Animação Slideshow — 25 maio 2017
Animação brasileira em alta
“Lino”, de Rafael Ribas

O Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, criado há 43 anos, no interior paulista, lança seu segundo longa-metragem, “Café – Um Dedo de Prosa”, de Maurício Squarisi, no Espaço Itaú Augusta, em São Paulo, na quinta-feira, 8 de junho. Dois meses atrás, o mesmo Núcleo lançou, no CineSesc e Circuito Spcine, o primeiro longa do coletivo campineiro, “A História Antes da História”, de Wilson Lazaretti, de 64 anos.

Squarisi, 58, somou atores (Vera Holtz e Wandi Doratiotto) ao desenho animado para – baseado no livro “A História do Café”, de Ana Luíza Martins – relembrar a trajetória do grão, da África até transformar-se em bebida consumida em cinco continentes.

No feriado de 7 de setembro, chegará aos cinemas “Lino”, de Rafael Ribas, “animação de padrão internacional”, com as vozes de Selton Mello, Paola Oliveira e Dira Paes. O filme de Rafael, 35 anos, filho do cineasta e publicitário Walbercy Ribas, 71, será lançado pela poderosa Fox. Ao contrário das produções do Núcleo de Campinas, destinadas a pequenos espaços de exibição, “Lino” pretende ocupar circuito encorpado. E, se possível, bater as bilheterias de “O Grilo Feliz” (217 mil ingressos, em 2001) e “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes” (371 mil, em 2009).

Se depender da vontade de Rafael Ribas, que codirigiu “Insetos Gigantes” com o pai, a produtora Start vai superar, nas bilheterias, os ingressos vendidos pelos filmes do “Grilo”. Com “Lino”, ele conta história, com ênfase no humor, de rapaz meio azarado, que anima festas infantis e sofre na mão da molecada. Para mudar de vida, ele recorre a uma mago, também meio desastrado, e acaba transformado em um monstro.

Neste exato momento, além destes três longas de animação, a produção brasileira mobiliza equipes dedicadas à feitura de 20 novos filmes, em técnicas variadas (do desenho ao stop-motion).

Estaria o cinema de animação brasileiro vivendo sua primavera? Os filmes têm conseguido dialogar com seu público? Ou continua a anos-luz do poderoso cinema de animação dos Estúdios Disney, que só em nosso território chega a vender, com um único título, sete milhões ingressos?

Estas perguntas se mostram relevantes depois de fatos dignos de nota. A produção brasileira em longa-metragem conquistou, por duas vezes consecutivas, o prêmio máximo do Festival de Annecy, na França, meca do filme animado. Primeiro com “Uma História de Amor e Fúria“, de Luiz Bolognesi, e com “O Menino e o Mundo”, de Alê Abreu. Os dois foram finalistas ao Prêmio Platino, destinado aos melhores do cinema ibero-americano. E “O Menino e o Mundo” conseguiu a proeza de ser finalista ao Oscar, em 2016, concorrendo com megaproduções dos Estúdios Disney.

A realidade, porém, tem múltiplas faces. Por um lado, a produção aumentou de forma significativa. Por outro, conseguir espaço no circuito exibidor tem sido muito difícil. Até hoje, contam-se nos dedos de uma mão os filmes de animação brasileiros que atingiram um milhão de espectadores.

Um caso emblemático: o longa-metragem “As Aventuras do Pequeno Colombo”, de Rodrigo Gava, produzido por Marco Altberg, passou pelos festivais e chamou atenção pela delicadeza de sua história, que envolve Cristovão Colombo, a Mona Lisa e Leonardo da Vinci. Mas não consegue vaga no circuito exibidor. A não ser que seja “arremessado” para cumprir tabela. Altberg prefere esperar. Mas até quando?

O cineasta Paulo Sérgio Almeida, editor do Boletim Filme B, que há 20 anos analisa e publica dados sobre o mercado de cinema no Brasil, lembra que “não é fácil atingir o público infantil, da mesma maneira que não é fácil manter a atenção de uma criança”. Aparentemente, “nós achamos que o público infantil não é exigente, mas isto não é verdade”.

