o imaginário coletivo e, por vezes, chegam em verdades profundas. Chegar tão longe exige uma maturidade narrativa que não envolve só os roteiristas. Envolve também a capacidade imaginativa de diretores, produtores, atores e, no limite, a própria disposição do público.

A propósito, sempre que ouço um produtor dizer que faltam roteiristas, lembro-me da minha avó. Quando eu chorava pela casa reclamando que não encontrava um brinquedo, ela fazia a pergunta que toda avó faz: você procurou? E eu balançava a cabeça negativamente. É inconcebível que a maioria das produtoras não tenha uma sala onde se escutem ideias o dia inteiro, e outra sala onde se desenvolvam muitas séries no papel para, quem sabe, uma delas vingar e se destacar no panorama audiovisual.

Tempo, maturidade narrativa, conhecimento do ofício, investimento. Todos elementos indispensáveis, mas ainda falta um. Sem ousadia, é difícil criar alguma coisa relevante. Ousadia não é mostrar personagens usando drogas depois de transarem. Ousadia é enfrentar contradições humanas e dilemas morais. No limite, ousadia é colocar em cena o que o público não quer ver. Até alguém mostrar.

No livro “Homens Difíceis”, Brett Martin conta do plano de reestruturação do FX, um canal que andava decaído, com carpetes manchados e paredes esburacadas. Um alto executivo de tevê aberta foi chamado para a missão, um profissional que apoiava seu copo em um porta-copo de 500 dólares. No fim, o que levou o executivo a enfrentar a tarefa foi o fato de o canal não dar audiência alguma. Sendo assim, ele podia tentar qualquer coisa. Em pouco tempo, a sede precária estava lotada de escritores oferecendo programas novos.

Essa é uma das histórias de risco de quem fez a nova era de ouro da televisão americana. O livro está cheio delas. É claro que tevê é um negócio, assim como é claro que coragem faz parte do negócio. Em vez de mendigar por zero alguma coisa de ibope, pessoas que tomavam decisões resolveram apostar alto. Em vez de escrever sempre os mesmos programas, os roteiristas resolveram dar forma aos seus delírios, instigando seus pares, os executivos e o público a entrarem em um lugar inexplorado. Pois é nos lugares inexplorados que nascem as grandes narrativas.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor

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(1) Reader Comment

  1. Oportuno teu comentário , Ricardo. Talentos não se fazem. Nascem ! É só saber , criativa e inovadoramente, onde procura-os.

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