Entrevistas Slideshow — 07 fevereiro 2017
Entrevista: Júlio Andrade
Júlio em cena de "Redemoinho" © Walter Carvalho

Nenhum outro ator trabalhou tanto nos últimos anos no país como Júlio Andrade. No início de 2016, ele apareceu como líder religioso delirante num sertão escaldante, no road movie “Reza a Lenda”, de Homero Olivetto. Em novembro, os cinemas tiveram uma overdose da sua figura, com três novos trabalhos: o dançarino Lenny Dale, amigo de Elis Regina, em “Elis”, de Hugo Prata; o médico sobrecarregado de emergências e enfrentando dilemas morais de “Sob Pressão”, de Andrucha Waddington; e dois papéis, um pintor e um perito em arte, em “Maresia”, de Marcos Guttmann. Do último Festival do Rio, em outubro, saiu com o Troféu Redentor por dois filmes – “Sob Pressão” e o inédito “Redemoinho”, de José Luiz Villamarim, que estreia em 9 de fevereiro, no qual vive um mineiro que volta à sua Cataguases natal para um acerto de contas com um grande amigo do passado.

Mas não é só o cinema que lhe absorve nos últimos tempos. Quando Júlio me encontra, na casa alugada para ele pela produtora Conspiração, numa pequena vila no bairro do Humaitá, no Rio, está exausto depois de um longo dia de filmagens. Foram 17 cenas rodadas apenas naquele dia para a segunda temporada da série “1 Contra Todos”, do canal Fox, com direção de Breno Silveira (“Gonzaga – De Pai para Filho”), em que ele vive o advogado que vira traficante na cadeia e agora ensaia sua entrada na política como deputado. Lançada em 2015, foi a maior audiência de todos os tempos de um produto brasileiro no canal.

De certa forma, seu espírito livre sempre desafiou o caminho comum traçado para um jovem. Uma vizinha (“que sacou alguma coisa em mim”) o convidou a fazer teatro amador quando ele tinha uns 15 anos e tocava numa banda. Na sexta série, ele, que nunca se deu bem na escola, disse ao pai que que queria sair do colégio para se dedicar apenas à música e ao teatro. O pai fez o que quase nenhum outro faria e disse: “A vida é tua. É tu quem sabe.” “Hoje, lembro disso e penso o quanto ele foi maluco. Mas também sensacional, porque percebeu que minha parada era outra, e a escola estava me atrapalhando”, recorda.

Ainda adolescente, com uma peça infantil chamada “Um Dia na Floresta”, Júlio passou mais de um ano em turnê por dezenas de cidades do Rio Grande do Sul. “Não lembro nem se cheguei a repetir de ano por conta dessa turnê”, lembra (ou deixa de lembrar), a memória totalmente desapegada. Mas o teatro ainda era um hobby, e ele ainda não sabia se queria trabalhar nele o resto da vida.

Aos 18, foi obrigado a servir o Exército. Tentou alegar que tinha asma, mas não tinha pistolão e foi convocado. Cabeludo, no maior estilo hippie, virou alvo do tenente que queria colocar os “marginais” nos trilhos. “Nunca vou me esquecer do tenente Otacílio nos encarando com um meio sorriso e dizendo: ‘Bem-vindos ao Exército brasileiro’. Essa frase me perturbou durante muito tempo.” No confinamento, ele não deixou de viver: tatuou um violão no braço e, de posse do instrumento, fez um blues com o hino do quartel. Foi obrigado a apresentar o hino ao tenente, que logo o censurou. Ainda assim, virou o querido da turma – nos fins de semana, promovia churrascos em sua casa e convidada todo mundo, do soldado ao general.

Depois de muitos anos, em que ficou mais conhecido em Porto Alegre como ator de comédia – nos palcos, em telefilmes do canal RBS e em comerciais –, o diretor paulista Beto Brant surpreendeu e apostou nele para um forte papel dramático, o rapaz desempregado e à beira do alcoolismo de “Cão sem Dono”, adaptado de um livro de Daniel Galera. Desde então, foi um convite atrás do outro, incluindo quatro personagens “reais”: Gonzaguinha, Raul Seixas, Paulo Coelho e agora o dançarino Lenny Dale, amigo de Elis Regina. Na TV, depois de algumas poucas novelas, tem se dedicado apenas a produções de menor duração e de estética mais trabalhada.

O ator em filme de Beto Brant, “Cão sem Dono”, seu primeiro trabalho no cinema quando ainda vivia em Porto Alegre

Leia a seguir a entrevista:

 

Revista de CINEMA – Os diretores veem seu trabalho na tela e vão convidando você para seus filmes, ou rola uma indicação entre eles?

