Críticas de Filmes — 03 dezembro 2016
Adaptação de romance de Cristovão Tezza transforma Copas do Mundo em marca temporal

O cineasta paulistano Paulo Machline, de 49 anos, tornou-se conhecido por causa de um curta-metragem, “Uma História de Futebol”, com descolado roteiro de José Roberto Torero. O filme disputou o Oscar em 2001. Dali em diante, o jovem torcedor do Santos, que evocara a história da infância de Pelé em singela e cativante narrativa, aguardava oportunidade de voltar ao mundo do futebol.

Quando Machline conheceu o produtor Rodrigo Teixeira, responsável pela transformação do romance “O Filho Eterno” em filme (em cartaz em 59 cinemas de várias cidades brasileiras), o futebol funcionou como elo de ligação.

“Rodrigo”, relembra o cineasta, viu “Uma História de Futebol” e resolveu me convocar para a equipe de um projeto fascinante e muito ousado, o “Camisa 13″, no qual vários cineastas dirigiriam documentários sobre treze dos mais importantes clubes do futebol brasileiro. Isto aconteceu há 18 anos. Mas o projeto não se concretizou.

Rodrigo Teixeira, porém, não abandonou a intenção de produzir filmes de Machline. O primeiro foi “Natimorto” (2009), estranha recriação do universo do escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli. Começaram, juntos, o segundo longa-metragem, “Trinta” (2015), sobre o carnavalesco Joãozinho Trinta, com Matheus Nachtergaele. Mas o projeto acabou produzido pela dupla Joana & Matias Mariani, da Primo Filmes.

O reencontro de Machline e Teixeira se reestruturou, mais uma vez, no universo dos livros. O produtor entregou ao cineasta a tarefa de adaptar para o cinema o mais laureado (sete dos mais importantes prêmios nacionais e um prêmio francês) e vendido (80 mil exemplares) livro do escritor Cristovão Tezza, de 64 anos.

O ficcionista e professor universitário, por sua vez, deu liberdade total à equipe na adaptação de seu romance, que contém elementos autobiográficos.

“Vendi os direitos totalmente, por opção pessoal”, diz Tezza. E o fez, por entender que “um filme é obra de um diretor, que deve ter sua própria leitura e seu próprio olhar sobre o livro em que se baseia”.

Como o autor de “O Filho Eterno” não participou do roteiro em nenhum momento, Paulo Machline buscou a colaboração do roteirista Leonardo Levi para recriar, livremente, o livro. Juntos, efetuaram ampla pesquisa no universo dos portadores de Síndrome de Down. Ouviram pais e mães de downianos e muitos especialistas no campo da medicina, pois queriam estar familiarizados com o tema.

Machline definiu, com Rodrigo Teixeira, que o filme seria realizado em Curitiba, espaço fundamental na história de Tezza, nascido em Lages, Santa Catarina, mas radicado no Paraná desde a infância. Convocou três atores de nome nacional – Marcos Veras (Roberto, o jovem pai), Débora Falabella, (Cláudia, a jovem mãe), e Augusto Madeira, um médico carioca que promete “curar” a Síndrome de Down, da qual o filho do casal, Fabrício (Pedro Vinícius), é portador. O restante do elenco – incluindo o ótimo Vinícius – foi convocado no Paraná.

Seleção Brasileira

Na recriação do romance de Cristovão Tezza, Machline pôde voltar com força total ao futebol, às Copas do Mundo perdidas (três) e vencidas (apenas uma) ao longo de 13 anos, marca temporal da narrativa.

O bebê downiano nasce quando o Brasil perde a Copa de 1982, sediada na Espanha. A Seleção jogava bonito com Sócrates, Zico e Falcão e era a favorita. O pai de primeira viagem e escritor em início de carreira (o comediante Marcos Veras se sai bem em seu papel mais dramático) sofre baque ao ver-se responsável por bebê portador de Síndrome de Down. Rejeita o filho a ponto de buscar conforto em (possível) morte prematura do recém-nascido.

O Brasil sofre com a derrota de 1982. O jovem pai continua cada vez mais atordoado. Ao longo da narrativa, o selecionado brasileiro perderá mais dois campeonatos mundiais (1986 e 1990). O pai, desinteressado pelo futebol, desde o traumático nascimento do filho, vê o menino crescer. E o garoto amará, cada vez mais, o esporte, ao qual assiste, de forma apaixonada, pela TV.

Intelectual e professor universitário, o pai segue sua via crucis. A esposa (Débora Falabella, em interpretação contida e nuançada) divide-se entre o filho e o trabalho. No filme, relacionamento extra-conjugal do personagem interpretado por Marcos Veras ganha significativo relevo.

Imagens Fifa

Rodrigo Teixeira conseguiu parceria com a Globo Filmes desde o início do projeto de “O Filho Eterno”. E graças a esta parceria, teve acesso “rápido, fácil e a bom preço” às imagens de arquivo das Copas do Mundo. “A Globo nos levou à Fifa (Federação Internacional de Futebol), encurtando caminhos”.

O produtor não cita valores, mas garante ter pago “preço de tabela por minutagem”, e que “tudo foi mais simples do que imaginávamos”. Os valores em questão “foram mais baratos que os que temos pago por cessão de direitos de uso de músicas em nossa trilhas sonoras”.

“O Filho Eterno” é o terceiro lançamento que Teixeira realiza neste ano. O primeiro foi “A Bruxa”, de Robert Eggers, produção norte-americana de terror (e qualidade) à qual ele se associou e que, no Brasil, vendeu 600 mil ingressos. O segundo foi “O Silêncio do Céu”, do brasileiro Marco Dutra, protagonizado pelos argentinos Leonardo Sbaraglia e Chino Darín e pela brasileira Carolina Dieckman (12 mil espectadores e ainda em cartaz), produção Brasil-Argentina, filmada no Uruguai. A adaptação do romance de Tezza é um produto 100% brasileiro.

Por Maria do Rosário Caetano

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