A Mostra de Cinema de Gostoso não tem júri oficial. Quem atribui os prêmios e o Troféu Câmara Cascudo é o público que assiste aos filmes no telão montado nas areias da Paria do Maceió. Este ano, os vencedores foram o longa documental paulista “Escolas em Luta”, de Eduardo Consoni, Rodrigo T. Marques e Tiago Tambelli, e o curta ficcional potiguar “O Fim de Tudo”, de Victor Ciriaco.

O comando do festival resolveu atribuir um Prêmio Especial (Troféu Câmara Cascudo) ao longa “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Barbosa, pela expressiva votação do público (foi o segundo mais votado) e pela discussão que o filme provocou na comunidade gostosense. Os 53 integrantes do Coletivo Nós do Audiovisual, que congrega jovens de vários distritos de São Miguel do Gostoso (Reduto, Tabua, Monte Alegre de Touros, Novo Horizonte, entre outros) dirigiram, durante sessão de debates, várias perguntas aos representantes do filme, o ator-protagonista João Pedro Zappa e o distribuidor Bruno Beauchamp.

Um quarto e último prêmio foi atribuído ao curta documental potiguar “Leningrado Linha 41″, de Dênia Cruz, pela Mistika, empresa de pós-produção audiovisual. Ariadne Mazetti, ao entregar o prêmio, lembrou que foram analisados todos os curtas produzidos no Rio Grande do Norte e apresentados na mostra (quatro vieram de Natal e três, de Gostoso). Por ter dirigido o filme escolhido, Dênia receberá prêmio em serviço de finalização de imagem e de som, no valor de R$ 8 mil.

Os quatro filmes premiados se fizeram representar por nomes importantes de suas equipes. Rodrigo T. Marques agradeceu, com empolgação, o primeiro troféu conquistado por “Escolas em Luta”, um bom exemplar do “cineativismo”. O filme registra a luta de estudantes paulistas, que ocuparam 241 escolas quando o Governo de São Paulo editou decreto de fechamento de 94 delas. O público aplaudiu sequências do documentário paulistano durante a exibição. Foi a sessão mais animada do festival.

“O Fim de Tudo” é um curta que une dois seres esquecidos numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Josy (Silvero Pereira) é um jovem de traços femininos, que cuida da mãe (Arly Arnaud), vítima de doença degenerativa. Ela acalanta uma boneca e não distingue mais a realidade da imaginação. Abandonada por todos, ela só conta com o filho homossexual para zelar por seu corpo volumoso e maltratado. E ele o faz com imenso carinho. Ao agradecer o Prêmio Câmara Cascudo, o roteirista do filme, Hélio Ronyvon, destacou que “uma palavra amiga dentro de casa” permite aos homoafetivos “um alento para as incompreensões do espaço externo, tão brutal”. Ressaltou o caráter político do filme “neste momento em que se fala em “cura gay” e lembrou que “o Brasil é um dos países que mais mata homossexuais” e que “o Rio Grande do Norte ocupa o terceiro lugar entre os Estados na apuração desta triste estatística”.

João Pedro Zappa, protagonista de “Gabriel e a Montanha”, e o distribuidor Bruno Beauchamp confessaram imenso amor pelo festival potiguar e pela cidade que não conheciam, mas que elegeram como “a mais gostosa do Brasil”. Prometeram voltar com novos filmes, em edições futuras.

Dênia Cruz e sua co-roteirista Luara Schamó agradeceram à Mistika pelo prêmio e garantiram que ele será fundamental para que sigam realizando novos trabalhos. E, por fim, o dedicaram aos moradores do conjunto habitacional de Leningrado, na zona oeste de Natal, que aguardam sua transformação em bairro, para que possam receber benfeitorias há muito ansiadas.

O filme registra a luta do MPL (Movimento de Luta por Bairros, Vilas e Favelas), que, em 2004, levou para terreno disputado por dois autoanunciados donos, centenas de pessoas. Lá, foram erguidos 800 precários barracos. O nome escolhido para a ocupação resultou de homenagem a Lênin, líder da Revolução Bolchevique. Boa parte do documentário é narrada em russo. E o filme evoca, em seu início, o cerco à cidade de Leningrado (hoje São Petersburgo), pelos nazistas, ocorrido em 41 (1941), mesmo número da linha de ônibus que passou, anos atrás, a atender aos moradores das 502 casas de alvenaria, substitutas dos barracos de outrora.

Depois da entrega dos prêmios, foram exibidos dois filmes: o curta-metragem “A Rotação da Terra”, de Matheus Sundfeld, rodado no Parque Eólico de São Miguel do Gostoso e protagonizado por jovens atores do município, e o longa documental baiano “Jonas e o Circo sem Lona”, de Paula Gomes. Este filme, sobre o sonho de um menino de dedicar-se ao circo, apesar da ferrenha resistência da mãe, ela mesma vinda da atividade circense, encantou a plateia, que o aplaudiu com vigor.

Eugênio Puppo, um dos organizadores da Mostra de Cinema de Gostoso, convidou o público para a quinta edição do festival, que acontecerá em novembro de 2018. Se depender da vontade dele, edições futuras do festival somarão, ao cinema potiguar e brasileiro, mostras internacionais. Afinal, a localização geográfica de São Miguel do Gostoso, no extremo norte do país, coloca o município (vocacionado aos esportes radiciais e ao turismo), próximo à Europa e à África. Puppo, que irá ao continente africano sequenciar as filmagens da série “História da Alimentação Brasileira”, segundo Câmara Cascudo, projeta uma primeira mostra dedicada ao cinema da pátria de Ousmane Sembene, Yossef Chahine, Idrissa Ouedraogo e Flora Gomes.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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