Júlio Andrade – Sinceramente, não sei (risos). Tento ser pontual, disciplinado, e sempre que pego um trabalho é porque gostei do personagem e da história toda. Devo ter essa fama. Construo uma relação com todos os diretores, e não entro de bobeira no trabalho, gosto de viajar junto com eles.

Revista de CINEMA – Hoje você é muito conhecido pelos papéis dramáticos, mas começou fazendo comédia em Porto Alegre.

Júlio Andrade – Que coincidência, hoje mesmo eu fiz uma cena de comédia para a série. Meu pai vive dizendo que, quando eu fizer uma comédia no cinema, vou arrebentar. E eu respondo: “Não, pai, meu negócio é drama!” (risos).

Revista de CINEMA – Você já tem grandes parcerias com o José Luiz Villamarim, nas séries “Justiça” e “O Rebu” e agora no filme “Redemoinho”, estreia dele no cinema. Por que você sempre volta a ele? 

Júlio Andrade  – O Villamarim é hoje um cara muito importante nesse esforço de se fazer um trabalho mais autoral dentro da televisão. Ele tinha me visto em “O Homem que Copiava”, do Jorge Furtado, e me convidou para fazer um personagem bacana e superdifícil na série “Força Tarefa” – quando ele ainda nem era esse supernome que é hoje. Com ele, quase todas as cenas são feitas no take 1 ou 2 [com nenhuma ou apenas uma repetição]. Ele constrói uma atmosfera dentro do filme; gasta mais tempo conversando, com uma música rolando, todo mundo em silêncio trabalhando… E quando vai pra cena é sempre uma viagem muito louca. “Justiça” foi uma experiência ainda mais radical. Ali, o imprevisto era ainda mais interessante.

O Zé me convidou para o “Redemoinho” já na época de “O Rebu”. Hoje, vejo como um dos trabalhos mais importantes que fiz até hoje; me vejo muito maduro nesse filme, como não me vi em outros trabalhos. Fazíamos só duas cenas por dia, chegamos duas semanas antes em Cataguases. Houve esse tempo precioso para criar, que o cinema tem.

Júlio Andrade contracenando com Irandhir Santos (à esquerda), em “Redemoinho”, de José Luiz Villamarim, previsto para estrear em fevereiro. © Walter Carvalho

Revista de CINEMA – Você já fez grandes elogios ao Chico Acioly como preparador dos atores em “Redemoinho”. Você trabalha bem com preparadores de elenco?

Júlio Andrade – Eu adoro esse trabalho, não vejo problema nenhum. Se o diretor chamou um preparador, é porque quer que a coisa fique realmente boa. Não é que ele não saiba dirigir o ator; ele quer buscar um tom, um caminho. E eu gosto de ser dirigido. O Chico me dizia: “o Gildo [personagem] é alguém que fala pra fora. Projeta essa voz pra fora”. Ele sempre pegou no meu pé com o meu jeito de falar pra dentro, mais introspectivo. O Gildo é um cara meio escroto, que invade o espaço dos outros, passou 20 anos em São Paulo e volta a Cataguases muito arrogante.

Eu saí de Porto Alegre quando senti que já tinha trabalhado com todo mundo. Vendi meu carro, vim pro Rio de Janeiro, e quando cheguei, logo percebi que eu era só mais um aqui. Lá, eu tinha um reconhecimento, aqui, ninguém me conhecia. Tive de começar tudo de novo, o que é uma grande experiência. Você vê aquilo que faz sendo feito de uma maneira muito mais profissional. Tive que lapidar o sotaque, que era um gaúcho muito carregado. Eu ouvia os cariocas e ficava calado, com vergonha de parecer um ET (risos).

Revista de CINEMA – E a experiência de viver o médico de “Sob Pressão”? Foi muito diferente de “Redemoinho”?

Júlio Andrade – “Sob Pressão” foi um dos filmes mais difíceis que já fiz. Foi um filme cirúrgico literalmente, muito técnico. Havia um médico com a gente, supervisionando as cenas e corrigindo os erros, ensinando a maneira certa de pegar uma tesoura e fazer uma incisão, por exemplo. Havia a dificuldade de estar de máscara e interpretar só com os olhos. O Andrucha gosta de cobrir a cena toda, filmar de muitos ângulos, para depois montar uma cena de cortes rápidos. E eu sempre tive pavor de sangue, desmaiei uma vez só de ver meu dedo cortado, ia dormir com as cenas na cabeça. Fizemos laboratório em três hospitais, vimos bandido chegando com tiro no pescoço. Os primeiros dias foram muito difíceis, mas lá pelo quarto dia eu já queria saber quem era o próximo paciente. Um dia, eu estava com jaleco, um paciente me segurou o braço e perguntou: “eu vou ficar bom, doutor?”. Eu pensei um pouco e respondi: “Vai. Vai ficar.” Foi maravilhoso. Como o projeto inicial era para um telefilme, rodamos em apenas 18 dias, foi bem frenético.

