Artigos Mercado — 15 junho 2016
O “admirável mundo novo” midiático e a dialética das linguagens de Professor/Escola e Aluno/Ator social

É fato que professores e escola estão em permanente “defasagem” tecnológica em relação às gerações dos alunos. O velho chavão “conflito de gerações” agora ganhou nova conformação num “conflito tecnológico” cada vez mais acentuado.

No livro Televisão e Escola, a autora Heloísa Dupas Penteado faz algumas observações sobre esse ponto que destaco neste texto. “Escola e TV são assuntos paralelos. Cruzam-se e sobrepõem-se nos sujeitos sócio-históricos que compõem o grupo social escola. Os sujeitos da escola são telespectadores de muitas horas diárias, que computadas ao longo dos anos de vida indicarão entre os discentes de escolaridade inicial (1º grau) maior tempo de exposição às TVs do que envolvidos com atividades escolares (aulas e estudos). O que aprendem? Modos de falar, slogans, padrões de comportamento, modos e/ou parâmetros de julgamento, informações, padrões de análise.”

Ainda neste tema de “conflito de linguagens” há um trecho no livro Medo e Ousadia, de Paulo Freire e Ira Shor, que reitera o distanciamento que dificulta esse diálogo: “… o que quero propor é a questão da linguagem, isto é, o idioma com o qual o professor fala para seus alunos comuns ou para um público popular. Os professores perguntam sobre as diferenças entre sua linguagem e a linguagem dos alunos, que seriam um obstáculo ao diálogo.”

Mas o que o conteúdo audiovisual pode contribuir como ferramenta decisiva para aproximar e fortalecer o diálogo professor/aluno? Hoje, mesmo com o Brasil bastante defasado em relação à Europa e aos Estados Unidos, a oferta de conteúdos audiovisuais se dá em outras plataformas ONLINE, de forma não linear, por PAY per VIEW, ou VIDEO por DEMANDA. O telespectador, agora um NATIVO DIGITAL, sobretudo das novas e novíssimas gerações, monta sua própria grade de programação, “troca de canal ou plataforma”, assiste mais de um vídeo ao mesmo tempo. Enfim, com as possibilidades pagas ou gratuitas do universo de plataformas digitais, o telespectador, o aluno ou o professor já não são os mesmos “agentes passivos” e organizam sua grade de programação como se fosse sua BIBLIOTECA particular.

Assim, produtores de conteúdo audiovisual, sejam os produtores da comunicação educativa ou não, precisam oferecer sua produção de várias e distintas formas de distribuição. Seja de forma linear ou não linear. Numa grade com horários definidos ou organizando uma grande biblioteca ONLINE, para ser assistida por STREAMING em tempo real, seja para DOWNLOAD ou pela forma de entrega por mídia física (DVD ou BLUERAY).

Como os hábitos de consumo audiovisual são muitos, variando por espectador ou preferência, há a necessidade de que a oferta de difusão seja múltipla e simultânea. Assim como a revolução atual do consumo audiovisual, os formatos audiovisuais não são mais aqueles padronizados que conhecíamos há bem pouco tempo.

Com as múltiplas plataformas e com tantos equipamentos distintos para assistirmos a esses conteúdos, os formatos foram também se multiplicando em tempo e linguagens. Durações extensas dão lugar a formatos menores, como os chamados “interprogramas”; pequenos documentários estimulam uma pesquisa a ser mais aprofundada. A dramaturgia serve de linguagem para facilitar o entendimento de alguns conteúdos curriculares.

Alguns conceitos são decisivos para se entender esse “admirável mundo novo” midiático. Conceitos que nortearam a escolha do sistema de TV digital no Brasil e que estão presentes em todas as formas de distribuição de conteúdos audiovisuais, seja por TV linear ou qualquer outra plataforma online: interatividade, mobilidade e portabilidade. A chamada “TV everywhere” traz esses conceitos reunidos. Além de interativos, os conteúdos precisam ser MÓVEIS – disponíveis se o espectador estiver em movimento (como num carro ou num metrô, por exemplo) e precisam ser PORTÁVEIS para que o espectador possa assisti-los quando e como quiser.

O que modificou como dissemos toda a forma de consumir audiovisual. As novas formas de consumo audiovisual, como as que estamos conhecendo pela multiplicação incessante de plataformas de distribuição de conteúdos – áudio/vídeo ou somente áudio (impulsionados pela difusão da música, sobretudo), leva a reconceituar TV e Rádio. Esses conceitos não estão mais associados aos aparelhos físicos analógicos, e sim a uma forma de configuração ou agrupamento de conteúdos que ora se classificam como “TV” ou “Rádio”. Mas podiam ser LIBRARYS ou PLAYLISTS para consumos individuais ou de grupos.

Se a tecnologia atual conspira a favor das ferramentas para o processo de aprendizagem, o que a linguagem do entretenimento colabora para esse, tão admirável quanto complexo, mundo midiático?

O termo “Edutainment”, ainda que tenha ganho uma sofisticada nomenclatura em inglês, fala exatamente de quando o conteúdo educativo (em seu sentido mais amplo de educação permanente – sem limites curriculares) se apropria das linguagens e formatos do entretenimento audiovisual.

Nos anos 70, a TV Educativa do Rio era somente um centro produtor audiovisual, e ousou produzir “novelas educativas” como “João da Silva” e um pouco mais tarde “A Conquista”, em que tratava conteúdos curriculares de português e matemática dentro de uma trama de folhetim, roteirizada em capítulos de novela, bem ao gosto popular.

No final dos anos 80 e durante toda a década de 90, a TV Cultura de São Paulo, eu diria, “radicalizou” esse conceito, com apropriações brilhantes da dramaturgia fantasiosa da série “Ra-Tim-Bum” e logo depois com o megassucesso em TV aberta, o “Castelo Ra-Tim-Bum”. Ali, conteúdos educacionais foram tratados em linguagem quase cinematográfica, levando o “Castelo” a índices de audiência nunca antes alcançados pela TV Cultura ou qualquer TV educativo-cultural.

Na última edição do RioContentMarket, um painel dedicado a experiências de múltiplas plataformas nos revelou novas, interessantes e até divertidas formas da comunicação educativa em que educação e entretenimento podem caminhar juntos. Agora não mais com índices de audiência de TV, mas com os índices dos milhões da WEB.

Bem-vindos ao século XXI da aprendizagem!

 

Por Mauro Garcia, Diretor Executivo da ABPITV

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