Artigos Televisão — 21 setembro 2016
Reality Horror Show

As manifestações populares de 2013 e suas reivindicações, citadas insistentemente por políticos dos mais diversos matizes ideológicos neste momento de confusão, incerteza e assombro que vivemos no Brasil, tinham uma mensagem central e muito clara em meio aos muitos desejos expressados: fora os políticos e os partidos políticos. Parece que ninguém se lembra disso e os profissionais da política continuam a atuar em seu espetáculo diário de cinismo, egocentrismo e corrupção. Todos os nossos políticos? Sempre há exceções à regra e estou me referindo à regra, ou seja, à maioria. Os políticos atuam e os meios de comunicação nos apresentam o deprimente espetáculo com bom roteiro, bem fotografado, bem filmado, cuidadosamente editado.

A sempre anunciada isenção da grande mídia perante os fatos é uma piada e também faz parte do espetáculo. Primeiro, porque não existe isenção em grau zero (talvez possa ser medida de um a cem, mas o zero é ilusão). Segundo, porque atrás da grande mídia estão grandes empresas e qualquer grande empresa tem interesses materiais e financeiros a defender. Tomemos como exemplo o traumático processo de impeachment de Dilma Rousseff, um golpe de estado parlamentar que a grande mídia brasileira se esforça para considerar um processo legítimo. A tese do golpe parlamentar (que, na minha opinião, é a que vai prevalecer na História) foi e é muito mais levada em conta pela mídia americana, europeia e asiática do que pela brasileira.

Histrionismo

O espetáculo como ingrediente político sempre existiu, desde quando o ser humano percebeu que juntar muita gente em torno de uma ideia era o caminho mais seguro para se chegar ao objetivo. Tanto no que se refere a objetivos sociais como religiosos. Desde a espetaculosidade de Moisés abrindo o Mar Vermelho até os pastores evangélicos que fazem milagres na televisão, ao vivo. Desde Napoleão Bonaparte exercendo controle absoluto sobre a atividade artística francesa de sua época (seu “ministro” ou “general” que aplicava esse controle era Jacques-Louis David, seu pintor oficial) até a impressionante grandiosidade e envolvência do cinema de Hitler.

Aqui no Brasil tivemos Getúlio Vargas, o Rei do Rádio (expandiu o rádio por todo o país, distribuiu aparelhos para a população, criou a Hora do Brasil e estendeu seu palco estimulando os cinejornais). Como também fez Perón, em dupla com Eva Perón, a atriz de radioteatro divinizada pelos argentinos que anunciava mil vezes por dia que seu marido era “nosso sol, nosso ar, nossa água, nossa vida”. Ao longo da História, a relação política/espetáculo cresceu a partir da evolução tecnológica e, embora mantenha sua lógica inicial, que é propagar a imagem de um líder natural para que seu poder se avolume, também a inverte em muitos e variados casos. A inversão está na criação de líderes anaturais, ou seja, propagar a imagem de alguém que não é líder político, transformando-o em tal. Na invenção e desenvolvimento de personagens como Berlusconi e Donald Trump.

Filósofos e jornalistas tratam desse tema desde muito tempo. Na década 1960, a Escola de Frankfurt e sua Teoria Crítica refletiram sobre a “intersubjetividade” da ação comunicativa. No final da década 1970, fez muito sucesso o livro “L’Etat Spectacle” (“O Estado Espetáculo”, Difusão Editora, SP, 1978), do francês Roger-Gérard Schwartzenberg, onde o autor classifica a política como um espetáculo circense “de péssimo gosto” e defende a tese da lavagem cerebral através dos meios de comunicação. O canadense Marshall McLuhan demonstrou que o meio, ou a mídia em que uma mensagem é transmitida interfere mais no impacto da recepção do que o conteúdo. O galego Ignacio Ramonet, em “La Tyrannie de la Communication” (“A Tirania da Comunicação”, Editora Vozes, 1999), e outros livros eleva o audiovisual ao nível de linguagem dominante e estuda a dramaturgia dos telejornais.

Simulacro e realidade

Ramonet, com quem converso de vez em quando, afirma que a televisão é a mídia mais importante no complexo política/meios de comunicação/interesses econômicos sobre o qual estamos falando. Apesar da força ascendente das redes sociais e de seu até agora exclusivo valor da interação, a TV ainda centraliza o espetáculo da política, o show do estado personagem. A razão é a qualidade da imagem e, principalmente, o haver herdado, embora apenas um pouco, um valor do cinema: além de uma atitude pessoal de cada espectador, também é um ato social, uma reunião presencial. Diante da maioria dos aparelhos de TV, estão sempre mais de uma pessoa e a conversa entre elas é ao vivo.

Nos últimos meses, principalmente nas últimas semanas, a política espetáculo do Brasil chamou a atenção do mundo pela sua bizarrice e exagero melodramático (inacreditável uma das autoras do pedido de impeachment chorando, pedindo perdão a Dilma e dizendo que fez isso pensando nos netos dela). E também porque ninguém supunha uma mudança tão drástica e instantânea na situação econômica e no bom humor festivo que sempre caracterizou os brasileiros. Por trás do espetáculo, está a sombra de um drama social real (um país agora sem lideranças e sem um projeto visível de futuro) que os brasileiros não podem permitir que evolua para a tragédia. A esperança é que o triste espetáculo produza um nível de politização mais profundo na população, embora muita gente acredite que o mais provável é o contrário, a despolitização, o desinteresse, a perda de autoestima e a consequente retomada do complexo de vira-lata. Fico com a certeza de que está começando uma nova etapa da luta dos brasileiros pela dignidade.

 

Por Orlando Senna, escritor e cineasta

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