Júlio como o médico em “Sob Pressão”, de Andrucha Waddington, lançado no final do ano passado, que rendeu ao ator o troféu Redentor do Festival do Rio. © Páprica Fotografia

Revista de CINEMA – Houve uma certa polêmica em torno do dilema do seu personagem no filme, entre atender primeiro um traficante ou um policial ferido.

Júlio Andrade – Para mim, esse dilema se resume assim: o policial vai atrás de bandido; o médico salva vidas. É simples. O povo pega algo sem contexto e joga para outro lado. As pessoas não param pra ler as coisas e entender o que você está falando, se colocar no ponto de vista do médico. O médico não pergunta o que tu faz da vida e de onde vem essa bala. Ele precisa salvar você. Depois daquilo [a participação no programa da Fátima Bernardes, em que comentou o dilema], recebi muitas mensagens agressivas no Instagram, do tipo “não vou mais ver teus filmes”, “você não me representa”.

Revista de CINEMA – Você teve que superar o medo de sangue para o “Sob Pressão”, e para o “Maresia” precisou vencer o medo de mar.

Júlio Andrade – Pois é. Mas do “Maresia” eu saí um pouco pior. Fiz as pazes com o mar, mas não resolvi meu trauma, porque tivemos uma situação muito difícil nas filmagens. A gente estava gravando numa pedra, veio uma onda gigante e levou a mim, o fotógrafo e a maquiadora. Bati nas pedras, fui até o fundo do mar. Quando estava lá no fundo, lembro que pensei por um momento: “Eu vou ser pai!”, e encontrei forças pra voltar. O Marcos [Guttman, diretor] começou a gritar para eu nadar para o fundo do mar, que estava mais calmo. Felizmente um barco de pescador nos salvou.

Revista de CINEMA – Você está gravando a segunda temporada da série “1 Contra Todos”, da Fox, maior audiência de conteúdo brasileiro do canal. Como foi a experiência de fazer uma série para a TV paga?

Júlio Andrade – Foi uma surpresa esse sucesso. Para mim, haviam dito que seria só uma temporada. Eu já tinha trabalhado com o Breno Silveira no “Gonzaga”. Achei interessantíssima essa curva do personagem, um advogado que tem que se passar por traficante para sobreviver na cadeia. Ao mesmo tempo, ele é um pai de família, ético. Eu tinha acabado de assistir a série “Breaking Bad” e estava avaliando o que eu queria fazer. Estamos rodando a segunda temporada e talvez haja a terceira. Meu personagem agora entra na política, no Congresso, que não deixa de ser outro tipo de cadeia. E esta temporada vem com um certo humor nas situações.

Cena da série “1 Contra Todos”, da Fox, dirigida por Breno Silveira, em que Júlio vive um advogado que vira um traficante na cadeia

Revista de CINEMA – Você trabalhou nos últimos tempos com cinco diretores bem diferentes – além do Andrucha, do Villamarim e do Breno Silveira, houve também o Hugo Prata e o Marcos Guttman. Como foi trabalhar com eles?

Júlio Andrade – “Maresia” era um projeto de dez anos do Guttmann, foi uma honra ser convidado. É um cara muito doce, que me deixou ser coautor desse trabalho – certamente filmaria com ele de novo. Conseguiu fazer um filme poético, com um tempo diferente. O Breno é um cara pilhado, que mesmo no final de um dia exaustivo vibra com cada cena. Põe a mão na massa, ajuda a carregar as coisas no set. Com o Hugo, fui bem sincero quando ele me chamou para fazer o Lenny Dale: “cara, não vou conseguir aprender a dançar em duas semanas. Vamos tentar encontrar esse personagem em outro lugar”. Pedi uma preparadora de elenco só pra mim, a Lu Britz, e ficamos ensaiando. Eu já tinha uma relação ótima com a Andréia Horta – há muitos anos, numa mesa de bar, brincamos que eu sonhava em fazer o Gonzaguingha e ela, a Elis, muito antes de acontecer.

Revista de CINEMA – É verdade que às vezes você se concentra e não quer falar com ninguém no set?