Ele, que lançou filmes protagonizados pelos Trapalhões e por Xuxa, sabe que a oferta audiovisual infantil, nos nossos dias, é avassaladora. “As crianças têm à sua disposição, com grande facilidade de acesso, imensa oferta de entretenimento. Muitas vezes apenas apertando um botão. E de graça!”

Paulo Sérgio lembra que aprendeu, lançando filmes dos Trapalhões, Xuxa e desenhos animados, “que a criança, ao contrário do que se diz, não gosta de descobrir as coisas, ela prefere o conhecido, o que já vem pronto, ou seja, a marca”. Por isso, acha difícil que “um filme nacional de animação faça sucesso se não trabalhar, com grande antecedência, a sua marca e associá-la a diversos brinquedos, levando em conta a idade específica a que se destina cada filme”. Afinal, “a Disney não se fez da noite para o dia e mesmo esta grande empresa quebrou a cara várias vezes”.

O editor do Filme B propõe que “antes do cinema brasileiro tentar produzir um filme capaz de mobilizar crianças e adultos, ou para toda a família, seus realizadores têm que pensar em fazer um filme de animação só para as crianças”. Para atingir tal propósito, “há que dispor de roteiro superinteressante, personagens atraentes, ritmo, cor, música, história, argumento, como também de marketing e mídia. Só isso”.

Mercado de trabalho

O lado positivo da animação brasileira verifica-se no crescimento do mercado de trabalho. Há profissionais trabalhando muito, principalmente em séries televisivas. Graças à Lei da TV a Cabo (número 12.485, de 2011), que prevê a exibição de 200 minutos semanais de produção nacional, os animadores encontraram significativo espaço profissional.

No terreno da produção de longas animados, os números atuais são eloquentes se comparados com décadas anteriores. Nos anos 1950, um só título de animação foi produzido (“Sinfonia Amazônica”, de Anélio Latini). Na década de 1960, quando o Cinema Novo ganhou significativo reconhecimento em festivais internacionais, a produção animada voltou à estaca zero. Na década de 1970, mais dois modestos títulos (“Presente de Natal”, de Álvaro Gonçalves, e “Piconzé”, de Ypê Nakashima).

Nos anos 1980, graças aos Estúdios Maurício de Souza, de grande êxito nas tiras e revistas em quadrinhos, um feito se materializou: dez longas-metragens chegaram ao público, sendo oito da Turma da Mônica, e um, “Os Trapalhões no Rabo do Cometa”, fruto de parceria da produtora de Renato Aragão com a de Maurício de Souza. Lançado em 1985, o filme vendeu 1,3 milhão de ingressos. Da Bahia, veio o independente “Boi Aruá”, de Chico Liberato.

Com a crise detonada pelo Governo Collor, a produção audiovisual brasileira caiu a índices baixíssimos e a animação sofreu, igualmente, queda brutal. Apenas dois filmes (“Rocky & Hudson”, de Adão Uturusgarai, e “Cassiopeia”, de Clóvis Vieira) foram lançados e em modesto circuito. Mas, na primeira década dos anos 2000, voltou a apresentar bons resultados (dez longas). Alguns de sucesso razoável, como o dois “Grilo Feliz”, de Walbercy Ribas, “Cine Gibi” e “A Turma da Mônica em uma Aventura no Tempo”, marcos da volta dos Estúdios Maurício de Souza aos cinemas (depois de grande hiato), e “Xuxinha e Guto Contra os Monstros do Espaço”, de Góes & Saremba, que vendeu 600 mil ingressos. Entre os filmes lançados em poucas salas, o maior destaque foi “Wood & Stock – Sexo, Óregano e Rock and Roll”, de Otto Guerra (que vendeu 60 mil ingressos).