Júlio Andrade – Como todo ator, eu tenho meu método. Quando tenho muitas cenas, não consigo decorar as falas com antecedência, acabo decorando na hora. Faço duas leituras e já vou para a cena. Já fui um cara muito calado e reservado no set. A culpa é do Beto Brant, que no “Cão sem Dono” me deu um apartamento pra morar, me deixou dias morando lá, disse que eu podia escolher o cenário, me deixou escolher todos os atores que fariam meus parentes (risos). Eu pensava: será que em todo filme é assim? Uma vez eu estava dormindo, fui acordando e ouvi alguém sussurrando: “Ação…”. A câmera já estava ali me filmando, já estava rolando a cena. Esse método ficou comigo um bom tempo, usei no “Hotel Atlântico” com a Suzana Amaral. Eu peguei uma grana, fui viajar sem destino, como o personagem; cheguei na rodoviária sem saber pra onde eu ia. E eu não me assistia nunca no vídeo depois de filmar. Mas hoje tudo mudou, porque teve um longo caminho. Peguei o que me interessava em cada diretor. Hoje, estou aberto a qualquer conceito. Só não viajaria sem rumo hoje, porque agora tenho meu filho de menos de um ano e estou curtindo esse momento.

Júlio Andrade, em cena de “Maresia”, de Marcos Guttman, um dos papéis mais difíceis da sua carreira, onde teve que superar seu medo do mar

Revista de CINEMA – Você recusou viver o Marcelo Odebrecht no filme da Lava-Jato, “Polícia Federal – A Lei É para Todos”. Por quê?

Júlio Andrade – Eu não faria o papel, mesmo agora. Acho que tem que esperar um pouco. Fazer um filme sobre algo em que eu nem sei o que vai acontecer ali na frente? Não dá. Prefiro essa pegada fictícia da série [“1 Contra Todos”]. Na primeira temporada, tem uma cena em que o meu personagem, ao chegar na cadeia, cumprimenta os bandidos um por um. Na segunda, tem outra bem parecida em que eu chego no Congresso e vou cumprimentando cada deputado.

Revista de CINEMA – Você se vê atuando a vida inteira?

Júlio Andrade – Hoje, não tem como eu fugir disso. Não conseguiria viver de outra forma. Se eu pudesse, faria só um filme por ano, com um personagem bem elaborado, tempo pra ensaiar. Sou um cara que sobrevive de cinema hoje. Eu escolho meus trabalhos – não tenho medo de falar isso. Eu nego trabalhos muito mais do que aceito. Conquistei isso depois de bater muito nessa tecla, de só fazer o que eu quero na minha profissão. Cada vez vou selecionar mais os projetos. Mas tenho um plano B: tenho uma marcenaria na minha casa em São Paulo, gosto de trabalhar como marceneiro. É onde eu recarrego minha bateria, e onde de certa forma eu construo meus personagens. Algumas pessoas me dizem: “você não acha que, quando ficar velho, vai ter menos trabalho pra você?” Acho que não. Ontem eu fazia filho, hoje eu faço pai, amanhã vou fazer avô.

Revista de CINEMA – O que tem de inédito seu para sair agora?

Júlio Andrade – O “Malasartes e o Duelo com a Morte”, do Paulo Morelli, em que eu faço a Morte [que estreia em agosto]. E vou viver um músico mais velho, de 50 e tantos anos, no próximo filme da Monique Gardenberg [diretora de “Benjamin” e “Ó, Paí, Ó”]. Ele será parte de uma grande família de músicos nordestinos que vive em São Paulo.

Revista de CINEMA – Que colegas você admira ao ver o trabalho no cinema?

Júlio Andrade – O Irandhir Santos, com quem eu trabalhei em “Obra” e “Redemoinho”. Ele vive o personagem diariamente, tem cadernos imensos de anotações e desenhos sobre os personagens. O João Miguel, padrinho do meu filho, que tem como processo o acaso e o tempo – foi ele que, em “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) me fez enxergar o cinema a partir da óptica do ator. Fora do Brasil, o Christian Bale – o trabalho dele em “O Operário” (2004), em que ele emagreceu muito, ou o cracudo de “O Vencedor” (2010) é maravilhoso.

Também busco um caminho diferente para cada personagem, não consigo cristalizar em uma coisa só. Sou muito observador, meu banco de dados tem muita informação. No fim das contas, atuar é trabalhar com níveis de energia. Tem cenas em que eu preciso me agitar antes de rodar; para outras, eu me fecho, escuto uma música. Para me concentrar, vou esvaziando minha mente, deixo os problemas pra trás e deixo o personagem e a história entrar. Costumo dizer que eu não faço filmes; faço cenas. Cada cena pra mim é muito importante.

 

Por Thiago Stivaletti

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