Circuitos ínfimos e bilheterias pouco expressivas marcaram a trajetória de “Brichos” e “Belowars”, ambos de Paulo Munhoz, “O Garoto Cósmico”, de Alê Abreu, e “As Aventuras de Gui & Estopa”, que introduziu nome feminino (o de Mariana Caltabiano) na direção de longas animados. Mariana assinaria, ainda, “Brasil Animado”, a primeira animação de longa duração feita, no Brasil, em 3D. Depois dela, mais dois nomes femininos seguiram abrindo a picada no difícil terreno do longa de animação: Célia Catunda, parceira de Kiko Mistrogiro, e Virgínia Curio. Em breve, a mineira Tania Anaya se agregará a este time.

A segunda década dos anos 2000 ainda nem chegou a termo e já ostenta estatística vistosa. De 2010 até este ano de 2017, já foram concluídos 20 filmes. Além dos dois que brilharam em Annecy, nos Prêmio Platino e (até) no Oscar, assistimos à consolidação de parceria entre animadores e grandes nomes do quadrinho e da charge brasileiros. Os mais notáveis são Ziraldo, Angeli e Laerte.

Chico Buarque

Entre os 20 títulos em processo de produção e que, se concluídos até 2020, farão desta década a mais produtiva de nossa história, um chama atenção: “A Arca de Noé”, projeto musical (e teatral) de Chico Buarque & Vinícius de Moraes. A dupla criou, nos anos 1970, um disco (e peça) com narrativas em forma de canção, que apaixonaram a meninada. À frente do projeto da “Arca” está o cineasta Sérgio Machado, um estreante na animação (ele consagrou-se com ficções como “Cidade Baixa” e documentários, como “Onde a Terra Acaba”).

Outros dois projetos partem de matrizes famosas. César Cabral, depois do curta “Rê Bordosa”, que ganhou uma carrada de prêmios e fãs apaixonados e bem-humorados, volta ao universo matador de Angeli, com “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”. Otto Guerra, que desbravou o universo de Angeli no terreno do longa, com “Wood & Stock”, vai agora de Laerte, com “Cidade dos Piratas”.

Guilherme Alvernaz vai levar “O Menino Maluquinho”, best seller de Ziraldo para as telas animadas. As narrativas do endiabrado menino já deram origem a três filmes com atores (Maluquinho 1 e 3, de Helvécio Ratton, e Menino Maluquinho 2, de Fernando Meirelles e Fabrizia Pinto). César Cabral, em parceria com João Tenório, tem mais um filme em processo de produção: “Um Pinguim Tupiniquim”.

O inquieto e malucão Ale McHaddo, que este ano lançou seu primeiro longa, “Bugigangue no Espaço”, promete para a próxima temporada, mais dois: “Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma” e “A Lazanha Assassina”. Outro doidão e irreverente, o carioca Marão, vem aí com “Bizarros Peixes das Fossas Abissais”.

Os festejados Luiz Bolognesi e Alê Abreu também trabalham seus novos filmes: “Imortais”, do primeiro, e “Viajantes do Bosque Encantado”, do segundo. Se continuar pelos caminhos abertos com “Uma História de Amor e Fúria”, que contou com as vozes de Selton Mello e Camila Pitanga, o paulistano Bolognesi vai buscar diálogo com o público adulto. Já Alê seguirá sua vereda lírico-poética-emotiva, podendo atingir também crianças.

A dupla Célia Catunda e Kiko Mistrogiro, que assinou dois longas da série “Peixonautas”, cuida agora dos destinos de “Tarsilinha”, versão infantil da grande grande pintora Tarsila do Amaral.

Por Maria do Rosário Caetano

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(1) Reader Comment

  1. …, olá, RÔ, o autor dos quadrinhos e inclusive do roteiro de “Rocky & Hudson”, é o Adão Iturrusgarai! …, matéria interessante. …, é bem verdade que não damos conta da abrangência porque pouca coisa chega aos cinemas e ou passa feito corisco. …, é sempre bom saber de produções que talvez um dia a gente só encontre mesmo na web. …, adoro animação, e (talvez por isso) alguns dos filmes citados considero fracos. …, notei que não falou de um seu favorito recente, o As Aventuras do Avião Vermelho” (2015) e também do “Até Que a Sbornia nos Separe” (2013). …, acho o bonito “O Menino e O Mundo”, é melancólico demais para o público infantil.

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